Viagem

Sagada, um pequeno tesouro filipino ameaçado pelo turismo não controlado

Getty images
Filipinos da região montanhosa de Sagada costumavam pendurar caixões em penhascos Imagem: Getty images

Helen Cook

De Sagada, nas Filipinas

08/03/2016 12h45

O turismo incontrolado está pondo em perigo o valioso patrimônio de Sagada, uma pequena cidade do norte das Filipinas onde os antigos nativos sepultavam os mortos em caixões suspensos.

Nos últimos anos, vários incidentes deterioraram as atrações turísticas do local. Desde roubos de objetos sagrados e sessões de fotos em áreas protegidas a barulhos constantes feitos pelos visitantes em lugares onde jazem os mortos.

"Fazemos o possível para tentar proteger toda a nossa herança cultural e a natureza que nos cerca, mas o número de visitantes que chega é tão grande que fica impossível", explica April Castro, do Departamento de Turismo da cidade.

Além de lagos, cascatas, florestas, cavernas e terraços de arroz, Sagada é um grande atrativo turístico nas Filipinas por seus "caixões pendurados", onde os nativos sepultavam seus mortos e que até hoje estão conservados.

Segundo os historiadores, o objetivo desses caixões estarem suspensos nos imponentes alcantilados de Sagada era dar liberdade à alma do falecido para subir com facilidade ao céu.

Turismo predatório
Mas Sagada, que até pouco tempo atrás era um lugar para se mostrar o respeito pela cultura e as tradições ancestrais, se transformou em um espaço caótico, ruidoso e abarrotado de gente.

"Há dois ou três anos, as pessoas vinham aqui para ver os caixões suspensos e havia pouca gente. Agora, olha em que se transformou isto", disse Limay Quiore, guia oficial da cidade, enquanto se referia ao barulho das pessoas com câmeras e celulares.

Perdida entre as montanhas do norte das Filipinas, mas situada a apenas 275km de Manila, Sagada se tornou um destino de referência tanto para os manilenhos que buscam sair da "selva de asfalto", como para os turistas de outros países.

Os números do Departamento de Turismo de Sagada revelam a meteórica ascensão da popularidade do remoto local, que praticamente se multiplicou por quatro em dois anos: dos 36,5 mil visitantes de 2013 aos mais de 138 mil de 2015.

Há pouco mais de dois anos e para tentar controlar a situação, as autoridades de Sagada decidiram que as visitas aos lugares ancestrais e às formações das cavernas deveriam ser feitas obrigatoriamente com um guia que garantisse o comportamento responsável dos turistas.

"Foram roubados objetos muito queridos e valiosos em nossa cultura, e além disso temos que lidar com constantes acidentes ou turistas desaparecidos que se perdem porque agem de forma irresponsável constantemente", acrescentou a funcionária do Departamento de Turismo.

Medo dos excessos
Segundo Castro, há muito temor entre a população local de Sagada, de aproximadamente 12 mil pessoas, que tal avalanche de visitantes acabe deteriorando totalmente tanto as florestas como as cavernas e áreas onde se encontram os caixões suspensos.

"Tem gente que está contente, certamente, porque os turistas estão deixando muito dinheiro aqui, mas tem muito mais gente com medo de que, no final, fiquemos sem nada", explicou Castro.

Ultimamente, durante os fins de semana, os restaurantes tiveram que fechar suas portas após ficarem sem comida, as pessoas se viram obrigadas a se alojar em casas privadas porque não havia hotéis disponíveis e as ruas da cidade se tornaram um engarrafamento contínuo.

"Está bastante claro a essa altura que não estamos preparados para o turismo em massa. Nós fazemos o que podemos, inclusive nos reunimos com representantes de agências de viagens para que limitem suas ofertas a Sagada, mas por enquanto parece que o dinheiro é mais importante do que preservar nossa natureza e nossa história", concluiu a funcionária da prefeitura local.

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