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Por menor custo e mais público, o turismo surfa na onda "verde"

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Imagem: Getty Images

Shivani Vora

Do The New York Times

13/01/2017 08h31

O turismo sustentável, que está gerando uma conscientização global para as viagens e colocando-a em ação, é uma das prioridades atuais da ONU – tanto que designou 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento.

Foram aproximadamente 1,2 bilhão de viajantes internacionais em 2015, em comparação aos 674 milhões de 2000, segundo a organização. Isso significa quase uma pessoa em cada sete no mundo – e a marca deve chegar a 1,8 bilhão em 2030.

"Esse aumento drástico é exatamente o porquê de um modelo sustentável precisar de atenção justamente agora. O impacto do turismo no mundo pode ser positivo ou negativo, mas o nosso objetivo é fazer com que o setor seja uma força para o bem", garante Taleb Rifai, secretário-geral da Organização Mundial de Turismo, agência da ONU responsável pela iniciativa.

Segundo a agência, o turismo sustentável tem três diretrizes para hotéis, operadoras, companhias aéreas e de cruzeiros (além dos próprios destinos e dos turistas): práticas ecologicamente corretas, como a diminuição do uso de plástico; proteção do patrimônio natural e cultural (como florestas tropicais e locais históricos); apoio às comunidades regionais através da contratação de mão de obra local, locavorismo e a realização de trabalhos beneficentes.

Sem dúvida, as ideias não são novas, mas estão em constante evolução. Segue então um resumo da situação atual do turismo sustentável e o que deve acontecer no ano que se inicia.

A popularidade da sustentabilidade

Para os especialistas, o turismo sustentável continua sendo um movimento de nicho. "Algumas empresas tentam seguir os preceitos, outras os ignoram totalmente; do ponto de vista do viajante, a demanda e a conscientização ainda são mínimas", constata Randy Durband, CEO da Global Sustainable Tourism Council, uma ONG de Washington.

Corroborando essa ideia, o Booking.com, que se descreve como "o maior site de reservas do mundo", com aproximadamente um milhão de propriedades em seu banco de dados, conduziu uma pesquisa, em março de 2016, com dez mil pessoas de várias partes do planeta e concluiu que apenas 42% se consideravam viajantes sustentáveis. 65% afirmaram não ter se hospedado ou não saber se se hospedaram em acomodações ecologicamente corretas. Em outra pesquisa que a empresa fez, no ano passado, com cerca de 5.700 hotéis, somente 25 % afirmaram fazer uso de práticas sustentáveis.

Apesar disso, o setor e os viajantes fizeram um progresso significativo, de acordo com Costas Christ, diretor de sustentabilidade da rede de luxo Virtuoso. "Nos anos 60 e 70, a iniciativa ecológica e a preocupação com a cultura local era vista como uma coisa meio hippie, meio exótica. Hoje há muito mais familiaridade e interesse no tópico."

Os cruzeiros embarcaram na proposta

"Durante muito tempo, as operadoras de cruzeiros ficaram para trás dos hotéis e das companhias aéreas em termos de sustentabilidade, mas ultimamente isso vem mudando. Diversas empresas estão investindo muito mais nessa questão", afirma Durband.

A Royal Caribbean, por exemplo, firmou uma parceria com a World Wildlife Fund para ajudar na conservação dos oceanos. E para começar, a companhia vai reduzir as emissões de carbono de seus navios através do uso de purificadores ("scrubbers"), máquinas que eliminam praticamente todo o dióxido de enxofre, extremamente danoso ao meio ambiente, do sistema exaustor.

Além disso, até o fim de 2020, a frota de 44 navios utilizará apenas frutos do mar de fazendas e viveiros com certificação, evitando as espécies vítimas da pesca predatória, como o peixe- espada, garante Rob Zeiger, porta-voz da Royal Caribbean. E a maioria das embarcações passará a ser construída para funcionar apenas com gás natural e gerar eletricidade através de células de combustível, que produzem um nível mínimo de poluição do ar.

Até as companhias menores estão aderindo à onda – como a Peregrine Adventures, que está introduzindo dez itinerários de neutralização de carbono em 2017 e a Uniworld Boutique River Cruise Collection, de turismo fluvial, que já está trabalhando com a iniciativa social ME to WE para oferecer aos passageiros oportunidades de voluntariado, incluindo uma no Rajastão, na Índia, para ajudar a construir uma nova sala de aula na escola do vilarejo local.

