Viagem

Quer viver viajando? Aprenda com brasileiro que foi a 125 países em 10 anos

Arquivo pessoal
Após enfrentar um mar revolto para chegar à Antártida, Mike fez stand-up paddle entre icebergs Imagem: Arquivo pessoal

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

19/04/2017 04h00

Aos 33 anos, Mike Weiss já realizou o sonho de vida de muita gente. Desde que deixou o Brasil, em 2007, não parou mais de viajar: deu três voltas ao mundo, em que visitou 125 países de todos os continentes. Nessas andanças, não faltaram aventuras: quase morreu em um deserto da Tunísia, teve um encontro assustador com gorilas em Ruanda e encarou um dos mares mais revoltos do planeta ao navegar para a Antártida. Também limpou neve da rua na Coreia do Norte, explorou as mesquitas do Irã e dançou com tribos da Suazilândia, no sul da África. Hoje, ele é classificado pelo site "The Best Travelled" como uma das cem pessoas mais viajadas do planeta (e é o brasileiro mais jovem do ranking).

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Em Pyongyang, Mike ajuda mulher norte-coreana a tirar neve da rua Imagem: Arquivo pessoal

Mas, como é possível ter uma vida assim? "Não existe mágica. É preciso ter dinheiro", diz Mike, para depois ressaltar: "E não sou filhinho de papai. Trabalhei por cada centavo gasto em minhas jornadas". Além da grana, há muitos macetes para conseguir se tornar um viajante em tempo integral. Em entrevista ao UOL, Mike dá dicas para realizar este sonho e fala sobre suas experiências mais fantásticas.

Planejamento e trabalho são essenciais

Mike nasceu em São Bento do Sul (SC) e durante sete anos trabalhou na área de importações de uma empresa de seu Estado. Bom de finanças, poupou boa parte dos seus salários para realizar longas viagens no exterior. "Primeiro, fiz jornadas pela América do Sul e, em 2009, dei início à minha primeira volta ao mundo, que durou um ano e passou por países como Austrália, Japão, Nepal e Egito".

Em uma temporada em Moçambique e no Malauí, na África, Mike trabalhou como gerente numa empresa de mineração e juntou mais dinheiro para viajar. Para quem quer seguir um caminho parecido, ele recomenda planejamento: "Existem vários tipos de viagem, o importante é saber qual é o seu estilo para determinar de quanto dinheiro você precisará. A maioria dos viajantes de longo prazo, como eu, trabalhou muito e fez um bom pé-de-meia", diz. 

Para quem pensa em trabalhar enquanto viaja, atividades como webdesign, programação, traduções e videoblogging podem ser desempenhadas remotamente. Outra dica importante, segundo Mike, é viajar por lugares pouco turísticos e com moeda desvalorizada. "As experiências são mais autênticas, a hospitalidade é muito maior e os preços são muito mais baixos".

Atualmente, diversas alianças de companhias aéreas (como OneWorld, SkyTeam e Star Alliance) vendem passagens de volta ao mundo com bom custo-benefício. Quem realmente quiser economizar em uma longa jornada deve fazer como Mike e ficar em hostels ou fazer couchsurfing (em que turistas se hospedam de graça em casas de estranhos), comer em pequenos restaurantes familiares baratos e andar muito, o que evita gastos com transporte e permite conhecer melhor as paisagens e pessoas do lugar.

Perrengues do Saara à Antártida

No econômico estilo de vida mochileiro, Mike passou por vários sufocos. "Colocar os pés para fora de casa é estar sujeito a perrengues. E os perrengues são o tempero de qualquer viagem", garante.

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Após se perder no deserto da Tunísia, o brasileiro foi acolhido por um acampamento nômade Imagem: Arquivo pessoal

Na Tunísia, em 2012, ele queria visitar a área que foi cenário da saga "Star Wars". "Aluguei um carro e contratei um guia, mas pegamos uma estrada errada e nos perdemos no deserto. Para piorar, o carro atolou na areia. Não havia ninguém por perto, o calor estava insuportável e nós tínhamos levado apenas uma garrafa com 300 ml de água. Foi aí que bateu o desespero: o guia me avisou que, se ficássemos presos ali até a noite, poderíamos ser atacados por nômades que não hesitariam em nos matar para roubar as peças do carro".

