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Divertido, mas complicado: veja perrengues de quem viaja como mochileiro

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

14/07/2018 04h00

O que fazer quando a grana está curta e a vontade de viajar é alta? Para resolver essa equação, não faltam pessoas no mundo que juntam o mínimo de dinheiro necessário para conseguir cair na estrada, colocam apenas uma quantidade básica de roupas na mochila, enchem o espírito com uma dose cavalar de ousadia e partem rumo a destinos desconhecidos que, de preferência, ofereçam boas oportunidades de aventura.

Nos últimos 15 anos, segui essa cartilha diversas vezes e, em todas as oportunidades, consegui realizar viagens incríveis. Mas, no meio de diversas dessas jornadas, enfrentei perrengues típicos do mundo mochileiro, que inclui hospedagem em lugares tenebrosos, apertos claustrofóbicos em ônibus superlotados e sessões gastronômicas em locais insalubres. 

Veja algumas das histórias mais terríveis pelas quais já passei na minha de viajante. Se seu perfil é de mochileiro, elas também podem acontecer com você. 

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Metido a aventureiro

Marcel Vincenti/UOL
Quase me choco com esta horripilante aranha chifruda em uma trilha do Laos Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Muitos de nós, mochileiros, queremos mostrar para nós mesmos e para os outros que somos destemidos. E tive a chance de tentar provar isso durante uma viagem ao Laos, um dos países mais subdesenvolvidos da Ásia. 

Lá existe um local chamado Área de Proteção Nam Ha, uma região florestal com mais de 220 mil hectares, no meio das quais se espalham aldeias habitadas por populações das mais diversas etnias. Trata-se de uma jornada extremamente cultural, em que o turista entra em contato com povos como os akha (onde ainda existem xamãs) e os lanten (que exibem lindas vestimentas). 

Entretanto, circular dentro da floresta, entre uma aldeia e outra, é um verdadeiro sofrimento: os viajantes andam por dias a fio em trilhas lamacentas, com as pernas sendo atacadas constantemente por sanguessugas e as cabeças, às vezes, se chocando com teias onde habitam aranhas de formato horripilante.

Parte do almoço é colhido das árvores por um guia durante o percurso e as refeições usam como prato folhas de árvores sobre a lama: uma das receitas saboreadas no tour é sangue de pato com arroz. À noite (quase não há chuveiros nos vilarejos), eu tinha que entrar em um dos violentos rios da região para tomar banho (e quase fui arrastado pelo curso da água em diversas oportunidades). E todo o percurso dura cerca de sete dias. 

Tive vontade de pedir arrego algumas vezes, mas, orgulhoso, consegui terminar a trilha pela Área de Proteção Nam Ha (para jurar que nunca mais faria algo parecido de novo).  

Arriscando uma carona

Arquivo pessoal
Esperando uma boa alma me dar carona sob o sol do Oriente Médio Imagem: Arquivo pessoal

Pegar carona com estranhos é sempre arriscado, mas muita gente recorre a essa opção quando a grana está curta ou quando se está longe de um lugar por onde passam táxis ou transportes públicos. 

Certa vez, ao terminar uma trilha pelo lindo deserto de Wadi Rum, na Jordânia, recusei-me a pegar um táxi que apareceu em meu caminho e que queria me cobrar um preço abusivo pela corrida. O problema é que eu estava em uma estrada no meio do nada, sem outras opções de transporte pago, e o jeito foi parar sobre o asfalto e colocar o polegar em riste, com o sol do Oriente Médio fritando minha cabeça. 

Arquivo pessoal
Chá e cigarros com meus novos amigos em um estacionamento de caminhões da Jordânia Imagem: Arquivo pessoal

Demorou, mas um caminhão apareceu, parou no acostamento e o motorista abriu a porta para eu entrar. Empolguei-me como se tivesse acabado de encontrar um poço de petróleo e, para melhorar, o caminhoneiro, que falava um pouco de inglês e se chamava Mahmud, era extremamente gente boa. 

Só que ele esqueceu de me avisar que planejava estacionar em um pátio de caminhões no meio do trajeto para descansar e jantar: era um lugar horrível, poeirento e barulhento (um contraste com as paisagens avermelhadas de cartão-postal do Wadi Rum), onde ficamos por mais de oito horas. Eu não podia reclamar (Mahmud também me deu comida e chá) e me resignei: era o preço por eu estar fazendo uma viagem de graça. Mas fiquei frustrado por perder sagradas horas de viagem naquele estacionamento. 

Sofrendo no ônibus

Marcel Vincenti/UOL
Em ônibus claustrofóbico da Etiópia, sacerdote benze passageiros antes da viagem Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Há países do mundo onde viajantes com pouca grana realmente sofrem ao fazer viagens com ônibus baratos. Um deles é a Bolívia: certa vez, passei nada menos do que 27 horas dentro de um ônibus superlotado, fedido e cheio de animais durante uma viagem entre Puerto Quijarro (na fronteira com o Brasil) e a cidade de Santa Cruz de la Sierra. O veículo quebrou diversas vezes no trajeto e estava tão lotado que havia gente viajando em pé no meio do corredor (um homem ficou pelo menos 15 horas em pé ao lado do meu assento, tomando uma bebida alcoólica de aspecto fortíssimo e mascando folhas de coca. Depois, conseguiu se sentar no corredor). 

