Viagem

Nove dias em silêncio? Saiba como é fazer viagem de retiro espiritual

Yannik D'Elboux

Colaboração para o UOL

Já teve vontade de jogar tudo para o alto? Durante períodos de grande estresse, afastar-se do cotidiano é uma boa forma de ver a realidade com mais clareza. Um bom caminho para recuperar a paz, nessas horas, pode ser viajar para um retiro espiritual.

Não é preciso ser experiente para participar desse tipo de atividade, já que a maioria dos centros de meditação e ioga com oferta de retiros, no Brasil e no exterior, costuma ter programas específicos para iniciantes. Porém, quem decide embarcar nessa viagem de autoconhecimento precisa acompanhar o ritmo do lugar, que muitas vezes é rigoroso.

No retiro de meditação “Vipassana”, técnica de origem indiana que significa “ver as coisas como realmente são”, a programação começa às 4h e vai até 21h30, com cerca de dez horas diárias de meditação. O curso, com duração de dez dias, é oferecido gratuitamente em 170 centros pelo mundo. No Brasil, as aulas acontecem em Santana de Parnaíba (SP) e em Miguel Pereira (RJ).

“Qualquer pessoa maior de idade pode se inscrever, desde que esteja determinada. É importante refletir bem se é capaz, para não desistir, porque há uma lista de espera”, orienta Ruby Yallouz, servidora no Dhamma Santi, centro de Miguel Pereira, que fez o curso pela primeira vez em 2011.

Durante nove dias deve-se praticar o silêncio absoluto, evitar o contato visual com outros participantes e também não ter nenhum outro tipo de distração, como celulares ou livros. A programação é a mesma no mundo inteiro, ministrada no idioma local e em inglês.

“A pessoa apenas dorme, come e medita. A beleza da técnica é que ao mesmo tempo é muito simples e muito complexa”, destaca Ruby. Ela conta que o curso foi fundamental na sua vida. “Eu estava muito doente naquela época, mas não queria enxergar. A técnica me deu coragem para olhar para a doença”, relembra.

Arquivo pessoal
Carol Moreno visitou cinco ashrams antes de escolher em qual se hospedaria Imagem: Arquivo pessoal

Nem tanta proibição
Nem todos os retiros são tão austeros quanto o “Vipassana”. Alguns permitem maior flexibilidade de horário e têm menos proibições. Mas mesmo podendo usar o celular, Thais Plessmann Xavier, 31, gerente de produto, brasileira que vive em Amsterdã, na Holanda, não olhou o aparelho por pelo menos três dias quando esteve no "Plum Village" ("Vila das Ameixeiras", em português), fundado pelo famoso mestre zen Thich Nhat Hanh, no sul da França. “O ambiente induz à reflexão, é simples, mas maravilhoso, com campos de girassóis em volta, funciona como um detox”, explica.

Apesar de não ser muito adepta da meditação e se considerar uma pessoa agitada, Thais apreciou bastante o tempo que passou no retiro. Um sino às 5h30 sinalizava aos participantes a hora de levantar para a primeira meditação do dia, em jejum. A programação diária incluía diferentes tipos de meditação, inclusive caminhadas pelo jardim com foco nos sons da natureza, conversas intermediadas por monges, entre outras práticas, com objetivo de trazer a mente para o momento presente.

“Foi uma experiência muito especial, consegui perceber o quanto minhas preocupações eram superficiais. Em um lugar como esse, você vê que tudo está na nossa cabeça”, diz Thais, que buscou o retiro para aliviar a pressão de um ano repleto de mudanças para ela.

Como as atividades não eram obrigatórias, Thais pulou uma das meditações para dar uma corrida. “Mas foi como meditar em movimento naqueles campos de girassóis”, acredita.

Índia para todos
A Índia é um dos destinos preferidos de quem pretende fazer uma viagem espiritual. Para quem busca essa experiência, a cidade de Rishikesh, conhecida como a capital mundial da ioga, é a escolha certa. E engana-se quem pensa que uma estadia em um ashram, como são chamados os centros de ioga e meditação, serve apenas para os iniciados. Existem opções para todos os perfis.

Em meio a uma volta ao mundo, a publicitária Carol Moreno, 36, editora do blog “Mochilão Trips”, de Curitiba (PR), decidiu passar dois meses na Índia e aproveitar para fazer um retiro em um ashram. “Visitei cinco locais em Rishikesh, tem muitas opções boas. Minha prioridade era encontrar um lugar calmo, com área externa e contato com a natureza, e que não fosse muito rígido com horários e atividades”, detalha. 

Arquivo pessoal
Ritual no Ganges, na Índia, durante a viagem de Maykol Richter Imagem: Arquivo pessoal

Carol resolveu ficar no Sadhana Mandir, que lhe permitia sair quando quisesse. A publicitária diz que não é preciso ser praticante regular de ioga, mas ter algum conhecimento ajuda. Para quem não tem ideia onde ficar, ela aconselha pesquisar bem pela internet e, se possível, visitar os ashrams antes de fechar qualquer pacote, para ter certeza de que o ambiente é o que você procura.

