UOL Viagem

24/06/2009 - 07h00

Cancún tenta melhorar sua imagem apesar da gripe suína no México

MARCEL VINCENTI
Enviado especial a Cancún*
"Foi pior que um furacão". É assim que Jesús Salazar, diretor do Escritório de Visitantes e Convenções de Cancún, explica como um dos mais famosos balneários do mundo foi afetado pela gripe suína no México. O país foi o epicentro da pandemia causada recentemente pelo vírus influenza A (H1N1) e sofreu muitas baixas nos últimos dois meses: mais de cem mortos e uma queda acentuada de turistas desde abril. E Cancún, um dos principais cartões-postais mexicanos, ficou às moscas (ou melhor, às iguanas, célebres habitantes locais).
  • Marcel Vincenti/UOL

    Dois meses após o surgimento da gripe A (H1N1), o movimento turístico no Caribe mexicano começa a melhorar. Na foto, clicada em junho de 2009, funcionário leva bebidas a hóspedes de hotel na Riviera Maia


Cancún é visitada anualmente por cerca de 3 milhões de pessoas. A rede hoteleira operou em abril deste ano com 70% de ocupação. No começo de maio, no auge da crise provocada pela gripe suína, apenas 20% dos seus 25 mil quartos hospedavam viajantes.

A pouca demanda fez com que 13 hotéis da cidade tivessem que ser fechados temporariamente. A Confederação Revolucionária de Obreiros e Camponeses (Croc), que representa milhares de trabalhadores em Cancún, calcula que aproximadamente dois mil empregados do setor turístico enfrentaram redução de carga horária. E falar hoje com qualquer taxista sobre o assunto é ouvir lamentações de quem perdeu um bem precioso.

Enquanto dirige pela avenida principal da zona hoteleira de Cancún, cercada, de um lado, por um mar de infinitas gradações azuis e, do outro, pela lagoa Nichupté, Mariano Aguirre faz as contas: ele cobra 90 pesos mexicanos (R$ 14) como valor mínimo de corrida, mas seus serviços podem custar até 1,8 mil pesos (R$ 265), caso o cliente queira, por exemplo, visitar as ruínas de Chichén Itzá (localizadas a 178 km de Cancún). "Em tempos normais eu faço pelo menos dez viagens por dia", diz ele, com o indicador em riste. "Mas, no último mês, não me apareceram [diariamente] mais que dois ou três passageiros."

Alejandro Espinosa, dono de uma das maiores operadoras do balneário, conta que em maio de 2008 sua empresa recepcionava 300 turistas por dia; em maio de 2009, essa média diária caiu para 30 visitantes.

Priscila Manfredini, gerente de uma operadora de turismo em Santa Catarina, relata que, com o surgimento da doença no México, 90% dos pacotes que ela havia vendido para Cancún (com valores a partir de US$ 1,2 mil, para cinco noites) foram cancelados ou remarcados.
  • Marcel Vincenti/UOL

    Iguana escala as ruínas de sítio arqueológico maia em Cancún. A rede hoteleira operou em abril deste ano com 70% de ocupação. No começo de maio, no auge da crise provocada pela gripe suína, apenas 20% dos seus 25 mil quartos hospedavam viajantes.


A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda o cancelamento de viagens a países que registrem alta incidência de transmissão do A (H1N1) porque essa ação não impediria a disseminação do vírus e ainda afetaria a economia global. Relatório da OMS de 15 de junho mostrava o México com 6.241 casos confirmados da gripe e 108 mortes. Sete dias depois, em relatório de 22 de junho, o país contabilizava mais 1.383 casos, num total de 7.624, e 113 mortes.

Jesús Salazar, diretor do Escritório de Turismo e Convenções de Cancún, afirma não haver registros de pessoas contaminadas pela gripe suína no balneário. Ele diz que o relativo isolamento da cidade --localizada na península de Yucatán, a 1.700 km da capital mexicana-- e o controle sanitário feito em seu aeroporto, acabou por protegê-la da enfermidade. Mas as cercanias estão afetadas: relatório do Instituto de Diagnóstico e Referência Epidemiológicos do México, de 18 de junho, mostra que 82 pessoas foram infectadas pelo vírus no Estado de Quintana Roo, onde está Cancún.

