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Pandataria, a ilha onde romanos exilavam mulheres consideradas promíscuas

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Vista do mar na ilha de Ventotene, na Itália Imagem: iStock

2019-01-02T09:49:21

02/01/2019 09h49

Ilha rodeada por águas em azul turquesa foi cenário para histórias de vingança contra mulheres próximas ao círculo de poder durante o Império Romano.

A ilha de Ventotene abriga um antigo vulcão em frente à costa de Nápoles, na Itália, mas também é conhecida, entre outras coisas, por ser berço do sonho de uma Europa unida.

Foi nessa ilha, usada pelo regime fascista para isolar dissidentes políticos, que Altiero Spinelli e Ernesto Rossi escreveram o Manifesto de Ventotene, um dos textos fundadores do federalismo europeu.

Mas além disso, essa ilha no mar Tirreno tem uma fama que remonta à Antiguidade.

Há mais de 2 mil anos, Ventotene se chamava Pandataria e serviu como local de exílio para mulheres aristocratas com comportamento considerado inapropriado pelas normas da sociedade da época.

No Império Romano, mulheres podiam ser punidas pelo seu comportamento sexual.

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Antigamente chamada de Pandataria, a ilha de Ventotene abriga um antigo vulcão em frente à costa de Nápoles Imagem: iStock

Pena de morte para mulheres adúlteras

No ano 18 a.C., o imperador Augusto promulgou um conjunto de leis, a lex Iulia, com o objetivo de moralizar a classe alta de Roma, fortalecendo instituições como o casamento e estimulando a procriação.

O adultério foi declarado delito privado e público, para o qual a pena era o exílio em um lugar distante de Roma.

A Lex Iulia de Adulteriis Coercendis também permitia que pais punissem filhas adúlteras e seus amantes com a morte. Maridos traídos eram obrigados a se divorciar e tinham a opção, sob certas circunstâncias, de matar suas mulheres. O delito só era atribuído a mulheres.

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Vista da ilha de Ventotene a partir do mar Imagem: iStock

A história de Júlia

O próprio imperador sentiu os efeitos de sua lei na carne... mas, claro, não tanto quanto sua filha, Júlia, a Velha. A esposa de Augusto, Lívia, convenceu o imperador a favorecer o filho dela de um outro casamento, Tibério, como possível sucessor.

Para aproximá-lo da família, o imperador forçou Tibério a se divorciar e se casar com Júlia, que acabara de ficar viúva pela segunda vez. A união, celebrada em 11 a.C., foi indesejada e infeliz para ambos os cônjuges, e ficou ainda mais amarga quando um filho de Júlia morreu cinco anos mais tarde.

Tibério se exilou voluntariamente, deixando Júlia sozinha em Roma, onde começaram a circular rumores de que ela levava uma vida promíscua. Seu comportamento se tornou politicamente perigoso quando envolveu um caso com um homem chamado Júlio Antonio.

Ele era filho de Marco Antônio, que fora amante de Cleópatra e se suicidara após perceber que seria impossível fazer frente à invasão do Egito por legiões lideradas nada menos do que pelo pai de Júlia, agora imperador de Roma.

A inimizade entre as duas famílias não havia arrefecido, o que levou Augusto à ação: depois de ameaçá-la de morte por adultério, a enviou para Pandataria, onde não havia homens e as condições de vida eram hostis.

Apesar de ficar privada de certos luxos, como tomar vinho, Júlia foi contemplada com piscinas e um teatro que Augusto mandou construir no ponto mais alto da ilha - que tem menos de 2 quilômetros quadrados.

Também foram criados um porto, tanques e um viveiro de peixes para assegurar o abastecimento constante de água doce e pescados frescos.

Júlia permaneceu em Pandataria por dois anos, quando foi transferida para um confinamento mais ameno, na cidade portuária de Régio.

Ela morreu dez anos mais tarde, pouco depois do falecimento de seu pai. Há relatos de que Júlia morreu desesperada e doente, após ter sido supostamente maltratada por Tibério, que sucedera Augusto como imperador.

Não está claro como teriam sido esses maus tratos - há relatos de que Tibério reteve suas posses e dinheiro, e de que ela teria sido presa.

