menu
Topo

Viagem

Na Etiópia, turistas alimentam perigosas hienas e provam droga poderosa

Getty Images
Na cidade de Harar, homem usa a boca para alimentar hiena Imagem: Getty Images

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

02/05/2018 04h00

Em um árido descampado que cerca a cidade de Harar, no leste da Etiópia, o guia turístico solta um altíssimo assovio em direção ao horizonte.

É noite e, em poucos minutos, surgem oito olhos brilhantes no meio da escuridão, acompanhados por barulhos que lembram risadas humanas e que soam assustadores.

São quatro hienas que foram atraídas pelo chamado do guia e, agora, circulam lentamente entre os mais de dez turistas que se encontram presentes no local. 

msafari2425/www.flickr.com/photos/23780315@N06/6019108126
Na Etiópia, turistas também se arriscam alimentando as hienas Imagem: msafari2425/www.flickr.com/photos/23780315@N06/6019108126

Todos estes viajantes estão aqui para participar de uma das atividades mais populares de Harar entre estrangeiros: se arriscar para ficar frente a frente com enormes hienas e alimentá-las com pedaços de bichos mortos. 

Para mostrar como se faz, um jovem morador de Harar enfia um naco de carne em um graveto e o coloca entre seus dentes: uma das hienas se aproxima dele, se levanta sobre suas patas traseiras (ultrapassando o rapaz etíope em altura) e agarra o alimento com sua enorme boca, em uma mordida rápida e violenta. 

Getty Images
Em Harar, a interação com as hienas é perigosamente próxima Imagem: Getty Images

Os turistas são convidados a fazer o mesmo (e os mais corajosos aceitam a tarefa). Uma garota holandesa, inclusive, se ajoelha na frente de uma das feras para lhe dar comida e cai no chão quando toma um tranco de uma hiena que circulava às suas costas.

Toda a "brincadeira" é visivelmente perigosa (dada a natureza violenta destes bichos), mas um dos guias me diz que não deve haver preocupação (declaração que eu ouço um tanto incrédulo): "as hienas têm muito alimento nesta área da Etiópia. Elas não sentem vontade de morder as pessoas". Sua fome para abocanhar a carne oferecida pelos estrangeiros, entretanto, parece interminável.

Getty Images/iStockphoto
Harar, na Etiópia, é marcada por vielas coloridas e extremamente fotogênicas Imagem: Getty Images/iStockphoto

A alimentação das hienas dura cerca de 30 minutos e ninguém se machuca neste meio tempo. Quando a carne acaba, os bichões prontamente voltam ao lugar de onde vieram (eles realmente não parecem muito interessados em seres humanos) e o guia passa com uma caixinha pedindo gorjetas. Felizes por terem vivido (e sobrevivido a) esta experiência, os turistas (principalmente os europeus) lhe dão gordas quantias de dinheiro. 

Planta poderosa 

Junto com Lalibela (cidade etíope famosa por suas igrejas de pedra), Harar é um dos destinos turísticos mais interessantes da Etiópia. Durante séculos, este centro urbano foi um importante entreposto comercial de mercadorias que circulavam entre o Chifre da África e a Península Arábica.

Hoje longe de grandes rotas comerciais, mas cada vez mais turística, sua paisagem é marcada por vielas cheias de atmosfera onde existem lindas mesquitas, mercados de rua coloridos e casarões que pertenceram a grandes comerciantes do passado. 

Getty Images
Homem vende khat em rua da Etiópia; planta é encontrada em abundância em Harar Imagem: Getty Images

À noite, não é incomum se deparar com hienas circulando entre as casas de Harar. E nas feiras ao ar livre da cidade, nativos (e turistas em menor escala) compram a planta conhecida como khat, que, ao ser mastigada e armazenada na boca, pode causar efeitos de extrema euforia na pessoa (e também tirar a fome).

Esta é a planta usada pelos pilhados piratas somalis do filme "Capitão Phillips" (estrelado por Tom Hanks e lançado em 2013) e, em Harar, ela pode ser adquirida livremente nas ruas. 

Getty Images
Harar tem lindos casarões e um museu dedicado ao poeta francês Arthur Rimbaud Imagem: Getty Images

Muitos turistas tentam prová-la, mas a maioria não aguenta ficar com a planta na boca, dado o seu sabor extremamente amargo. É fácil, porém, identificar nativos com sintomas de hiperatividade, sinal de que eles usaram o khat em boa quantidade.

Para ver a planta sendo comercializada em volumes gigantescos (e toda a intensa negociação que envolve a sua venda), vale a pena ir até a vila de Awaday (perto de Harar), que abriga um mercado de rua frenético de venda de khat.  

E se o interesse for por outro tipo de cultura, saiba que Harar foi lar, no século 19, do aclamado poeta francês Arthur Rimbaud, que se mudou para lá após se cansar da vida europeia. Na cidade, há um museu dedicado à história de Rimbaud localizado em um lindo casarão: visita obrigatória.  

Mais Viagem