Os dois resolveram abandonar o veículo e caminhar em busca de ajuda enquanto ainda era dia. "Após andar por muitas horas, sem tomar um gole d'água, eu sentia as minhas pernas perdendo força, o calor do vento era abrasivo e não havia uma sombra sequer. Pensei que fosse morrer. Foi então que vimos uma pessoa no horizonte. Parecia uma miragem. Gritamos 'água' em árabe e ela mostrou um cantil para a gente. E quem era essa pessoa? Era justamente um nômade que estava passando por ali. Em vez de nos matar, ele nos salvou, nos levando para seu acampamento e nos dando abrigo e alimento até que viesse alguém para desencalhar o carro".

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No país africano da Suazilândia, um convite para dançar com os nativos Imagem: Arquivo pessoal

Em Ruanda, na África, Mike estava fazendo uma trilha pelo Parque Nacional dos Vulcões, onde é possível ver gorilas, e acabou chegando perto demais de um deles. "Eu estava tirando fotos no meio da selva e, de repente, sinto uma mão tocando no meu ombro. O meu guia, que estava à frente, me disse: 'não se mexa!'. Percebo, então, que era a mão do líder dos gorilas, um primata com mais de 200 quilos que parecia querer passar alguma mensagem para o intruso brasileiro. A distância mínima que devemos manter dos gorilas é de sete metros. Mas, felizmente, ele tirou a mão do meu ombro, bateu forte contra o próprio peito como se estivesse dizendo 'quem manda aqui sou eu' e foi embora. Foi tenso e inesquecível".

Uma das últimas aventuras de Mike foi durante um cruzeiro entre a Argentina e a Antártida, em 2016. No trajeto, a embarcação cruzou o estreito de Drake, uma das regiões marítimas mais revoltas do mundo. "O barco chacoalhou violentamente durante dois dias. Gavetas caíam, cadeiras voavam e pessoas se machucavam. Era difícil caminhar e comer. Eu me senti um grão de areia no meio da fúria da natureza. Quando chegamos à Antártida, o capitão disse que aquela tinha sido uma das piores tempestades que ele havia visto. Mas então veio a bonança: tivemos um raro dia de muito sol com mar tão calmo que foi possível fazer stand-up paddle entre os icebergs".

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Mike é, segundo o site "The Best Travelled", uma das 100 pessoas mais viajadas do mundo Imagem: Arquivo pessoal

O brasileiro também visitou países como Coreia do Norte (onde passou o fim de ano de 2015, sem nenhuma festa e sob temperaturas negativas), a Síria (quando ainda não estava em guerra) e o Turcomenistão (um fechadíssimo país da Ásia Central). Também esteve em lugares que se consideram países, mas não são reconhecidos como tais pela ONU, como Palestina, Tibete, Kosovo e Transnístria. 

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O Jalapão, no Tocantins, está entre os destinos preferidos do viajante brasileiro Imagem: Arquivo pessoal

Quando perguntado sobre seu destino preferido, a resposta é rápida: "Nova Zelândia, por suas paisagens; Irã, por sua riqueza cultural; e Brasil. Em 2014, passei cinco meses viajando pelo Brasil. Fui por terra do Rio Grande do Sul até a fronteira com a Colômbia. A beleza do Jalapão deixa muitos destinos turísticos mundiais no chinelo. Os Lençóis Maranhenses me deixaram de queixo caído, e a experiência de cruzar o rio Amazonas num barco em redes é tão interessante como fazer a Transiberiana, na Rússia". Mike não pretende conhecer todos os 193 países do mundo. "Eu não viajo para contar carimbos no passaporte. Vale mais conhecer um estado do Brasil do que uma pequena nação perdida no meio do nada", diz.

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