Ivan Lessa - Férias: idas e vindas

A alegria de botar a mala no chão e começar a tirar as roupas de dentro. A chuveirada, botar calça, camisa e sapato e a saída para comprar o jornal local e o mínimo necessário para mantimentos: leite, açúcar, Nescafé, suco de laranja.

O exame da rua. O jeito novo de tudo. De todos. No avião, as duas crianças ao meu lado urraram o tempo todo. Ainda meio surdo. Graças a elas e à altitude.

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Pelo menos acabou a chatice infinita da filtragem de quem voa. Procurar na tela de televisão, lá no alto, o balcão do check-in, errar na direção, entrar na longa fila empurrando as malas com os pés (só uma de mão) até a mocinha da companhia aérea. A funcionária (comissária de balcão? Balcomoça?) que, depois de um bom tempo, pergunta se eu mesmo emalei (emalei?).

Confere passaporte e passagem, bota a etiqueta no devido lugar. Fico vendo minha bagagem partir, talvez para sempre, na esteira automática. A mocinha fica com metade da passagem, dá-me o que restou e o cartão de embarque, encaminha-me na direção geral - generalíssima -do portão que me engolirá e, passando por ele, ter o direito de sentar nas estreitas poltronas do mais pesado que o ar, conforme se diz. Sei que vai ser longe de onde estou e não terá tapete rolante, como sempre acontece comigo em qualquer parte do mundo.

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Controle de passaporte. É mais demorado agora. Raio-X. Tiro paletó, tudo quanto é de metal e coloco numa bandeja, que, juntamente com a bagagem de mão, passa por um detector de metais. Passo por outro detector. Dou apito.

Claro, a chave no bolso da calça. Tiro a chave. Boto de novo paletó, recolho as moedas. Zanzo até um lugar para sentar perto de uma televisão altiva, altaneira e sem graça. Não, não é para ver telenovela, Apenas para saber o número do portão de embarque, quando e se ele surgir.

Na tela escura, em letrinhas brancas, apenas as três tímidas iniciais de companhias aéreas seguidas dos números de seus vôos, atrasados, cancelados ou no limbo da espera, como o meu, quando der o ar de sua graça, seguidos, com sorte, do número do portão de embarque, em geral, não sei por que, invariavelmente o portão 26.

Para variar, cheguei cedo demais no aeroporto. Compro um jornal repleto de más notícias, examino as capas de livros escritos para serem vendidos e lidos em aeroportos. Pego também pilhas para as quais não tenho nenhuma utilidade.

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Alívio. Ô vida boa! Enfim, como um episódio novo dos Simpsons, o número de meu portão de embarque na tela. Claro, o 26. Parto para nova triagem. ("Ah, precisa do passaporte também além do cartão de embarque? Não sabia. Desculpe.") 20 minutos de atraso. Ou 20 minutos de espera, conforme queiram.

Podia ser pior. Chamam os passageiros entre as filas 18 e 36. Erro. A minha é 17. O tipo ao lado me olha desejando minha morte. Sou mais civilizado, desejo-lhe apenas uma perna quebrada.

Entrada no avião. Direitinho um caixão. E caixão apertado. Pessoas impedindo o trânsito ainda colocando malas indevidas no porta-bagagem superior. Bufo e faço expressões que variam do desânimo à severa reprovação. Amarro-me na cadeira.

Que fazer dos pés e das pernas? Trombose garantida se a viagem durar mais de 3 horas. Saímos com 1 hora de atraso. O comandante se desculpa e diz coisas ininteligíveis em duas línguas. A aeromoça (perdão, comissária de bordo) nos passa em revista.

Claro, há pelo menos 17 passageiros que não apertaram o cinto de segurança. O alto-falante nos informa que estamos apenas aguardando permissão da torre de controle para decolarmos e seguir viagem. As duas crianças começam a berrar em estereofônico. Enfim, quem diria, estamos alçando vôo e a caminho. Todos fingindo despreocupação na horinha de abandonar as duras amarras das leis da gravidade. Tudo nos é leve e por demais conhecido, vamos enganando até a distribuição de mais jornais feitos só de más notícias e vagas lembranças do que ficou por baixo e para trás.

Por um desses milagres quase diários, chegamos ao ponto de destino. Novas burocracias. Mais o sorteio do carrossel. Para variar, minhas malas estão entre as últimas a serem vomitadas por uma esteira rolante na vertical para outra em formato aproximado de círculo infernal. 45 minutos até surgirem, possivelmente devassadas. Tento o otimismo. Poderia ser pior, poderiam ter seguido viagem para Istambul, ora muito em moda entre as malas perdidas.

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Cercadas por duas viagens a aeroportos, duas viagens em aeroportos e mais duas entre aeroportos, ficaram quatro semanas de férias. Passar bem.

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O táxi. Que sai uma fortuna, em moeda com que se vai levar um tempão até a ela nos acostumarmos. Ou reacostumarmos. Para trás ficaram as férias. Casas novas, caras novas, caminhos novos. A praia, a piscina, o sol, a chuva, os restaurantes. A dor de barriga. Os outros, sempre os outros. Em todas as partes, outros. A se fotografarem e a falarem no celular. Caminhadas duras, caras duras, paisagens duras. Duras são, por natureza, as férias.

Que felizmente terminaram e, agora, sentado no sofá da sala, confiro o que há em matéria de péssima notícia na correspondência, enquanto vou tomando meu Nescafé com leite, rebatendo com um suco de laranja.

As férias acabaram. Vamos passar mal, mas em casa.

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