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Capelas de ossos atraem turismo macabro e religioso em Portugal

Ricardo Ribeiro

Colaboração para o UOL, em Portugal

18/02/2018 04h00

"Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". A inscrição está na entrada da maioria das capelas de ossos portuguesas. Um aviso para quem entra de que a vida, ao menos como conhecemos, acaba. Centenas de crânios e outras partes do esqueleto humano formam altares, colunas, paredes e muralhas. Macabras e inquietantes: assim são essas construções.

Apesar do estilo um tanto assustador, os templos construídos com ossos são muito procurados por turistas em Portugal. Embora existam em diversos países da Europa, ao lado da República Techeca, é o país que mais tem templos do tipo preservados: nove.

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O levantamento é do historiador Paul Koudonaris, no livro “Empire of Death”, sobre as capelas de ossos. As nove de Portugal foram construídas entre os séculos 16 e 19, nas regiões do Alentejo e Algarve, e estão ligadas a igrejas católicas.

Évora 
Ricardo Ribeiro/UOL
Imagem: Ricardo Ribeiro/UOL

A capela de Évora, cidade de mesmo nome a 134 km de Lisboa, integrada na igreja do mosteiro de São Francisco, é a mais antiga e também a mais conhecida. A construção é do século 17.

As milhares de ossadas humanas nas paredes e colunas foram provavelmente retiradas dos cemitérios das igrejas e conventos da cidade, incluindo a São Francisco, um dos principais locais de enterro do município. Estima-se que só de crânios sejam 5.000.

Um detalhe que a distingue das demais capelas de ossos portuguesas são dois corpos semi-mumificados, um adulto e uma criança. Historiadores acreditam que a capela de Évora serviu de modelo para as outras.

Campo Maior 
Ricardo Ribeiro/UOL
Imagem: Ricardo Ribeiro/UOL

Considerada a segunda mais antiga, a de Campo Maior fica junto à igreja de Nosso Senhor do Calvário. Ela foi construída após um incêndio na região que dizimou dois terços da população local em 1732. A cidade no leste português fica quase na fronteira com a Espanha.

A 36 quilômetros de Campo Maior está outra capela de ossos, anexa à igreja de Santa Maria da Graça, na cidade de Monforte. Em Faro, no sul do país, existem outras duas, uma de cada lado do antigo cemitério privado da igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Crânios parecem saltar das paredes laterais e do altar central.

Já a capela de ossos de Alcantarilha, em Silves, foi erguida na igreja de Nossa Senhora da Conceição. A da igreja de São Sebastião, na cidade Lagos, foi construída mais tarde é praticamente desconhecida dos habitantes locais.

Existem ainda duas capelas de ossos, menores, uma anexa ao claustro da Sé de Faro e outra junto à Matriz de Pechão, no concelho de Olhão.

Por que tantas em Portugal?

De acordo com historiadores, durante um período elas eram muito comuns em toda a Europa e a pergunta correta seria porque sobreviveram tantas no país.

A teoria mais aceita é a de que os portugueses foram, ao longo do tempo,  mais protetores de seus monumentos e de sua própria história eclesiástica.

Origem

Não se sabe ao certo quando as capelas de ossos começaram a aparecer. A mais antiga ainda de pé está no mosteiro de Santa Catarina na península do Sinai, no Egito. É do século 6.

A construção tornou-se popular no final da Idade Média, intensificando-se após o século 15. Elas refletem a relação do cristianismo com a morte, um lembrete do caráter temporário da vida na Terra e a passagem para outra vida, misturando trauma e tranquilidade.

O crescimento ocorre especialmente durante o período barroco. A cultura do barroco tem uma paixão pela morte e valoriza o “memento mori” (lembre-se de que você é mortal, em latim) — a ideia de que a morte é inevitável e que, por isso, a conduta moral e ética deve ser articulada tendo isso em consideração. São deste período as capelas de ossos portuguesas.

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