O posto de parada era um casebre no meio do nada, onde entrei em um dos banheiros mais sujos da minha vida. E o maior desafio foi, depois de sair do ônibus e respirar um pouco de ar puro, voltar lá para dentro, com sua atmosfera rançosa. 

A Etiópia é outra das nações com os piores ônibus do mundo. Terra da linda cidade de Lalibela (um dos mais fantásticos destinos religiosos do planeta), o país africano tem estradas terríveis, e busões mais ainda: os assentos parecem ser projetados para pigmeus e o ambiente dentro dos veículos é claustrofóbico (e muitos passageiros vomitam no caminho, por causa do excesso de curvas nas rodovias).

Uma viagem entre a capital, Adis Abeba, e Lalibela, demora nada menos do que dois dias (com a jornada fazendo uma pausa durante a madrugada, quando os passageiros dormem em hotéis em cidades no meio do caminho). Antes da viagem, sacerdotes da igreja cristã ortodoxa etíope entram no ônibus para benzer os viajantes. Algo necessário para aguentar a epopeia que está por vir. 

Outros países em que viajar de ônibus pode ser um martírio são Nepal, Egito e Vietnã. 

O estranho mundo dos hostels

Kate Brady/www.flickr.com/photos/cliche/4887430728
Redutos de mochileiros, hostels podem ser bem bagunçados Imagem: Kate Brady/www.flickr.com/photos/cliche/4887430728

Hospedar-se em hostels é, em boa parte das vezes, uma experiência positiva. São lugares que costumam ser baratos e onde é fácil fazer amigos do mundo inteiro. 

Mas, nestes locais, ocorrem às vezes situações bem desconfortáveis. Algumas são extremas: certa vez, ao ficar em um hostel do Camboja, presenciei um hóspede americano, visivelmente sob o efeito de drogas, surtar, quebrar grande parte do estabelecimento, cortar-se deliberadamente com os vidros das janelas que ele mesmo havia despedaçado e, depois, subir na mesa de sinuca e ficar em uma pose com se estivesse surfando. E o pior: o quarto dele era colado ao meu. Mesmo vendo que ele se acalmava aos poucos, não pensei duas vezes na hora de dormir: coloquei um armário na frente da porta da minha acomodação, para que não houvesse qualquer possibilidade de invasão na madrugada. 

Sim, é comum encontrar gente muito estranha em hostels, assim como quartos e banheiros insalubres: pesquise bem fotos e avaliações de ex-hóspedes ao escolher um hostel para ficar em suas férias: algumas acomodações parecem verdadeiros ninhos de rato. E reze para não ter o azar de compartilhar um quarto com algum viajante que não goste de tomar banho: ao se hospedar em um hostel da Rússia, um amigo meu teve que besuntar suas narinas com Vicky Vaporub na hora de dormir: segundo ele, sua vizinha de cama estava com um odor insuportável. 

A tal da imersão cultural

Arquivo pessoal
Na Bolívia tentei, sem sucesso, ajudar mineiros a trabalhar Imagem: Arquivo pessoal

Mochileiros, incluindo eu mesmo, também adoram praticar a tal da imersão cultural durante suas viagens, indo a lugares frequentados apenas por nativos e interagindo o máximo possível com os moradores locais. 

Mas há que tomar cuidado para não exagerar: na cidade boliviana de Potosi, por exemplo, visitei a mina que fica dentro da montanha conhecida como Cerro Rico, que tem seu interior precário e que parece um formigueiro aberto turistas. Não contente em sofrer para cruzar as galerias claustrofóbicas do lugar, resolvi ajudar um grupo de mineiros a recolher os minérios que eles haviam acabado de extrair de um dos buracos do Cerro Rico.

Marcel Vincenti/UOL
Refeições de rua são baratas, mas tome cuidado ao tentar comer como os nativos Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Eu queria "sentir" como era o árduo trabalho destes homens e, em menos de dez minutos (muito pelo meu total despreparo físico para a tarefa, mas também por causa da elevada altitude do local, a mais de 4.500 metros sobre o nível do mar) eu estava exausto, e passando levemente mal por causa do meu esforço. E quase tive um ataque de claustrofobia ao tentar sair da mina. 

O mesmo vale para comidas: pense duas vezes em provar aquela receita na Índia ou na Tailândia que é vendida em mercados de rua de salubridade duvidosa. Para os nativos, pode ser inofensivo degustar tais iguarias ao ar livre, mas, para um turista acostumado com sucrilhos e iogurte, o destino pode ser o hospital.    

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