Agripina, a filha

Agripina Maior, filha de Júlia e de seu segundo esposo, Marco Agripa - importante general, político e amigo íntimo do imperador Augusto -, também foi exilada para Pandataria, como sua mãe.

Agripina foi uma figura importante nas disputas pela sucessão ao final do reinado de Tibério.

Ela era esposa de Germânico César, sobrinho-neto de Augusto por adoção e filho adotivo de Tibério, e deu à luz nove filhos, dos quais seis chegaram à idade adulta.

Por onde passava, o casal deixava boas impressões - que acabaram despertando desconfiança e inveja em Tibério, que passou a ver Germânico como uma possível ameaça a seu poder.

Na província da Germânia, Agripina e Germânico ficaram famosos devido a atos de bravura; em ações caridosas no Egito, o casal foi aclamado pelo povo.

Até que, em uma viagem de Agripina e Germânico à Síria, este último ficou doente e morreu. Tudo apontava que amigos de Tibério tinham envenenado a vítima.

Agripina não hesitou em acusar Tibério em seu retorno a Roma, assim como fizeram muitos romanos, que adoravam Germânico e o consideravam herdeiro do trono.

Três anos depois, após a morte de um filho de Tibério, Druso, os filhos de Agripina e Germânico estavam na linha direta para a sucessão. Mas Tibério conseguiu acusar Agripina de traição e mandá-la para o exílio.

No ano de 29 d.C., Agripina foi enviada a Pandataria, onde morreu de fome, quatro anos depois. Suspeitou-se que Tibério tivesse ordenado sua morte. Um filho e três filhas dela sobreviveram; no final, Tibério não conseguiu impedir que este filho, Calígula, assumisse o poder. No entanto, uma de suas filhas seguiu a mesma sina que Agripina e sua mãe, Júlia.

A neta

Júlia Livila era a filha caçula de Agripina e Germânico. Assim como suas outras duas irmãs, Agripina Menor e Júlia Drusila, Livila desfrutou, nos primeiros anos do reino de seu irmão Calígula, de privilégios - ainda que, na realidade, estivesse sob controle dele.

Historiadores da época indicaram que Calígula as prostituía e chegou-se a dizer que ele mantinha relações incestuosas com elas, algo difícil de confirmar.

No entanto, no ano de 39 a.C., Agripina Menor e Júlia Livina se envolveram em uma conspiração fracassada para derrubar Calígula e colocar em seu lugar o viúvo de Júlia Drusila. As duas irmãs foram exiladas para as ilhas Ponza, o arquipélago do qual Pandataria faz parte.

Júlia Livina voltaria a Roma depois do assassinato de Calígula no ano 41, resgatada do exílio por seu tio paterno, o agora imperador Cláudio.

Mas a terceira esposa de seu tio, a influente Messalina, não gostou do carinho que seu marido mostrava ter pela sobrinha. Com intrigas, ela conseguiu que o próprio Cláudio acusasse Livina de adultério com o filósofo, político, orador e escritor romano Sêneca.

A acusação era altamente improvável, mas Sêneca era considerado um inimigo político potencial do novo imperador. Inventar uma relação com a já indesejável Júlia Livina se mostrou um plano de mestre. Sêneca viveu no exílio na Córsega por oito anos.

A neta de Júlia, a Velha, e filha de Agripina Maior foi enviada para Pandataria. Alguns meses depois, seu tio ordenou sua execução. Ela aparentemente morreu por inanição.

Toda uma tradição

Avó, mãe e neta não foram as únicas visitas forçadas a Pandataria; houve várias outras.

O filho de Agripina Menor, Nero, inventou uma acusação de adultério contra sua esposa Octavia, filha do imperador Cláudio, e exilou-a em Pandataria. Ele então casou-se com Popea Sabina.

O exílio de Octavia causou protestos públicos em Roma - a ponto de Nero se ver pressionado a se casar novamente com ela. Mas ele resolveu ordenar sua execução.

Alguns dias depois, Octavia foi morta em um banho a vapor, onde teve suas veias cortadas. Sua cabeça foi cortada e enviada a Popea.

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