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Como é viajar na Palestina, o barril de pólvora que não sai das notícias

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Homem palestino observa a paisagem da Cisjordânia, no Oriente Médio Imagem: Getty Images

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

02/06/2018 04h00

Palco de uma ferrenha disputa territorial entre judeus e árabes, os chamados Territórios Palestinos estão longe de ser um dos destinos de férias mais cobiçados do mundo. 

Explosões de violência na região são constantes, a última delas motivada pela decisão do governo Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel

Mas, como é viajar por esta conturbada área do planeta?

Em uma fria tarde de inverno, pego um ônibus na estação rodoviária que fica ao lado do Portão de Damasco, no centro histórico de Jerusalém, para descobrir isso.

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Muro que separa Israel da Cisjordânia é coberto por grafites de protesto Imagem: Getty Images

Meu destino é a Cisjordânia, área colada ao território israelense, habitada majoritariamente por uma população palestina e que promete uma viagem que irá misturar momentos de tensão com passeios a locais turísticos fascinantes. 

Sim, junto com conflitos armados, esta região dos Territórios Palestinos abriga locais históricos de primeira grandeza e sítios de enorme importância para as religiões monoteístas.

Pela janela 

O ônibus deixa Jerusalém e, em pouco tempo, chega ao grande muro construído pelo governo israelense para separar seu território da Cisjordânia, cujo um dos objetivos é impedir que militantes palestinos entrem em Israel para realizar ataques terroristas.  

Israel controla de maneira rígida todas as fronteiras da Cisjordânia, mas passar pela barreira de concreto (que tem uma das faces marcadas por grafites de protesto contra sua existência) e por seus soldados israelenses armados até os dentes é, para minha surpresa, um procedimento rápido (eles não parecem muito preocupados com as pessoas que ingressam em território palestino, mas com as que vêm de lá).   

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A cidade de Nablus está em uma das áreas mais tensas da Cisjordânia Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Meu destino final é a cidade de Nablus e, na estrada, vejo no horizonte um dos grandes motivos do conflitos na região: são vilas construídas entre colinas de oliveiras e cidades palestinas cuja entrada é fortemente protegida por militares de Israel.

Trata-se de assentamentos israelenses, que começaram a ser erguidos na Cisjordânia após a Guerra dos Seis Dias (ocorrida em 1967, quando Israel tomou a região da Jordânia e começou a controlá-la militarmente), mas que são consideradas ilegais pelas Nações Unidas, pois não estão dentro das fronteiras oficiais de Israel.

Há pouco tempo, uma moradora de um destes assentamentos havia sido morta esfaqueada dentro de sua casa por um homem palestino e, ciente disso, caminho com cautela quando desço em Nablus e começo a subir uma colina em direção ao vilarejo de Kiryat Luza, onde existe uma das últimas comunidades de samaritanos no mundo. 

Edward Kaprov/Creative Commons
Samaritanos celebram festival religioso no monte Gerizim, na Cisjordânia Imagem: Edward Kaprov/Creative Commons

No trajeto, um jovem árabe me para na rua e pergunta, um tanto desconfiado ao ver meu rosto estrangeiro: "inta yahud?" (você é judeu?). Talvez ele tenha pensado que eu era algum colono que se perdeu de seu assentamento e eu, preocupado em não ser esfaqueado também, respondo prontamente: "sou brasileiro", o que abre um sorriso no garoto e gera um longo e amigável papo sobre futebol. É bom ser do Brasil no Oriente Médio.    

Os últimos samaritanos 

O vilarejo de Kiryat Luza, situado no coração da Cisjordânia, é um dos lugares mais interessantes de todo o Oriente Médio. Lá, encastelada no topo de uma montanha chamada Monte Gerizim, vive uma das últimas comunidades de samaritanos do mundo, com cerca de 400 membros.

Parte de uma das passagens mais famosas do Novo Testamento (lembram do samaritano que ajuda um homem espancado por assaltantes na estrada entre Jerusalém e Jericó, em Lucas 10:30-37?), eles têm um perfil complexo: conversam entre si em árabe e seguem práticas religiosas que, frequentemente, dialogam com o judaísmo, como a observação do sabá e livros sagrados que têm diversos pontos em comum com a Torá judaica, mas se desviam da fé dos judeus ao afirmar que o monte Gerizim, e não Jerusalém, é o local designado para receber o Templo Sagrado. Muitos circulam pela área envergando uma fotogênica túnica cinza e um adereço vermelho na cabeça.

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Turistas visitam a Basílica da Natividade, que marca o suposto local do nascimento de Jesus Imagem: Getty Images

Ao visitar Kiryat Luza, o turista tem um contato bem profundo com sua comunidade: seus membros se dispõem a guiar o forasteiro por um museu que conta em detalhes a história dos samaritanos e, se der sorte, o visitante pode ser até convidado para almoçar na casa de algum habitante da vila. Lá embaixo é possível ver uma área que já foi cenário de violentos conflitos armados, com a cidade árabe de Nablus de um lado e assentamentos israelenses do outro.  

Nos Territórios Palestinos, entretanto, as experiências religiosas não param por aí: na região está nada menos que a cidade de Belém, local no qual teria nascido Jesus. Lá fica a Basílica da Natividade, um templo que foi completado no século 6 e onde, mesmo sendo uma pessoa cética, me sinto tocado por uma atmosfera de forte devoção: fiéis oram fervorosamente no ambiente cavernoso que marca o local onde Jesus teria vindo ao mundo, enquanto as luzes do sol projetam raios através das janelas. 

Batismo e minas terrestres

Outro suposto cenário de um dos acontecimentos mais famosos para o cristianismo também está na Cisjordânia: trata-se do trecho do rio Jordão que fica em um local conhecido hoje como Qasr al-Yahud, onde Jesus teria sido batizado por João Batista. 

É um lugar que atrai peregrinos do mundo inteiro, que buscam reproduzir o episódio bíblico afundando nas águas barrentas do Jordão.

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Fiéis cruzam com soldados israelenses ao sair do rio Jordão, na área de Qasr al-Yahud Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Chama a atenção, porém, a paisagem que cerca o rio: na área, além de muitos soldados israelenses, há diversos terrenos cercados por arame farpado e recheados de minas terrestres, colocadas ali como consequência da Guerra dos Seis Dias, que, em 1967, opôs Israel a países árabes vizinhos.

Mas após cruzar a Cisjordânia, isso acaba não surpreendendo muito: no Oriente Médio, é quase impossível separar a fé de conflitos armados.     

Circulando pela região

Os Territórios Palestinos são uma área altamente volátil, onde a violência pode aumentar significativamente de uma hora para outra. Uma jornada pela área nunca será livre de riscos.

É possível ir de ônibus, em viagens bate-e-volta de um dia, de Jerusalém até as cidades palestinas de Ramallah e de Belém (e de Ramallah, é relativamente fácil achar transporte até Nablus). Para quem tem um pouco mais de dinheiro, talvez valha a pena contratar, em Jerusalém, alguma agência turística que forneça transporte e guia turístico até estes locais, incluindo Qasr al-Yahud, que se encontra em uma área mais remota. 

Ramallah, Nablus e Belém também oferecem infraestrutura hoteleira decente para quem quiser pernoitar. 

Só tenha em mente que, ao regressar a Israel, você pode sofrer interrogatórios dos guardas israelenses de fronteira: eles provavelmente vão querer saber, às vezes de maneira insistente, porque você resolveu visitar os Territórios Palestinos e se tem amigos árabes. Prepara-se para passar um bom tempo respondendo perguntas pra lá de chatas.   

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