"Livre de qualquer epidemia"

No desembarque no aeroporto de Cancún, todos têm a temperatura da testa medida por termômetro eletrônico e preenchem um formulário que pergunta se o passageiro teve febre alta, dor de cabeça, dor nas juntas ou fluxo nasal nos últimos dois dias.

O medo da gripe parece estar se dissipando aos poucos. Os hotéis (alguns deles estão dando descontos de até US$ 400 para pacotes de uma semana) voltaram a ter taxa de ocupação aceitável: média de 65%. E atrações vizinhas de Cancún, como o excelente Parque Ecológico Xcaret e a zona arqueológica de Chichén Itzá, já se apresentam com bom movimento novamente.

  • Marcel Vincenti/UOL

    O alto e agitado movimento de clientes estrangeiros no Señor Frog's, uma das mais famosas atrações noturnas de Cancún, mostra que os viajantes estão se sentindo mais à vontade em visitar o balneário, que teve seu mercado turístico muito afetado pela gripe suína (17/6/2009)


A brasileira Maria de Castro Favale, 58, fez turismo na região na última semana. Ela conta que pensou em cancelar seu pacote, comprado em fevereiro, mas, no final, "com as boas notícias da mídia", resolveu ir. "Usei máscara dentro do avião, mas, quando cheguei a Cancún, achei tudo normal, tirei a máscara. Lá ninguém sabe de nada da gripe. Tive dias maravilhosos", disse.

Mais de 50% dos viajantes que se hospedam em Cancún são norte-americanos (os brasileiros são 1,2% do bolo). A recuperação da economia local, portanto, deve acontecer com os "gringos", como os mexicanos adoram chamá-los.

Na última semana, o Escritório de Visitantes e Convenções do balneário, em parceria com associação local de hotéis e a empresa de aviação Copa Airlines, convidou jornalistas latino-americanos para visitar a região. Segundo Rodrigo de la Peña, presidente da entidade que representa o setor hoteleiro, o objetivo foi mostrar que Cancún está "livre de qualquer epidemia".

De la Peña também ressalta o fato de que uma convenção mundial da OMS, sobre a gripe A (H1N1), que terá a presença de ministros da saúde de 40 países, será realizada entre dias 1º e 3 de julho em Cancún. "É uma prova de que o local é seguro", afirma ele.

Recomendações oficiais

O Ministério da Saúde do Brasil divulgou nesta terça (23) um comunicado no qual recomenda que viagens a Chile e Argentina sejam adiadas. O motivo: acredita-se que grande parte das pessoas identificadas com o vírus A H1N1 em território nacional tenham sido contaminadas em um dos dois países.

A orientação, que no futuro pode ser estendida para o México, vale principalmente para pessoas com mais de 60 anos, crianças com menos de dois anos e mulheres grávidas. Também se aplica a pessoas imunodepremidas (como pacientes com câncer e em tratamento da Aids).

Orientações para quem planeja viajar ao México:

Em relação ao uso de máscaras cirúrgicas descartáveis, durante a permanência nos países afetados, siga rigorosamente as recomendações das autoridades sanitárias locais.
Ao tossir ou espirrar, cubra o nariz e a boca com um lenço, preferencialmente descartável.
Evitar locais com aglomeração de pessoas.
Evite o contato direto com pessoas doentes.
Não compartilhe alimentos, copos, toalhas e objetos de uso pessoal.
Evite tocar olhos, nariz ou boca.
Lave as mãos frequentemente com água e sabão, especialmente depois de tossir ou espirrar.
Em caso de adoecimento, procure assistência médica e informe histórico de contato com doentes e roteiro de viagens recentes a esses países.
Não use medicamentos sem orientação médica.
Fonte: Ministério da Saúde

*o repórter MARCEL VINCENTI viajou a convite da Copa Airlines, da Associação de Hotéis de Cancún e do Escritório de Visitantes e Convenções de Cancún

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