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UFC dos Andes: festival da porrada tem oferenda de sangue para "Mãe Terra"

Rodrigo Machado/Folhapress
Policiais observam a porradaria comendo solta na Festa do Tinku Imagem: Rodrigo Machado/Folhapress

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

08/02/2017 04h00

No meio da multidão, dois homens se agarram pelos colarinhos e começam a desferir fortíssimos socos um no outro, sempre tendo nariz, boca, olhos e têmporas como alvos preferenciais dos golpes. O ar é rarefeito, mas nem a falta de oxigênio impede que a briga se estenda por minutos a fio, até que um dos contendores caia de cara no solo poeirento, com o sangue escorrendo pela face.

Policiais observam tudo de perto e só intervêm no momento do nocaute. Não demora muito, porém, para que uma nova roda se abra no meio do público e tenha início outra luta violentíssima.

Não se trata de um torneio de artes marciais, mas da Festa do Tinku, um dos acontecimentos culturais mais originais e assustadores da Bolívia (e que, apesar da brutalidade, é considerado legal pelo governo do país andino).

O sangue vai gerar melhores colheitas

AP Photo/Juan Karita
Mulheres também brigam no festival de Macha, na Bolívia Imagem: AP Photo/Juan Karita

O evento é realizado todo começo de maio no vilarejo de Macha, a cerca de 480 quilômetros de La Paz e situado a aproximadamente 3.500 metros de altitude. Na data, centenas de grupos de homens e mulheres, vindos de comunidades camponesas de diversas partes do território boliviano, chegam a Macha com um grande objetivo: derramar sangue para Pachamama (deidade indígena cujo nome pode ser traduzido como "Mãe Terra"). Eles creem que tal oferenda será capaz de gerar melhores colheitas. 

No idioma quíchua, muito falado nesta região da Bolívia, tinku significa "encontro", um termo que explica bem o que acontece em Macha durante a festa. Em dias anteriores aos embates, a cidade, que tem apenas 2.000 habitantes, é tomada por milhares de pessoas em trajes andinos, que, em clima de relativa harmonia, realizam danças folclóricas e enchem a cara de chicha, uma popular bebida alcoólica boliviana feita com milho fermentado.

Gluttomr Flatabo/Creative Commons
Na festa, se vê homens nocauteados (por socos ou pelo álcool) nas ruas de Macha Imagem: Gluttomr Flatabo/Creative Commons

O Festival do Tinku já era realizado em tempos pré-colombianos, mas, após a chegada dos espanhóis à área, ganhou características de sincretismo religioso: além da veneração à Pachamama, os participantes do evento participam de missas católicas – quase sempre, entretanto, rezadas em quíchua.

O tal do "encontro", porém, fica violento no dia 3 de maio, quando homens e mulheres (geralmente em um alto nível de embriaguez) começam a brigar nas ruas de Macha. Os embates costumam ocorrer entre membros de comunidades camponesas diferentes e nem sempre têm como meta oferecer sangue a Pachamama. Em alguns casos, as lutas são acertos de contas entre duas partes que entraram em desavença no passado e, não raro, descambam em embates grupais envolvendo dezenas de pessoas.

Os policiais estão ali para impedir mortes, e às vezes usam golpes de chicote e gás lacrimogêneo para pôr fim aos confrontos. Diversos brigões morreram durante o festival em anos passados, quando as forças de segurança não estavam presentes.

Mesmo assim, o estrago é grande: ao final do evento, Macha está recheada de pessoas desmaiadas na sarjeta ou cambaleando pelas ruas com a cara amassada e ensanguentada.

Evento é patrimônio cultural. Nem sempre é bem recebido

Em 2012, o presidente boliviano Evo Morales, cujo governo tem sido marcado pela valorização das tradições indígenas do seu país, declarou o ritual do Tinku como “Patrimônio Cultural e Imaterial” da Bolívia.

Muitos compatriotas de Morales, entretanto, torcem o nariz para o evento realizado em Macha. "Sei que o Tinku é uma expressão cultural que remonta a tempos ancestrais", declara o empresário boliviano Gustavo Machicado, que vive em La Paz. "Mas, para mim, é abominável que, em pleno século 20, pessoas sigam fazendo oferendas de sangue humano à Pachamama e outras deidades. E isso sem falar em toda a violência que o festival envolve".

Rodrigo Machado/Folhapress
Evo Morales declarou o Tinku como Patrimônio Cultural da Bolívia Imagem: Rodrigo Machado/Folhapress

O historiador Tito Burgoa, entretanto, hoje um dos maiores especialistas nas tradições do Tinku na Bolívia, diz que as brigas são apenas um dos componentes do festival de Macha. "O 'encontro', que é tradução da palavra tinku, não se refere às lutas, mas à confluência de diversas comunidades indígenas para Macha, onde elas agradecem por colheitas passadas, realizam suas danças típicas e mantêm suas tradições vivas. Mas, logicamente, a oferenda de sangue à Pachamama é um fator importante para muitos dos participantes".  

Todos os anos, dezenas de turistas estrangeiros vão até Macha para ver de perto as celebrações e as brigas do festival. Trata-se de uma experiência cultural única, mas, também, de uma aventura arriscada. Não raro, os forasteiros são hostilizados e até atacados por participantes mais exaltados do evento (e que geralmente estão extremamente bêbados).

A maneira mais segura para acompanhar o evento é contratar alguma agência turística na cidade de Potosi, um importante centro urbano da Bolívia que fica a cerca de 150 quilômetros de Macha. Se você quiser ir até lá de La Paz, prepara-se para uma longa viagem: por causa das irregulares estradas bolivianas, a viagem pelos 450 quilômetros que separam La Paz de Macha dura mais de 10 horas. Abaixo, veja um vídeo que mostra como são as brigas durante a Festa do Tinku. 

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