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Conheça as obras primas do Museu da Arte Feia

Letícia Mori - Da BBC Brasil em São Paulo

18/06/2018 20h57

A região metropolitana de Boston, nos EUA, abriga o único museu do mundo dedicado a exibir obras de arte que jamais estariam nas casas tradicionais de exposição.

O Moba (Museum of Bad Art, ou Museu da Arte Ruim) foi criado quando o vendedor de antiguidades Scott Wilson encontrou, em uma lixeira da cidade, a pintura do retrato de uma senhora de vestido azul, em 1994.

Interessado na moldura que se encontrava em perfeito estado, ele levou a obra para casa e mostrou para seu amigo Jerry Reilly. Ele não só ficou com a peça como iniciou a partir dela uma coleção de arte feia com ajuda de sua mulher, Marie Jackson, e de seus amigos Tom Stankowicz e Louise Reilly Sacco.

Nomeada Lucy in The Sky With Flowers, de autor desconhecido, a pintura é até hoje uma das piores do museu.

Vinte e quatro anos depois, o Moba tem duas galerias físicas e quase 800 obras únicas em acervo - diversas das quais também retiradas do lixo.

Com o slogan "arte ruim demais para ser ignorada", o museu tem o objetivo de "trazer o pior da arte para as mais amplas audiências".

Indicado em diversos roteiros turísticos sobre Boston, ele recebe de 600 a 700 visitantes por mês.

A entidade não tem fins lucrativos e não cobra entrada. É mantida com doações, venda de lembrancinhas e ajuda de voluntários.

Dos criadores, apenas Louise Reilly continua envolvida com a instituição, que administra com ajuda do curador-chefe Michael Frank, que ajuda como voluntário desde o início do projeto.

Frank conta que, quando o museu foi criado, os envolvidos nem imaginavam que ele ira durar tanto tempo.

"Achamos que seria um projeto interessante que duraria alguns anos. Mas a cobertura da mídia deu um impulso que continua até hoje", diz ele à BBC News Brasil.

Crescimento inesperado

O museu mudou de endereço algumas vezes. Começou na casa de Reilly e Jackson, mas precisou mudar pelo grande fluxo de visitantes - que fugiu do controle depois que um ônibus de turistas idosos foi ao local visitar as obras. Depois a galeria foi para o porão de um teatro comunitário, onde ficou até 2012. Hoje, a sede fica no porão de outro teatro, o de Sommerville.

Por uma questão de espaço, cerca de 50 obras são exibidas por vez, com direito à ficha artística completa de cada uma delas.

Interpretações

"Como qualquer outro museu respeitável, sempre incluímos informações e interpretações sobre a arte que compartilhamos com o público", diz Frank.

Sob o quadro Jazz Hands (Mãos de Jazz), um retrato da cantora Liza Minelli doado pela autora da obra, a descrição explica o meio utilizado: tinta acrílica e mofo sobre tela.

"Apesar de seu infeliz corte de cabelo que estava na moda na época, a presença de palco marcante de Liza Minelli no auge da carreira é evidente neste retrato", diz a descrição. "O que parece ser um acúmulo de pelos no peito da estrela do pop é na verdade mofo; a artista achou que sua falta de experiência com tinta e pincel a fez errar o alvo, então, guardou sua pintura em uma garagem úmida por 27 anos."

"As pessoas veem que nossos comentários são divertidos, interessantes e informativos, mas nunca maldosos", diz o curador.

Em um dos quadros de paisagem - Greenscape, de autor anônimo - a descrição anuncia: "O bilho verde-vômito que domina a paisagem pode indicar que o artista não está muito bem disposto; nem mesmo o Super-Homem ficaria bem nesse ambiente carregado de criptonita."

Critérios

Um dos quadros favoritos do curador é o The Answered Prayer" (A Prece Atendida), doado por uma mulher que o encontrou no lixo na Califórnia. "Recebemos doações de fãs de todos os lugares dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa, da Austrália e da Nova Zelândia", diz Frank.

Mas se engana quem pensa que qualquer coisa é aceita: o Moba tem regras muito rígidas para o recebimento de trabalhos. É preciso que as peças sejam uma tentativa autêntica de produzir arte que tenha dado errado por algum motivo.

Não são aceitas peças feitas por crianças, obras criadas com kits de pintura, quadros intencionalmente kitsch ou produzidos em série, como aqueles prontos comprados em lojas de decoração.

Em um livro lançado em 2008, Louise Reilly e Frank indicam que esse tipo de trabalho seria mais apropriado em lugares como um "Museu do Gosto Questionável" ou em um "Tesouro Nacional de Decoração Doméstica Duvidosa".

O Moba recebe cerca de dez doações por ano, além das peças encontradas pelo curador. No início, as pessoas enviavam muitas obras que acabavam rejeitadas. "Hoje em dia é mais comum mandarem uma foto por e-mail antes de fazem a doação", diz Frank.

Recompensa

Apesar do valor inexpressivo de sua coleção no mercado da arte, o Moba já sofreu diversos furtos. Em 1996, a pintura Eileen, que havia sido encontrada no lixo por Scott Wilson, sumiu da galeria do museu, que ofereceu uma recompensa de US$ 6,50 (R$ 25) por ela, aumentada depois para US$ 36,73 (R$ 143 reais). Em 2006, dez anos depois, a obra foi devolvida.

Depois do roubo, o museu instalou uma câmera de segurança falsa e um alerta escrito em fonte Comic Sans: "Cuidado! Essa galeria é protegida por uma câmera falsa de segurança."

Segundo Frank, outros roubos aconteceram desde então, o que deixou o museu receoso de exibir peças pequenas, que podem ser facilmente escondidas.

Expandindo horizontes

O acervo é praticamente só de pinturas, mas o curador insere outras formas de arte nas exibições itinerantes do museu.

"Fiz uma playlist de músicas ruins que tocamos em eventos do Moba", conta Frank. "Ela inclui coisas como versões 'lounge' de músicas do Bob Dylan, covers de heavy metal interpretados pelo cantor Pat Boone e um excelente disco da Mary Schneider, que canta música clássica em estilo tirolês."

Além de exposições itinerantes, o Moba costuma também participar dos eventos do prêmio IgNobel, já que Sacco é também voluntária na premiação - que homenageia as pesquisas científicas mais inúteis, uma paródia do Prêmio Nobel.

Quanto à possibilidade do Moba abrigar performances artísticas ruins, o curador diz que não saberia "nem como começar" algo do tipo. "Acho esse gênero duvidoso", afirma.

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