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Com cenário de conto de fadas, Bruges, na Bélgica, tem chocolaterias e boas cervejas

Ingrid K. Williams

New York Times Syndicate

2012-05-25T07:00:00

25/05/2012 07h00

Bruges é retratada na comédia de humor negro "Na Mira do Chefe" (2008) como uma cidade de conto de fadas tão sem graça que quase enlouquece o personagem de Colin Farrell. "Talvez o inferno seja isso: passar o resto da eternidade em Bruges", ele conclui na cena final do filme (quer dizer, na versão permitida para menores).

Na verdade, a charmosa capital de Flandres Ocidental, no noroeste da Bélgica, é tranquila, sim, com cisnes deslizando pelos canais medievais, vielas cheias de lojinhas de presentes e cafés sossegados - mas a cidade tem muito a oferecer, como os restaurantes ambiciosos dirigidos por chefs jovens e chocolaterias criativas de profissionais audaciosos. Museus novos e reformados estão abrindo as portas e, à noite, os pubs oferecem as melhores cervejas belgas da região. Inferno? Acho que não.

Sexta-feira

15h30 - Passeio no País das Maravilhas
Grande parte do encantador centro da cidade parece mesmo cenário de um conto de fadas, com pontes de pedra sobre canais pitorescos e mansões em ruas de pedra. Para admirar as partes mais belas desse verdadeiro país das maravilhas medieval, caminhe ao longo do canal Dijver, que serpenteia pela cidade, terminando o passeio na Markt, a praça principal dominada pelo campanário do século 13. Os mais cheios de energia podem subir os 366 degraus da escadaria da torre para admirar a vista da cidade, mas antes é melhor exercitar a capacidade da panorâmica de sua câmera no chão mesmo - clicando o prédio do tribunal, em estilo neogótico, o próprio campanário e os edifícios exóticos que circundam a praça.

17h - Degustação de chocolate
Com uma concentração absurdamente alta de chocolaterias na cidade, a impressão que se tem é que há bandejas de trufas e pilhas de pralinê em todas as vitrines. Se for sucumbir à tentação, escolha as opções mais criativas como a loja de Dominique Persoone, a Chocolate Line (Simon Stevinplein 19; 32-50-34-10-90; thechocolateline.be), onde vai encontrar combinações exóticas como ganache amargo com vodca, maracujá e limão. Já a novidade BbyB (Sint-Amandsstraat 39; 32-50-70-57-60; bbyb.be) aposta no sabor sem truques. Inaugurada em outubro de 2010, a loja, elegante e toda em branco, está lotada de barras simples de chocolate belga acondicionadas em caixas numeradas - assim, a No. 15 é ao leite, nozes e babelutte (um caramelo popular na região) e a No. 50 tem chocolate amargo, kumaru e limão siciliano.

20h - Três estrelas brilhantes
O novo buchicho no mundo da gastronomia belga não envolve nem chocolate nem cerveja, mas o elegante restaurante Hertog Jan (Torhoutsesteenweg 479; 32-50-67-34-46; hertog-jan.com), que, em novembro, recebeu a terceira estrela do guia Michelin, tornando-se assim o terceiro do país a receber a honraria. Se você conseguir reservar uma mesa em seu salão minimalista, pode se preparar para degustar os pratos bonitos do chef Gert De Mangeleer - que vão desde as vieiras com tutano de vitelo, lâminas de tupinambo e pequeninas porções de ovas de arenque, até um carneiro suculento servido com nabo, limão e murta. O menu degustação inclui cinco pratos e sai por 115 euros ou US$ 150 (a US$ 1,30 para o euro) , fora as bebidas.

Sábado

9h - De mercado em mercado
Comece o dia como os moradores da cidade: na feira que acontece na praça 't Zand. Evite os vendedores de bugigangas e vá direto para a parte dos queijos, arenque defumado e pães de nozes e passas assados na hora; compre um saquinho de mini boterwafels frescos (waffles de manteiga, 3,50 euros) da barraquinha Hauwerstraat e vá comendo enquanto caminha até a feira Beursplein.

  • Jock Fistick/The New York Times

    Interior da Chocolate Line, onde o visitante vai encontrar combinações criativas como ganache amargo com vodca, maracujá e limão

10h - Primitivos potentes
A essa hora da manhã os museus ainda estão vazios - então aproveite para admirar as pinturas dos chamados Primitivos Flamencos, um grupo de artistas influentes que surgiu na cidade no século 15. Comece pelo Museu Memling in Sint-Jan Hospitaal (Mariastraat 38; 32-50-44-87-71; museabrugge.be), onde seis trabalhos de Hans Memling enfeitam a capela; depois, atravesse o canal e vá para o Museu Groeninge (Dijver 12; 32-50-44-87-51; museabrugge.be), que reabriu em 2011 depois de passar por uma grande reforma. Só de poder admirar o realismo impressionante de "Madonna With Canon Joris van der Paele", de Jan van Eyck, ao vivo e em cores, já vale o preço do ingresso (8 euros).

