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Cidade da Índia onde pessoas vão para morrer tem cremações ao ar livre

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Localizada às margens do rio Ganges, Varanasi é uma das cidades mais sagradas para os hindus Imagem: Getty Images

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

19/04/2018 04h00

Duas crianças correm alegremente empinando pipas pelas enormes escadarias que conectam as ruas de Varanasi ao rio Ganges. No seu trajeto, elas passam por vacas se locomovendo vagarosamente ao lado dos degraus (e comendo alguns pedaços de lixo que aparecem no meio do caminho), centenas de fiéis entrando na água para realizar suas orações e dezenas de turistas tirando fotos de todo o cenário.

Os pequenos não se detêm nem quando cruzam uma área da margem do Ganges dominada por enormes fogueiras e coberta por fumaça. Eles driblam as chamas sem perder o controle das pipas no céu, dão risadas em alto e bom som e seguem seu caminho.

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Na Índia, cadáveres são queimados entre vacas e meninos empinando pipas Imagem: Getty Images

No meio das labaredas ardem, ao ar livre, cadáveres de pessoas recém-falecidas. À sua volta, os parentes dos mortos, vestidos de branco (uma espécie de cor do luto na Índia), olham calmamente para seus entes queridos sendo consumidos pelo fogo.

Observo tudo isso de perto e me pergunto se as crianças não cometeram um sacrilégio ao atravessar esta área de cremações fazendo bagunça. Ninguém, porém, parece dar a mínima

Tenho um guia turístico ao meu lado, e ele me explica que, para muitos hindus, é uma espécie de felicidade morrer em Varanasi.

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Fumaça paira sobre escadaria de Varanasi onde os mortos são cremados Imagem: Getty Images

Depois da cremação, as cinzas são jogadas no sagrado rio Ganges, um ato que, segundo o hinduísmo, ajudará o falecido a transcender e atingir "moksha", ou seja, a libertação do ciclo de reencarnações que prende as pessoas aos sofrimentos da Terra, um dos grandes objetivos da fé hindu.

É raro, neste local, ver algum alguém chorando a perda de seu pai, mãe ou afins. A cerimônia parece mais um momento de transição muito bem aceito por todos os presentes.

Bairro dos moribundos

A escadaria das cremações é como uma linha de produção: assim que as cinzas são jogadas na água, outro corpo aparece nas margens do rio para ser coberto por madeira e consumido por chamas intensas. 

Quem costuma carregar, em macas sobre os ombros, os cadáveres até o local destas cerimônias são os chamados "dalits", pessoas pertencentes à mais baixa casta da sociedade hindu e que fazem serviços considerados sujos ou indignos pelos indianos.

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Vaca circula calmamente por área comercial de Varanasi, na Índia Imagem: Getty Images

"Enquanto os cremados conseguem transcender, os 'dalits' não precisam morrer para chegar ao inferno. Já vivem nele", diz meu guia, dando uma risada um tanto perturbadora.

Depois de vermos as cremações, ele me leva a uma viela que fica bem atrás das escadarias de Varanasi.

Ao chegar lá, sinto que estou no beco de uma favela brasileira: o local é cercado por casebres caindo aos pedaços. Na entrada e dentro destas edificações, aparecem velhinhos de aspecto doentio, o que lembra o corredor de um hospital. 

"Estas pessoas vieram de toda a Índia para morrer aqui", diz meu guia. "Eles vão ficar aqui esperando até chegar o momento de sua morte. Depois terão seus corpos levados para o Ganges para serem cremados e suas cinzas serão jogadas no rio. Isso é o que todos querem". 

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Corpo é depositado às margens do rio Ganges para ritual de cremação ao ar livre Imagem: Getty Images

Unidos pela fé, muitos dos fiéis acabam separados por suas condições financeiras. Pessoas mais abastadas são cremadas no meio da madeira de sândalo, que possui um forte (e, para muitos, agradável) aroma. Cadáveres de famílias sem recursos acabam incinerados dentro de madeiras bem menos nobres. O cheiro de carne queimada, entretanto, é o que marca o ambiente da escadaria das cremações. 

Um pulinho no rio?

Ao chegar a Varanasi, eu tinha um pensamento em mente: vou pular com tudo no Ganges e sentir como é nadar em um dos cursos de água mais sagrados do mundo. 

Depois de pisar nas margens do rio, porém, desisti na hora. Temi contrair uma doença grave que acabasse com minha viagem pela Índia.

Em Varanasi, a água do Ganges tem aspecto de lodo. E não é difícil entender a razão disso: além das cinzas humanas jogadas ali diariamente, o rio é usado como lugar para lavar roupas, para receber esgoto de enormes tubulações que chegam dos subterrâneos da cidade e como local de banho para bovinos.

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Em Varanasi, hindus entram no rio Ganges para realizar rituais religiosos Imagem: Getty Images

Ao mesmo tempo, fiéis entram no Ganges todos os dias para submergir o corpo e lavar os pecados da alma, realizar orações e até beber as águas locais (e, de maneira milagrosa, não morrer). 

E, no meio desta multidão de crentes, surgem os sadhus, homens hindus que, teoricamente, se desprenderam de todos os bens e atitudes mundanas com o objetivo de transcender à condição humana e atingir "moksha".

Eles não costumar ter propriedades, possuir trabalho e fazer sexo. Vivem de esmolas e passam a vida a meditar, a rezar e a estudar textos religiosos (principalmente os hinduístas). E não é raro vê-los circulando nus por locais sagrados da Índia, como Varanasi.

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Os sadhus estão entre os personagens mais interessantes de Varanasi, na Índia Imagem: Getty Images/iStockphoto

E há, entre os sadhus, o grupos dos chamados "aghori", que adotam uma prática única: muitos deles comem carne de cadáveres humanos. Eles fazem isso, entre outras razões, para provar que podem transcender de verdade à condição do homem, mostrando que nada do que é material pode afetá-los.

Se você quiser fazer uma foto inesquecível de sua viagem pela Índia, tente encontrar um sadhu nas margens do Ganges e convencê-lo a posar para um retrato: com suas costumeiras barbas longas, dreadlocks, caras pintadas e olhos extremamente profundos, serão imagens que irão encantar pessoas pela posteridade.

No meio dos chocantes aspectos do hinduísmo, há alguma beleza.

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