Topo

Viagem

Brasileiras catam latinha e pedem dinheiro na rua para viajar o mundo

Rerodução/Instagram/mundosemmuros
Renata e Aline estão viajando o mundo em troca de trabalho Imagem: Rerodução/Instagram/mundosemmuros

Amanda Serra

Do UOL Viagem

07/07/2018 04h00

A biomédica Renata Rodrigues, 25, e a fotógrafa Aline Fortuna, 24, almejavam desbravar o mundo no melhor esquema “baixo custo”. Em quatro meses, planejaram, pediram demissão, trocaram R$ 8 mil reais por euro e encontraram uma promoção de passagens para Espanha. Foram! A ideia era, e tem sido, trabalhar nos destinos em troca de hospedagem e comida –o chamado “workaway”.

Na estrada desde outubro, as namoradas já passaram por Portugal, Alemanha, Egito, Israel, Deserto do Saara, Jordânia e, atualmente, estão no Chipre. A média costuma ser de um mês ou um pouco mais. E apesar dos perrengues -- sim eles existem --, as memórias já são valiosas. “Acampamos na beira do Mar Morto, cozinhamos em uma fogueira e dormimos cinco noites no Saara. Sem banho, fazendo necessidade no meio do deserto. Mas foi incrível poder ver o céu refletido na areia em dia de lua de cheia, sem nenhum barulho. Choramos”, conta Renata.

Veja também

Elas não têm uma meta de quantos países ou cidades que querem visitar. Desde que saíram do Brasil estão seguindo conforme o fluxo e as promoções de passagens. “Queremos conhecer o máximo de paisagens naturais possíveis”, afirma Renata.

Com a grana curta e a necessidade de economizarem, o casal se vira do jeito que dá. “Em Israel tivemos muita dificuldade de encontrarmos trabalho por conta do visto. Então, catamos latinha, pedimos dinheiro na rua”, diz a biomédica. Logo depois elas conseguiram um “emprego” em uma pequena pousada, próximo da faixa de Gaza. Após um tempo no local, além da moradia e da comida, passaram a ganhar cerca de R$ 200 cada uma por semana, o que não é comum no "workaway". “Foi o melhor lugar que estivemos até agora. Tentamos estender o visto, mas não conseguimos e fomos para Jordânia.”

Aliás, ainda sem emprego no Chipre, elas voltaram a pedir dinheiro na rua e até o momento faturaram 37 euros, o equivalente a R$ 167. "Mas tem sido difícil porque aqui as pessoas não dão muita bola", diz Aline.

E vale a pena mesmo assim?

Aline Fortuna/Divulgação
O casal em Abu Simbel, no Egito Imagem: Aline Fortuna/Divulgação

“Já tivemos momentos de fraqueza, de repensar o que estamos fazendo. Quem viaja de baixo custo, como nós, precisa trabalhar o psicológico para entender que nem sempre a comida será boa, que não terá conforto. Viajar cansa. Assim como produzir vídeo e fotos. Mas as situações ruins acabam virando histórias, damos risadas”, diz Renata, que tem aprendido na prática a filmar e editar. O casal produz material audiovisual para o canal “Mundo sem Muros” e também produziram um vídeo para agência turística de um egípcio onde ficaram hospedadas.

“Não queremos ter uma vidinha normal. Fiquei quatro anos e meio em um trabalho e não aguentava mais a rotina. A gente quer conhecer o mundo, outras culturas.... É bom ver uma foto e imaginar que podemos ir para os locais ali retratados. Esses sete meses valem muito mais do que o nosso tempo de vida já”, afirma Aline.

Qual o tipo de trabalho?

Aline Fortuna/Divulgação
Em Luxor, no Egito Imagem: Aline Fortuna/Divulgação

Os que aparecem. Não dá para ficar escolhendo. Em Portugal, elas cuidavam da jardinagem. Com enxada, pesada, além dos afazeres domésticos. Na Alemanha, tinham como missão ensinar português para duas crianças. Na Espanha, o primeiro destino, não trabalharam.

Por conta da pressa de sair de Israel, já que o visto tinha expirado, elas não tiveram tempo hábil para conseguir um workaway bacana na Jordânia.