O professor de ioga e terapeuta holístico Maykol Richter, 30, de Blumenau (SC), optou por um retiro mais tradicional no Phool Chatti Ashram, em Rishikesh, para sua estada de sete dias em 2015. A partir das 5h30, havia uma programação com práticas de hatha ioga, karma ioga, exercícios respiratórios, passeios meditativos na natureza, estudos, mantras e sessões de meditação até 22h.

Como ficou um mês na Índia, Maykol teve tempo de conciliar turismo com seus interesses espirituais. “É possível dar umas voltinhas turísticas e, de preferência, depois buscar o autoconhecimento”, sugere, para que o caos das barulhentas cidades indianas não interfira nas vivências espirituais.

Silêncio e alimentação vegetariana
Aqueles que acham um martírio ficar sem falar devem prestar atenção nesse requisito antes de escolher um retiro. Muitos pedem silêncio em tempo integral e outros apenas nas horas das refeições. Apesar de gostar muito de conversar, Carol Moreno optou por um retiro silencioso na Índia. “O mais difícil era encontrar várias pessoas diferentes durantes as refeições e não poder descobrir mais sobre elas”, recorda.

Apesar da dificuldade, ela percebeu as vantagens de permanecer calada. “Aumenta sua percepção em vários outros sentidos: comecei a perceber melhor o sabor e a textura dos alimentos, a observar como as pessoas se movimentam e interagem, a reparar nas cores e odores das plantas. Pequenos detalhes que passam despercebidos quando você está matraqueando”, relata.

Maykol Richter explica que o silêncio muitas vezes vai além das palavras. “Em alguns retiros, há o que chamamos na ioga de “mauna”, que é mais do que silenciar a boca, mas silenciar a mente. Provavelmente será muito difícil, mas é uma excelente recomendação para equilibrar uma mente agitada”, explica o professor.

Nesses locais, a alimentação é sempre vegetariana ou vegana. Mesmo não seguindo a dieta adotada no Plum Village, Thais Xavier achou a comida saborosa e especial, por ser preparada de maneira bem saudável por alguns dos participantes. “Gosto de carne, mas me senti muito bem, leve”, relembra.  

Arquivo pessoal
Maria Beatriz, 26, é adepta de retiros espirituais dentro e fora do Brasil Imagem: Arquivo pessoal

Simplicidade e mente aberta
Quem for viajar para fazer um retiro pela primeira vez deve saber que a maioria dos locais tem instalações bastante simples, com dormitórios coletivos, mas separados para homens e mulheres, e alguns também requerem a colaboração dos inscritos.

“Todos os participantes tinham que prestar uma hora de karma ioga diariamente, ou seja, algum serviço desinteressado para ir acalmando nosso ego que fica inflado. Podia ser varrer algum salão ou cuidar da louça na cozinha”, conta Maria Beatriz Lamartine Figueiredo, 26, professora de hatha ioga e integrante de grupos de música devocional, moradora de Alto Paraíso (GO), sobre seu primeiro retiro.

Para Maykol, a dica mais simples e importante para quem nunca foi é tentar ir sem preconceitos e julgamentos. “Recomendo que não se tenha nada em mente, a presença e a entrega são fundamentais, sem isso não há coração nem alma, apenas um corpo”, ressalta.

Manter a mente aberta para as novas práticas e sensações, desconectar-se da vida cotidiana e viver plenamente o momento são os três passos essenciais para aproveitar ao máximo a experiência. Para Maria Beatriz, mais difícil do que se adaptar à rotina externa, como acordar cedo, é lidar com o seu interior. “Sempre podem surgir desafios. O difícil pra mim é sempre o que ocorre dentro de mim, como coisas negativas que crio desnecessariamente, meus demônios internos”, revela.

Além dos retiros que participa e organiza no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, Maria Beatriz frequentou nos últimos dois anos um de iyengar ioga, na França. Ela salienta que a programação intensiva e comum a todos faz com que se crie um agradável “sentimento de família” entre os participantes.

Para ela, essa experiência vai muito além de uma escapada do dia a dia. “Um retiro sempre nos transforma e nos faz refletir sobre como podemos ser pessoa melhores. Não é fugir da realidade, mas encará-la com ainda mais consciência”, afirma.

Os preços dos retiros são bastante variáveis, conforme as acomodações escolhidas. Nos ashrams indianos, como nos citados acima, os valores vão de 700 a 1.000 rúpias por dia (entre R$ 35 e R$ 50, em valores convertidos em 9/12/2016). No Plum Village, uma semana custa 380 euros (cerca de R$ 1.400, em valores convertidos em 9/12/2016). O Vipassana é gratuito, porém os alunos podem fazer doações para beneficiar as próximas turmas. Todas as refeições estão incluídas. 

SERVIÇO
Retiro gratuito de meditação: Vipassana - https://www.dhamma.org/pt

Centro de meditação na França: Plum Village - http://plumvillage.org/

Ashrams na Índia: 
Sadhana Mandir - http://sadhanamandir.org/
Phool Chatti - http://www.phoolchattiyoga.com/
 

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