Incentivo das companhias aéreas: custo

"As empresas aéreas estão sofrendo uma pressão enorme para redução do consumo de combustíveis fósseis, uma porque causam danos ao meio ambiente, outra porque são caros – e quanto mais elas usam, mas caro sai", explica Martha Honey, diretora executiva do Centro pela Viagem Responsável, uma ONG de Washington que promove a viagem sustentável.

De acordo com o Grupo de Ação do Transporte Aéreo, uma ONG que representa o setor, o combustível foi responsável por um terço dos custos operacionais em 2015.

Em outubro passado, 191 países assinaram um acordo histórico na reunião da Organização da Aviação Civil Internacional, em Montreal, para ajudar o segmento a alcançar o crescimento neutro de carbono a partir de 2021.

Qantas, Lufthansa, American Airlines e JetBlue estão entre as empresas que estão investindo consideravelmente em um avião que consuma menos e, portanto, tenha um custo-benefício mais eficiente. A Lufthansa comprou 116 aviões Airbus novos, que chegam a gastar até quinze por cento a menos que os modelos semelhantes. "Cinco deles já estão em uso", informa a porta-voz Christina Semmel.

A JetBlue foi notícia em 2016 com a compra que fez de 1,2 bilhão de litros de biocombustível – feito de material orgânico, incluindo produtos agrícolas –, que reduz significativamente as emissões de CO2. Vai começar a usá-lo em 2019. "Nossa ideia é, a princípio, usar o combustível nos voos para os aeroportos da área metropolitana de Nova York e, com o tempo, em toda frota", revela a diretora de sustentabilidade da companhia, Sophia Mendelsohn.

Cresce o número de excursões ecologicamente corretas

"Está crescendo muito o número de operadoras comprometidas a organizar e vender viagens responsáveis em termos sociais e ambientais", afirma Martha Honey, diretora executiva do Centro pela Viagem Responsável.

"A Intrepid Travel, por exemplo, hoje oferece mais de mil excursões em grupo anuais totalmente livres de emissões; até o ano passado eram umas 900", diz o porta-voz Michael Sadowski. Para isso, a empresa usa transporte e acomodações locais, além de fazer doações a programas de neutralização de carbono. Em 2017, oferecerá mais 65 novos itinerários, incluindo uma viagem de quinze dias para os centros culturais de Mianmar.

As opções de luxo como Remote Lands, Butterfield & Robinson e Abercrombie & Kent também estão incorporando a sustentabilidade em itinerários selecionados: a Abercrombie & Kent tem um novo itinerário de onze dias na Islândia a partir deste ano que inclui acomodação em um hotel ecologicamente correto, um passeio na Usina Hellisheidi, uma das maiores produtoras geotermais do mundo, e uma visita a uma estufa geotermal sustentável.

Cresce o número de hotéis "verdes"

Em geral, as iniciativas ecológicas dos hotéis nunca foram muito significativas, limitando-se à reutilização de toalhas e lençóis e à instalação de chuveiros de baixa pressão, por exemplo. Porém, um número cada vez maior de cadeias está fazendo da sustentabilidade sua maior atração. "Em termos de hotéis, esse conceito já chegou a se associar somente aos ecoresorts ou estabelecimentos para safáris na África, onde a iniciativa de proteção selvagem funciona há anos, mas, hoje, sem dúvida já se tornou um elemento característico não só de propriedades urbanas descoladas como de resorts de praia estilosos", conta Albert Herrera, vice-presidente da Global Product Partnerships para a Virtuoso.

Segundo ele, mais de uma dezena de hotéis desse tipo deve ser inaugurada este ano, incluindo o 1 Hotel Brooklyn Bridge, em Brooklyn Heights, Nova York, em fevereiro, o terceiro da Barry Sternlicht, marca que dá destaque para a sustentabilidade. Com 194 quartos, terá plantas da região e materiais reciclados na decoração, incluindo nogueira do Jardim Botânico do Brooklyn, além de oferecer o serviço de carros elétricos da Tesla.

Nova também é a Reef by CuisinArt, propriedade situada no litoral de Anguilla e que funciona à base de geração de energia solar, que evita a emissão de 540 toneladas de CO2 por ano e produz água potável para os hóspedes e os moradores da ilha.

E vale mencionar o Bisate Lodge, que abrirá em junho, na África, por causa de sua localização: ao lado do Parque Nacional de Vulcões, em Ruanda, conhecido pelos gorilas. A empresa responsável pelo hotel, a Wilderness Safaris, está reflorestando mais de 26 hectares do habitat dos símios, seriamente ameaçados de extinção, além de contratar funcionários quase que exclusivamente da região e vender apenas itens de produção local em sua loja de presentes.

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