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O resort onde os hóspedes pagam para tomar banho em águas radioativas

Matthew Vickery
Adesivos de advertência com símbolo radioativo se espalham pelo local Imagem: Matthew Vickery

Matthew Vickery

BBC Future

28/05/2018 13h42

A água escorre do teto úmido e rochoso da mina, formando pequenas gotas, cujo barulho ecoa ao atingir os trilhos enferrujados usados décadas atrás para transportar pedras, algumas das quais carregadas com minério de urânio, para fora da colina coberta de árvores até os vagões de trem soviéticos.

"Lembro-me de que, fizesse frio ou calor lá fora, era sempre muito quente lá dentro", diz Zdenek Mandrholec, apoiando-se em uma bengala enquanto fala do lado de fora da entrada da mina na cidade de Jachymov, na República Tcheca, na fronteira com a Alemanha.

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"Eles [os soviéticos] podiam fazer o que quisessem conosco."

A idade avançada — Mandrholec tem 87 anos — já não lhe permite mais entrar na mina, mas ele sabe muito bem como é seu interior. Foram sete anos como prisioneiro político soviético, forçado a buscar urânio para alimentar a corrida armamentista durante a Guerra Fria.

As colinas que cercam Jachymov estão repletas de urânio. Foi ali que o minério contendo uraninita foi descoberto pela primeira vez, no final do século 19, por Marie Curie, a cientista polonesa naturalizada francesa que fez pesquisas pioneiras sobre radioatividade.

Mas foi na esteira da 2ª Guerra Mundial, quando os comunistas tomaram a Tchecoslováquia, que a mineração de urânio realmente decolou - com a força laboral de milhares de presos políticos como Mandrholec.

Matthew Vickery
Soviéticos usavam checos para garimpar urânio Imagem: Matthew Vickery

No seu auge, na década de 1950, 12 minas de urânio estavam operando dentro e ao redor do vilarejo, transformando as colinas em um perigoso labirinto subterrâneo e Jachymov, em um grande campo de concentração soviético (a União Soviética exercia grande influência política sobre os países da chamada Cortina de Ferro).

Usados como mão de obra descartável, os prisioneiros eram expostos a material nuclear com poucas máscaras e macacões de proteção. Perto da entrada do vilarejo, uma torre de tijolos vermelhos ainda permanece de pé - a "Torre da Morte", observa Mandrholec, um local onde o minério de urânio era reduzido a pó e os prisioneiros obrigados a trabalhar sem qualquer proteção.

Dentro das minas, acidentes eram comuns, com seus túneis ocos desmoronando com frequência por cima dos homens.

"Me lembro de uma vez que o teto desabou sobre um homem. O corpo acabou arrastado para um dos túneis verticais da mina; ficamos coletando pedaços dele por dias", diz Mandrholec, enxugando as lágrimas. Ele foi capturado e aprisionado após tentar fugir do país em 1953.

Martin Trabalik
Urânio foi descoberto nas colinas de Jachymov no século 19 Imagem: Martin Trabalik

"Poderíamos conversar sobre esse tipo de acidente a noite toda", acrescenta ele.

Enquanto as mesmas minas nas quais Mandrholec trabalhou durante anos foram fechadas décadas atrás, uma mina de urânio permanece curiosamente aberto no vilarejo.

Mas o urânio não é mais garimpado lá - a economia agora gira em torno da água radioativa.

Inúmeros edifícios estão abandonados, dilapidados ou desmoronados em Jachymov, mas um complexo de spa imenso e branco, o Radium Palace, domina a entrada do vilarejo.

No interior do prédio, inaugurado em 1912, clientes abastados com roupões brancos percorrem tapetes vermelhos através de grandes corredores. Alguns deles buscam aqui um tratamento muito alternativo - um banho em água radioativa com radônio, um subproduto do urânio. Durante anos, nascentes fluíram por essas minas.

Embora imergir o corpo em água proveniente de uma mina de urânio desativada não pareça à primeira vista uma ideia muito esperta, os médicos do Radium Palace insistem no contrário.

