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Seguido até no banheiro, brasileiro conta como é visitar a Coreia do Norte

Mike Weiss/Arquivo pessoal
Em Pyongyang, o brasileiro Mike Weiss (na foto) foi incentivado a reverenciar as estátuas de líderes norte-coreanos Imagem: Mike Weiss/Arquivo pessoal

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

15/04/2018 04h00

Ditadura comunista que aprisiona opositores em campos de concentração e ameaça o mundo com mísseis intercontinentais. País onde as pessoas passam fome e são doutrinadas a venerar governantes cruéis e megalomaníacos. Inimigos mortais dos Estados Unidos.

Com uma fama assim, não surpreende que a Coreia do Norte não seja, nem de longe, o destino de férias dos sonhos de grande parte dos turistas do mundo.

Mas como é viajar nesta fechada e desconhecida nação asiática?

Mike Weiss/Arquivo pessoal
Mike Weiss visitou a Coreia do Norte no inverno: muito frio e movimentos controlados Imagem: Mike Weiss/Arquivo pessoal

Após visitar mais de 100 países do globo, o brasileiro Mike Weiss, 34 anos, resolveu ir até o território norte-coreano e ver, com seus próprios olhos, se o lugar se é tão assustador como dizem. E, para ele, foi uma das experiências de viagem mais únicas de toda a sua vida. 

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Primeiramente porque, na Coreia do Norte, o turista quase não tem autonomia. "Para entrar no país, precisei contratar, de antemão, os serviços de uma agência turística autorizada pelo governo norte-coreano", conta ele. "São empresas que oferecem roteiros fechados, que irão levar o turista apenas a atrações predeterminadas".

Getty Images/iStockphoto
Visão panorâmica de Pyongyang, com a torre Juche ao fundo Imagem: Getty Images/iStockphoto

Enquanto esteve nas ruas do território norte-coreano, Mike foi acompanhado durante todo o tempo por uma guia turística. E ela o conduziu, principalmente, a lugares que promoviam a suposta grandeza da Coreia do Norte. Ir, por exemplo, até a periferia da capital, Pyongyang, nem pensar.

"Um dos lugares que visitamos foi o Grande Monumento de Mansudae, onde há estátuas [feitas de bronze e com 20 metros de altura cada uma] do Kim Il-sung e do Kim Jong-Il [os falecidos líderes norte-coreanos que são, respectivamente, o avô e o pai do atual governante do país, Kim Jong-un]. Fomos incentivados a reverenciar as estátuas, inclinando o corpo em direção ao chão, e a deixar flores a seus pés, exatamente como fazem os nativos".

Outra parada do tour foi a torre Juche, com 170 metros de altura, e que oferece uma visão panorâmica privilegiada de Pyongyang, além de ter um nome que é uma referência à Ideologia Juche, uma espécie de doutrina oficial do governo norte-coreano que defende, entre outras coisas, "a independência política", a "autossuficiência da economia" e a "autoconfiança militar" da Coreia do Norte.

Mike Weiss/Arquivo pessoal
Ao visitar a Coreia do Norte, turistas são acompanhados por guias durante quase todo o tempo Imagem: Mike Weiss/Arquivo pessoal

A casa onde Kim Il-sung (o primeiro líder totalitário da Coreia do Norte) teria passado a infância também fez parte do passeio, assim como um museu dedicado à Guerra da Coreia, que, nos anos 1950, opôs os Estados Unidos à Coreia do Norte. O local exibe diversas armas americanas capturadas no conflito, assim como o navio estadunidense USS Pueblo, detido pelo governo norte-coreano em 1968 depois de a embarcação ter, supostamente, invadido o mar territorial do país. Um verdadeiro troféu.

Na "pior empresa aérea do mundo"

Para Mike, entretanto, a aventura de visitar o território norte-coreano começou antes de ele entrar no país. "Para chegar à Coreia do Norte, tive que ir até a China para pegar um voo entre Pequim e Pyongyang", lembra ele. E o avião que iria fazer a viagem era da companhia estatal norte-coreana Air Koryo, que já foi eleita, pela respeitada entidade Skytrax, a "pior empresa aérea do mundo".

