Achado arqueológico adia projeto de trem-bala na China

MARINA WENTZEL

De Hong Kong para a BBC Brasil

Um dia após anunciar a construção do trem-bala mais veloz do mundo para conectar Xangai e Pequim (veja), a China suspendeu parte das obras da linha porque um sítio arqueológico com relíquias do século 16 a.C. foi danificado, informou nesta terça-feira o jornal estatal "China Daily".

A obra da ferrovia de alta velocidade que conecta a capital a Xangai está em andamento há alguns meses, mas na segunda-feira o Ministério das Ferrovias anunciou pela primeira vez que os trens utilizados na linha atingirão velocidades regulares de até 380 quilômetros por hora, o que os tornaria os mais velozes da China e do mundo.

Nesta terça-feira, no entanto, veio a notícia de que o Departamento de Herança Cultural da cidade de Nanjing mandou suspender as obras no trecho que passa pela cidade porque elas violaram um importante e recém-descoberto sítio arqueológico, o de Yuhuatai.

Um porta-voz do ministério das Ferrovias disse ao jornal estatal desconhecer o problema, mas afirmou que um incidente como esse "nunca deveria ter ocorrido".

Relíquias

Relíquias arqueológicas das dinastias Shang (século 16 a.C. ao século 11 a.C.) e Zhou (século 11 a.C ao ano 256 a.C.) estão enterradas nos mais de 23 mil metros quadrados de Yuhuatai.

"O sítio contém oito camadas de relíquias culturais que remetem à história da China", afirmou Yang Qinghua, vice-diretor do Departamento de Herança Cultural de Nanjing, capital da província de Jiangsu.

Além de estar com as obras suspensas, a empreiteira responsável pela construção poderá ser multada em até 500 mil yuans (cerca de R$ 120 mil) por ter causado "severos danos" ao sítio.

A construtora faz parte do consórcio Pequim-Xangai Express Railway e danificou a área na semana passada. De acordo com a lei da China, construções em áreas arqueológicas não podem ser conduzidas sem a permissão do Departamento de Herança Cultural local.

Atraso

A rota expressa conectando as duas metrópoles está prevista para ser inaugurada em 2012, mas pode atrasar com o impasse. Especialistas descobriram o sítio em outubro do ano passado, após encontraram pedaços de cerâmica e ossos durante uma pesquisa de solo para a construção da ferrovia.

Inicialmente, o Departamento de Herança Cultural pediu à Pequim-Xangai Express Railway que desviasse a linha para preservar o local, mas a companhia se recusou a fazer isso argumentando tratar-se de um projeto de importância nacional.

Em maio, o departamento submeteu um relatório sugerindo que a construtora então pagasse pela escavação completa do sítio, o que deve durar pelo menos um ano e custar 5 milhões de yuans (R$ 1,2 milhão).

Violação

A construtora, no entanto, ignorou o relatório e na semana passada violou a área de preservação. "Quase dois mil metros quadrados do sítio já foram severamente danificados", lamentou Yang Qinghua. Pela legislação chinesa os custos de qualquer prospecção ou escavação arqueológica inesperados devem ser cobertos pelo orçamento da obra.

A imprensa estatal, entretanto, não informou como o Ministério das Ferrovias vai fazer para acomodar o aumento nos gastos. "Essas preciosidades culturais precisam ser escavadas antes da construção continuar", enfatizou Yang Qinghua. "Vocês não podem simplesmente ignorá-las", concluiu.

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