"Existem dois benefícios clínicos da água do radônio. O primeiro é que ela tem efeito anti-inflamatório - sabemos que reduz a inflamação. O segundo é que tem um efeito analgésico direto, podendo funcionar como um analgésico com efeito semelhante à morfina, mas de maior duração", argumenta Jindrich Masik, médico-chefe do Radium Palace, à BBC Future, de seu consultório impecável.

"Temos limites diferentes de radiação. Não há limites para os clientes; podemos usar o que queremos, mas, na verdade, usamos o que é risco-benefício adequado - não queremos causar nenhum problema; queremos ajudar, é claro. Usamos dosagens muito pequenas", diz.

Os visitantes buscam alívio para uma série de dores, de distúrbios neurológicos a artrite e gota.

Vaclav Pucelik sofre de uma condição inflamatória crônica que afeta as articulações axiais e é um dos pacientes de Masik. Ele diz que os benefícios superam em muito os malefícios. Pucelik frequenta o spa há 30 anos consecutivos, especificamente pelo tratamento com água com radônio.

"Nada funcionava para a minha dor. Alguém me recomendou os banhos de radônio e agora eu venho aqui e tomos esses banhos durante 20 minutos por dia. Mas eu só posso vir e fazer o tratamento uma vez por ano porque é radioativo", diz Pucelik.

"Cada spa deve ter um material natural ou fonte que eles usam - aqui é radônio."

Com cada estadia de tratamento no spa durando 24 dias, Pucelik é um rosto bem conhecido entre os funcionários do hotel de luxo, sendo saudado calorosamente à medida que faz suas sessões diárias. Hóspedes árabes ricos sentam-se no amplo restaurante do local, enquanto russos e tchecos parecem preferir o bar do jardim de inverno, com vista para o impecável gramado. No lobby, uma estatueta com os seios à mostra está posicionada ao lado de escadas com carpete vermelho-escuro que levam aos luxuosos quartos.

É no subsolo, no entanto, que se localiza o material radioativo.

Martin Trabalik
Vintrova Mandrholec posa com fotos de satélite do campo de trabalhos forçados onde ficou preso Imagem: Martin Trabalik

Atuando como guia turístico, Pucelik empurra alegremente as portas de madeira e vidro com adesivos de advertência com o infame símbolo radioativo. Passadas as portas, enfermeiras andam de roupão branco. À direita delas, salas individuais separadas por cortinas hospitalares, cada uma com uma grande banheira de hidromassagem no centro - os banhos de radônio nos quais os pacientes mergulham em água radioativa recolhida das colinas próximas.

No entanto, em meio às colinas densamente exploradas pelo complexo extravagante para seu tratamento de saúde bizarro e caro, não há como fugir da impressionante justaposição entre a riqueza e o (suposto) bem-estar proporcionado pelos banhos e os trágicos anos dos trabalhos forçados dos prisioneiros.

É um tipo de associação que os hóspedes e a equipe do spa não parecem fazer quando questionados, ou talvez prefiram evitá-la.

Mandrholec diz não guardar ressentimentos contra o spa por lucrar com a existência das minas nem contra os pacientes que, sem opções médicas, decidiram mergulhar nesse mundo estranho para buscar uma terapia alternativa.

Na verdade, ele parece impressionado, e até orgulhoso, quando entra no saguão do Radium Palace pouco depois de dar um tour à BBC por Jachymov.

"Foi um desperdício que o material não tenha sido usado antes para o país - se tivesse, poderíamos ter sido como a Suíça, poderíamos ter rodovias, escolas, ser mais desenvolvidos", diz Mandrholec.

"Em vez disso, foi dado de graça para a União Soviética, com ajuda do trabalho de escravos tchecos", acrescenta.

Sentados no amplo lounge do hotel, adornado com piano, Mandrholec e Pucelic - prisioneiro político e hóspede - se reúnem rapidamente.

Quando Mandrholec se apresenta ao rico magnata checo, Pucelik estende a mão - um breve reconhecimento de ambos os papéis na existência de trabalho, passado e presente, das minas de urânio de Jachymov.

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