'Ciclista-Palhaço' que dá volta ao mundo conclui giro pela África

Andrea Wellbaum

do Cairo

Em novembro de 2004, Álvaro Neil saiu da Espanha montado em uma bicicleta, com cerca de 80 quilos de bagagem, e um objetivo ambicioso: percorrer o mundo pedalando e realizando apresentações de palhaço para as pessoas humildes pelo caminho.

Dois anos, nove meses e mais de 37 mil quilômetros depois, o espanhol chegou ao Egito, último dos 30 países da África que ele percorreu, com inúmeras experiências para contar e uma certeza: "A África é o continente mais generoso do mundo."

Um dos itens da bagagem de Neil é uma barraca, que foi utilizada muitas vezes durante a jornada pela África, mas em várias outras noites ele encontrou abrigo em casas de pessoas dos vilarejos que ele visitava.

Divulgação
Ciclista saiu da Espanha com objetivo de se apresentar como palhaço pelo mundo
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"Para dormir na África não adianta ter um cartão de crédito, nem se você tiver muito crédito nele, porque na maioria dos lugares não existe hotel para passar seu cartão. Então, você precisa das pessoas e a África é muito hospitaleira. É uma lição que nós temos de aprender", conta Neil.

Generosidade
O "biciclown", ou "ciclista-palhaço", como ele se intitula, notou que a pobreza e a falta de recursos obriga os africanos a ser generosos e compartilhar.

"Na América Latina, muita gente me dizia que era pobre, mas o nível de pobreza depende com quem você se compara. Níger, por exemplo, foi um dos países mais pobres que eu já visitei e a África inteira é um continente muito mais duro neste sentido", conta Neil.

Ele diz que, ao mesmo tempo, é um continente mais intenso, em que as pessoas precisam umas das outras para sobreviver e "não pode haver egoísmo".

"Hoje você pede e amanhã você tem de dar. Na América Latina se compartilha, mas aqui isso ocorre com ainda mais intensidade. Aqui, um frango é para muitas famílias, a fonte de água não está na sua casa e sim no centro da vila e um poste de luz serve para alimentar sete casas."

Neil diz que consegue viver com US$ 200 (o equivalente a cerca de R$ 380) por mês, que ele arrecada com a ajuda de patrocinadores e com a venda de um livro que escreveu sobre uma viagem parecida que fez pela América Latina.

"Não preciso de muito. Como o que encontrar pelo caminho e na maioria das vezes as pessoas não deixavam eu pagar, dizendo que eu era o convidado delas", disse o biciclown.

Palhaço presidiário
Como retribuição das gentilezas, Neil realiza espetáculos de palhaço gratuitos para as pessoas mais humildes e os palcos vão desde creches e hospitais até cadeias.

Além disso, mesmo no dia-a-dia, para agradecer a alguém por uma banana ou um prato de comida, o espanhol realiza alguns truques de mágica.

"O palhaço é um instrumento para dar às pessoas o agradecimento por aquilo que a vida deu para mim. As pessoas me dão muitas coisas e eu não posso dar nada, então uso o palhaço para dar algo."

Um dos espetáculos mais marcantes para Neil durante a viagem pela África foi realizado em uma prisão em Nairóbi, no Quênia, em que ele trocou suas roupas pelo uniforme de um dos presos.

"O preso tinha sido libertado três dias antes e a roupa ainda estava com o cheiro dele. Fazer o espetáculo com a mesma roupa dos que estavam me assistindo foi muita união. E para os presos, era como se um deles estivesse fazendo as mágicas e os malabarismos."

Brasil, um país 'fechado'
Na viagem pela América Latina, durante a qual Neil amadureceu a idéia de dar a volta ao mundo de bicicleta, ele passou quatro meses pedalando pelo Brasil, onde aprendeu a falar português, que ele diz gostar mais do que o espanhol, por ser uma língua muito "musical".

"Gostei muito de Pernambuco, ainda me lembro até do hino de lá. Aquela região tem muita luz. Gostei muito de Fortaleza, das praias, são lindas... E as pessoas dos vilarejos são muito acolhedoras, tinha sempre um lugar para pendurar minha rede", lembra o espanhol.

Já as cidades grandes não conquistaram o biciclown. "São Paulo é uma doideira, muito cara, muito rápida, é como a Europa. As pessoas não olham para as outras, só estão preocupadas em ir para o trabalho e não têm dois minutos para falar com você. É uma cidade grande e um bocado desumanizada."

Neil também diz ter ficado surpreso com o alto nível de desinteresse do brasileiro pelo resto do mundo.

"É um país muito fechado, que não olha para fora, só fica olhando para dentro. Eles acham que têm a melhor equipe de futebol do mundo, o melhor carnaval e as mulheres mais bonitas. É possível que tenham a melhor equipe... mas mulheres bonitas tem em muitos outros lugares."

O biciclown pretende permanecer três meses no Cairo escrevendo um livro sobre suas experiências na África.

Depois disso, continua sua volta ao mundo pelo Oriente Médio, segue para a Ásia, Oceania, América do Norte, América do Sul e deve terminar a viagem na Europa em 2014.

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