Mike Weiss/Arquivo pessoal
No avião da Air Koryo, Mike recebeu um exemplar do "The Pyongyang Times" Imagem: Mike Weiss/Arquivo pessoal

Supreendentemente, Mike não achou os serviços e a estrutura do voo ruins. "A viagem foi realizada com um avião russo que parecia em bom estado, não houve atrasos e o serviço de bordo foi eficiente. Já voei em companhias aéreas bem piores", conta.

Durante o voo, o brasileiro recebeu um exemplar, em inglês, do jornal "The Pyongyang Times", controlado pelo regime norte-coreano e que costuma trazer manchetes como "King Jong-un visita fazenda de legumes".

Mais impactantes, porém, foram as recomendações dadas a Mike pela agência turística que ele contratou. Uma delas dizia: "não tente entrar na Coreia do Norte com bíblias ou qualquer outro tipo de material religioso".

Getty Images
Em Pyongyang, soldados reverenciam estátua gigantesca de Kim Il-sung Imagem: Getty Images

E, assim que pisou no país, o brasileiro percebeu que deveria tomar muito cuidado com os símbolos sagrados locais. "Vi um estrangeiro carregando um jornal dobrado sob o braço, e na capa havia uma foto do Kim Jong-un. Um guia turístico chamou a atenção dele, dizendo que a imagem do líder norte-coreano jamais poderia ser dobrada daquele jeito, que era um sinal de desrespeito".

Seguido até o banheiro

Atitudes de desrespeito podem trazer graves consequências para estrangeiros em solo norte-coreano. Em 2016, um jovem turista norte-americano foi detido após supostamente roubar um pôster de propaganda do governo da Coreia do Norte em um hotel de Pyongyang. Ele ficou preso por 17 meses, entrou em coma por conta dos próváveis maus-tratos, foi libertado em estado vegetativo e morreu logo depois de voltar aos Estados Unidos.

Mike não passou por nenhuma situação ameaçadora enquanto esteve lá (e fala, inclusive, que foi muito bem tratado pelos nativos), mas se sentiu vigiado de perto em algumas ocasiões. "Em uma noite, a guia me levou a um bar de Pyongyang. Fui ao banheiro e percebi que fui seguido por um funcionário da agência de turismo. Eles não me deixavam sozinho nem por um minuto".

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O brasileiro Mike Weiss tira selfie na frente de edifício da capital da Coreia do Norte Imagem: Mike Weiss/Arquivo pessoal

Ele não teve acesso à internet durante toda a viagem e conta que sua guia nem sabia o que era WhatsApp. "Ela ficou surpresa com a existência de um aplicativo que envia mensagens e imagens gratuitamente para qualquer lugar do mundo [coisa inexistente na Coreia do Norte]", relembra.  

Mesmo com tantas restrições, o brasileiro conseguiu realizar observações fora da bolha de seu tour. "No momento do pouso em Pyongyang, pude ver, do avião, muitos bairros residenciais da capital, onde ficam claras a simplicidade das casas e a precariedade do país. Foi um contraste com os arranha-céus do centro de Pyongyang que a guia fez questão de me mostrar durante nosso passeio. Mas mesmo estes prédios modernos pareciam vazios, como se nada estivesse acontecendo lá dentro".

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A cidade de Pyongyang tem alguns edifícios modernos em sua paisagem Imagem: Getty Images

"Também percebi que o país é realmente carente de comida. Nós íamos aos melhores restaurantes de Pyongyang, mas os pratos sempre traziam poucas opções de ingredientes. Nem imagino como devam ser as refeições nas partes mais pobres da Coreia do Norte".

Vale a pena ir até lá?

De acordo com Mike, antes de ir a Coreia do Norte, a pessoa tem de decidir se quer visitar um país que tem um regime opressor. "É necessário saber que parte de seu dinheiro vai acabar indo para o governo norte-coreano. E foi um desafio para mim: subsidiar um regime com o qual eu não concordo", diz ele.

"Ao mesmo tempo, após ouvir tanto sobre a Coreia do Norte na mídia, quis ver tudo com meus próprios olhos. Foi uma experiência marcante e uma de minhas conclusões foi a de que os norte-coreanos, apesar da propaganda de grandeza feita pelo país, não são pessoas que estão alegres e satisfeitas. E viajar é isso: ir até os lugares para ter sua própria experiência pessoal". 

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