“Só recebemos uma resposta e tivemos que aceitar rápido. Fomos trabalhar em um hotel como faxineiras e tínhamos direito apenas a duas refeições – pão pita com homus [pasta de grão de bico] ou batata frita e, às vezes, acompanhado de ovo. O nosso quarto não tinha ar-condicionado e com o calor de 40º graus era horrível. Teve dia que tínhamos que colocar os computadores dentro do frigobar para eles funcionarem”, conta Renata.

“O dono do hotel nunca ofereceu os ingredientes básicos para cozinharmos a nossa própria comida, que era o que vinha acontecendo nos outros trabalhos. Teve dia que a gente passou muita fome lá. O local era afastado da cidade para comprarmos as coisas. Enquanto trabalhávamos, ele ficava atrás dando pitaco, muito chato”, lembra ela. As duas precisaram ficar no local cerca de três semanas até a câmera nova chegar –a antiga máquina caiu no Mar Morto.

Mulheres sozinhas no Oriente Médio: "Foram muitos momentos desconfortáveis"

Sem as tradicionais vestimentas dos países árabes, Renata e Aline eram uma espécie de atrações no Egito.

“É como se fossemos um ET para eles. As pessoas pediam selfies, todo mundo tentava falar com a gente, principalmente os homens. Fomos assediadas em todos os momentos no Egito, assim como aconteceu na Jordânia, só que um pouco menos. Sabíamos do assédio contra as mulheres nos países árabes. Viajamos conscientes, mas a gente sempre acaba se surpreendendo quando acontece, né?”, diz Renata.

A situação de maior temor surgiu assim que desembarcaram no Egito. Mesmo após se certificarem sobre a reputação do anfitrião por meio de avaliações de outros viajantes no site de workaway, de terem feito uma videoconferência, inclusive, informando que são namoradas, Renata e Aline sentiram medo ao saberem que passariam mais de 8 horas em um carro com um taxista, amigo do dono da casa onde ficariam.

“O local ficava no deserto, descemos em um aeroporto distante... Não sabíamos se realmente eles eram confiáveis. Em alguns momentos, o motorista pediu que a gente se abaixasse e se escondesse, pois, passaríamos por blitzs policiais. Até hoje não sabemos o motivo. Mas confiamos no universo e deu tudo certo”, conta Renata.

A adaptação no início também não foi simples. A insegurança estava ali. “Ficávamos com medo até quando ofereciam bebida ou comida. Muitas vezes só uma comia e a outra não”, diz a biomédica.

Aline Fortuna/Divulgação
Petra, uma das maravilhas do mundo Imagem: Aline Fortuna/Divulgação
Para economizarem, Renata e Aline não aderiram ao transporte destinado aos turistas, ou seja, usavam os mesmos que as pessoas locais – mais baratos, mas perigosos para mulheres.

“Teve o caso de um cara mais velho passar a mão na bunda da Aline. Ficsmos com raiva, mas estava lá no meio do povão e ia fazer o que? A maioria não entende inglês. Às vezes é preciso engolir. O assédio existe independentemente da sua postura. Mesmo com marido ao lado, a mulher é assediada”, relata Renata.

Apesar de tudo isso, elas garantem que conheceram pessoas legais, que deram comida e foram hospitaleiros. Até o momento, o Egito é o lugar preferido onde estiveram.

Viajamos sozinhas por lá e aprendemos que não podemos olhar nos olhos dos nossos interlocutores, porque isso é interpretado como um sim para qualquer coisa

No entanto, elas não desaconselhariam ninguém a viver o que estão vivendo.

“Tenha um planejamento mínimo, mas não deixe de viajar mesmo que sozinha. Vá, se jogue e aprenda. Claro, é preciso ter um mínimo de prevenção, estar preparado para as adversidades. Já fui furtada na Ásia, já conhecemos pessoas que foram furtadas, isso pode acontecer. É preciso respeitar a cultura de cada país. Saber o que é proibido ou não. Muitos viajam sozinhos e acabam se apaixonando na estrada", diz Renata, que alerta para o nível de inglês.

“Principalmente para mulheres que estão sozinhas, é preciso ter segurança para conseguir informações, não passar sufoco, criar laços e se virar.” Confira mais dicas aqui para não cair em uma cilada.

Facebook Messenger

Receba seu horóscopo diário do UOL. É grátis!

Mais Viagem