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A verdade por trás da maior trapaça dos mares

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Colin Firth faz o papel do navegador Donald Crowhurst, cuja esposa é interpretada por Rachel Weisz Imagem: Divulgação

Jorge de Souza

Colaboração para o UOL

28/04/2018 13h40

Em 1968, nove barcos, cada um com um só homem a bordo, partiram da Inglaterra para uma competição inédita: dar a volta ao mundo pelos sete mares, sem escalas. O desafio daria fama e um bom prêmio em dinheiro ao vencedor. E estas duas coisas encheram os olhos de um, até então, desconhecido velejador de fim de semana, dono de uma empresa de fundo de quintal que acabara de lançar um obscuro produto náutico. Seu nome: Donald Crowhurst — o navegador que acabaria entrando para a história pela porta errada.

A história (verídica) de Crowhurst estreou nos cinemas na última quinta-feira, com o título "Somente o Mar Sabe", estrelado brilhantemente por Colin Firth, que faz o papel do navegador mais que ousado, e Rachel Weisz, sua compreensiva -- e apreensiva -- esposa. Alem de contar um feito inimaginavel por qualquer pessoa mais sensata, o filme tem o mérito de agradar tanto a quem gosta de aventuras no mar quanto quem apenas aprecia um história tocante, já que se trata de um drama. Um drama familiar, embora se passe no mundo solitário -- e atormentado -- de Crowhurst em alto-mar.

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Crowhurst era um simples velejador de fim de semana, dono de uma pequena empresa de equipamentos de navegação no interior da Inglaterra. Mas, em busca de fama e vendo naquela regata uma oportunidade de divulgar seus produtos, resolveu se inscrever. Ele não tinha sequer um barco à altura do desafio de atravessar o planeta velejando. Muito menos dinheiro para construí-lo. Mas, persuasivo, conseguiu convencer um rico empresário a financiar a construção de um barco que ele mesmo projetara. Em troca, assinou um contrato no qual se comprometia a entregar sua casa e sua empresa ao patrocinador, caso não completasse a competição.

O barco de Crowhurst só foi para a água no último dia do prazo (os competidores não precisavam largar juntos, porque o que valeria seria o total de dias gastos na travessia) e com sérios problemas, que foram se agravando nos dias subsequentes. Crowhurst passava os dias consertando o que ia quebrando. Mas ele não podia desistir, porque isso seria sua ruína financeira. Por outro lado, ele sabia que o seu barco não só não tinha nenhuma chance de vitória, como sequer seria capaz de completar a prova. Foi quando Crowhurst teve a ideia que, esta sim, acabou selando o seu fim: ele “venceria” a regata, mas sem sair de onde estava.
 
Como, naquela época, não havia GPS nem navegação por satélite, cabia aos próprios competidores irem informando, pelo rádio, os avanços que faziam no mar. Bastava, portanto, começar a passar coordenadas fictícias, para “assumir” a liderança da competição na reta final, que era ali mesmo, no Atlântico, de onde ele jamais saira com seu problemático barco. E foi assim que começou a grande farsa dos mares.

Crowhurst passou a enviar mensagem com avanços extraordinários, quando, na verdade, estava parado, no meio do oceano. Chegou até a se aproximar do litoral do Nordeste brasileiro, sem, porém, ser descoberto. Também parou na Argentina, para consertar o barco, que não ia nada bem. O gerador mal funcionava, o motor inundara e o casco tinha tantas rachaduras que Crowhurst passava os dias retirando água com um balde.

Lá na frente, contudo, as dificuldades para os outros competidores também não eram poucas. Entre os nove barcos que largaram, só três continuavam na competição: os ingleses Robin Knox-Johnston e Nigel Tetle. Knox-Johnston foi o primeiro a retornar à Inglaterra. Mas, no total de dias gastos na travessia, era certo que perderia para Tetley, que vinha em segundo, e até para o mentiroso Crowhurst, que, pelo rádio, agora dizia estar no encalço do rival e se aproximando rapidamente. Era o ato final da farsa. O momento de “assumir” a liderança da competição.

Mas Crowhurst percebeu que, se "vencesse", fatalmente seria desmascarado, quando os fiscais averiguassem a sua rota. Decidiu, então, abrir mão do prêmio e apenas terminar a prova, garantindo assim a manutenção de sua casa e sua empresa. Mudou, então, de estratégia: chegaria em último, porque ninguém se preocuparia em investigar um perdedor. Mas quis o destino que não fosse assim.

Pressionado pelos falsos comunicados de Crowhurst, que relatavam avanços acelerados, Tetley forçou o seu barco e acabou naufragando. Ao saber do desastre do adversário, Crowhurst ficou desesperado. Agora, ele estava condenado a vencer a competição e encarar a verdade sobre a sua farsa. Foi demais para o seu já fraco equilíbrio emocional. Ele passou a ter alucinações e foi perdendo a sanidade. Por fim, perdeu também o rádio, seu único meio de contato com o restante da humanidade. Para o atormentado Crowhurst restou apenas os diários do barco. E foi neles que ele confessou sua farsa, antes de, num dos primeiros dias de julho de 1969 (a data ao certo jamais foi sabida), atirar-se ao mar.

Dias depois, o seu barco foi encontrado à deriva e o honesto mundo das regatas entrou em choque. Jamais havia acontecido nada sequer parecido.

Crowhurst bem poderia não ter confessado seu plano e morrido como um herói, em vez de um farsante, poupando assim sua família do constrangimento que carrega até hoje. Mas preferiu contar a verdade.

Coube, no entanto, a outro competidor um gesto bem mais nobre. Robin Knox-Johnston, o único participante a, por fim, completar a prova, doou o prêmio da vitória à família do velejador trapaceiro. Crowhurst, por fim, conseguiu o dinheiro que buscava. Mas pagou com a vida — e a honra — por isso.

E é isso que o filme mostra, com um envolvimento que vai agradar tanto a quem conhece o mundo dos barcos quanto quem só busca um bom divertimento no cinema

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