13h - Almoço com quem conhece
Evite os restaurantes da Cidade Velha, onde os preços e a qualidade refletem a aposta nos turistas e não nos clientes regulares. Melhor ir ao Tete Pressee (Koningin Astridlaan 100; 32-470-21-26-27; tetepresse.be), um lugarzinho estiloso que só serve almoço (com uma delicatessen ao lado para quem quiser levar a refeição para casa) que abriu em 2009 no bairro residencial de Sint-Michiels. Uma prova que o restaurante é só para os moradores: o cardápio é todo em holandês. Sente-se ao longo balcão de frente para a cozinha aberta porque assim o chef Pieter Lonneville terá o maior prazer em traduzi-lo para você - mas, sério, não dá para errar com nada que está incluído no cardápio de três pratos a preço fixo (33 euros). Quando estive lá, comi um cozido de faisão com endívias e abobrinha grelhada e uma porção de clafoutis de pera quente com figos frescos.

17h - Moda flamenca
Os fashionistas de plantão que não puderem ir a Antuérpia, capital da moda de vanguarda da Bélgica, vão ficar maravilhados ao descobrir a boutique L'Héroïne (Noordzandstraat 32; 32-50-33-56-57; heroine.be). Essa loja discreta oferece uma coleção incrível de peças criadas pelos estilistas mais arrojados do país, desde grifes tradicionais como Dries Van Noten e Ann Demeulemeester a revelações como Christian Wijnants. As araras estão lotadas de vestidos de seda estampados, jaquetas assimétricas, capas de lã e cachecóis grossos, peças transadas, bonitas, sem um logotipo à vista. 

19h - E viva a fritura
Depois de um almoço substancioso, pode demorar bastante até seu estômago começar a roncar de novo (beliscar chocolate também não ajuda), por isso nada melhor do que provar outra especialidade local: a batata frita. Aqui, elas não têm nada a ver com a guloseima norte-americana, pois são fritas duas vezes, bem mais grossas e cobertas por uma generosa porção de maionese ou molho de curry. Uma das casas mais novas a oferecer a iguaria é a Chez Vincent (Sint-Salvatorskerkhof 1; 32-50-68-43-95; chezvincent.eu), onde se pode saborear uma porção de batatinhas estalando e uma salada (3,50 euros pela grande) e admirar a Catedral Sint-Salvator do salão do andar superior. Ah, eles têm catchup, sim.

21h - A minha é Tripel
O que não falta na cidade são pubs, mas também não faltam motivos para que a sua primeira e última visita seja ao 't Brugs Beertje (Kemelstraat 5; 32-50-33-96-16; brugsbeertje.be). O local é unanimidade na cidade graças ao seu gezellig, palavra holandesa que descreve o ar caseiro e aconchegante do pub. Mesmo quem não conhece nada de cerveja pode deixar aos funcionários a difícil tarefa de escolher a bebida ideal entre as centenas de opções; já os connoisseurs vão se deliciar com as fantásticas opções que incluem a St. Bernardus Tripel, a La Rulles Estivale e a ale Orval Trappist (a maioria entre 3 e 3,50 euros).

Domingo

  • Jock Fistick/The New York Times

    Daisy Claeys, a dona do pub 't Brugs Beertje, serve uma cerveja para os clientes

10h - Por quem os sinos dobram
Deixe o carrilhanor que há em você aflorar no Sound Factory ('t Zand 34; 32-70-22-33-02; sound-factory.be), um novo museu interativo dentro do Concertgebouw (Salão de Concertos, entrada 6 euros). Componha uma sinfonia na cobertura - inspirado, talvez, pelos belos cenários da cidade - na exposição que coloca os toques (gravados) dos vários sinos das igrejas nas pontas de seus dedos; depois, desça as escadas, até o quinto andar, pela instalação meio assustadora cujo destaque é o colorido OMNI.

Meio-dia - Contra o vento
Quando as ruas começam a lotar de turistas, a melhor maneira de fugir da multidão é sobre duas rodas. Alugue uma bicicleta na estação de trem (8 euros por quatro horas) e pedale para o nordeste ao longo do canal que circunda a cidade. Em trinta minutos num ritmo tranquilo é possível circular pela ciclovia que atravessa parques verdes, passa sobre uma ponte de madeira e pelos quatro moinhos de vento que ainda existem em Bruges. No caminho de volta, faça um desvio até Begijnhof, um pátio sossegado cercado por bangalôs caiados onde moravam as béguines - integrantes de uma ordem religiosa do século 13 composta por mulheres solteiras ou viúvas. Hoje quem vive ali são as freiras beneditinas - e como a ordem no local é a de silêncio absoluto, essas trilhas de pedra estão entre as mais tranquilas de Bruges. 

Se você for
Inaugurado em novembro de 2009, o Grand Hotel Casselbergh (Hoogstraat 6; 32-50-44-65-00; grandhotelcasselbergh.com) tem 118 suítes estilosas e uma fachada moderna que se destaca entre os edifícios históricos. Quartos duplos a partir de 125 euros (cerca de US$ 160).
Encravado entre uma viela estreita e o canal Dijver está o elegante Hotel de Orangerie (Kartuizerinnenstraat 10; 32-50-34-16-49; hotelorangerie.be), com vinte suítes aconchegantes e românticas - com direito a móveis antigos, decoração floral e vista para o canal. Quartos duplos a partir de 200 euros.

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