Viagem

Conheça animais abandonados que foram adotados e hoje viajam o mundo

Yannik D'Elboux

Colaboração para o UOL

27/10/2016 19h42

O destino dos animais abandonados costuma ser triste. Sem lar e comida, muitos vagam doentes pelas ruas e ficam expostos a perigos como violência e até atropelamentos. Alguns conseguem escapar desse fim cruel graças à adoção e outros, com mais sorte ainda, cruzam o caminho de viajantes que decidem carregá-los mundo afora.

O cachorro vira-lata Ralph foi encontrado magro, sujo e com tinta rosa na cabeça, fruto de alguma brincadeira sádica, em um parque na cidade de San Luis Potosí, no México, pela professora norte-americana Kaori Tomaru, enquanto viajava com amigos. Depois de levá-lo ao veterinário, a ideia inicial era achar um novo dono para o cão, que acabou ficando aos cuidados de Kaori.

Como não havia avião adequado para transportá-lo, a professora resolveu voar até Nova York (EUA) e alugar um carro com seu pai para ir buscá-lo, em uma viagem que durou 17 horas. Na volta, eles resolveram ir parando ao longo do caminho entre o México e os Estados Unidos. “Esse foi o começo da carreira de viajante de Ralph. Para brincar, tiramos fotos dele fazendo turismo no Texas, Grand Canyon e outros lugares, que fizeram grande sucesso”, relembra.

Desde então, Kaori, que atualmente mora em Paris, já visitou 12 países na companhia de Ralph. Na página do Instagram de sua dona, ele pode ser visto em frente ao Coliseu e passeando de gôndola, na Itália, ao lado do Big Ben, em Londres, entre outros pontos da Europa, fazendo inveja a muitos turistas. 

Reprodução/Instagram/Kaori Tomaru
Ralph sempre tranquilo, passeando de gôndola em Veneza Imagem: Reprodução/Instagram/Kaori Tomaru

Viajar levando um cachorro nem sempre é tão complicado quanto pode parecer. Para Karina Ferreira, estudante de jornalismo, e Ismael Godoy, editor e produtor de vídeo, ambos com 24 anos, desbravar as estradas de bicicleta com as cadelas Estopa e Cachopa virou diversão. Eles mostram suas aventuras no canal "O Bonito do Caminho", no YouTube.

Desde que as cadelas foram adotadas, acompanham o casal em suas pedaladas. “Todo mundo dizia que era loucura viajar com elas, mas não deram trabalho nenhum no nosso estilo de viagem, aproveitaram muito e nós também”, conta Karina sobre o percurso de Florianópolis (SC) até a Ilha do Mel (PR), realizado em duas semanas, no início deste ano.

Com Estopa, a primeira a fazer parte da família, os dois também cruzaram a fronteira e foram de bicicleta até o Uruguai no ano passado, em uma viagem de 35 dias. Como acampam, não têm problema em encontrar hospedagem que aceite as cachorrinhas.

Na Europa e nos Estados Unidos, muitos trens e hotéis de rede, inclusive do estilo econômico, permitem animais de estimação. “É muito fácil passear com cachorro na Europa, mesmo gastando pouco. Existem algumas restrições, mas estou disposta a resolvê-las, pois desde que Ralph veio para Paris comigo ou viajo com ele ou simplesmente não vou”, diz Kaori Tomaru.

Arquivo Pessoal
As cestinhas de plástico na bike facilitaram a viagem para Estopa e Cachopa Imagem: Arquivo Pessoal

Boa companhia na estrada e no mar
O animal adotado ganha uma nova vida e o viajante um companheiro fiel. O músico Julio Cezar Paravisi, 22, de Aldeia Velha (RJ), não resistiu à meiguice da cachorra Lua, que vagava sem rumo em Juqueí, no litoral de São Paulo, e decidiu continuar sua viagem de bicicleta com ela. “Resolvi adotá-la pela companhia e pelo amor que sinto pelos animais. Eu a carrego em uma cesta e ela fica tão quietinha, tudo flui bem durante a viagem”, conta. 

Apesar do Brasil ainda não ter uma cultura "pet friendly" tão forte, em que animais de estimação sejam bem-vindos na maioria dos lugares, Julio diz que viajar com Lua não restringiu sua liberdade. “Passei por 150 cidades e fui muito bem recebido, a Lua só me abriu portas e me fez ter mais responsabilidade na estrada”, resume.

Ter uma companhia extra a bordo foi o que motivou o casal norte-americano Jessica e Matt Johnson, de 34 anos, a adotar a gatinha Georgie em 2012, três meses após iniciarem sua vida no mar. Eles deixaram seus empregos e venderam a casa para poder velejar e retratam seus dias em uma página na internet. Já passaram por 16 países e Georgie está mais do que acostumada à vida marítima. “Ela tinha apenas seis meses quando chegou, então foi muito fácil para ela se adaptar, já que não conhece outro jeito de viver”, diz Jessica.

O casal escolheu criar um gato pela facilidade que a espécie tem em sobreviver em pequenos espaços. No início, a velejadora conta que eles ficaram preocupados com Georgie circulando pelo deck, porque não tinham certeza se ela tinha consciência de que havia água em torno deles. 

Arquivo Pessoal
Georgie está mais do que acostumada à vida marítima Imagem: Arquivo Pessoal

“Não sabíamos se ela poderia nadar, mas precisávamos saber porque ouvimos que os gatos acabam caindo fora do barco uma hora ou outra”, explica Jessica. Para tirar a dúvida e arranjar uma maneira segura de lidar com esse problema, Matt pulou na água com Georgie para mostrar a ela como nadar até a rede, presa ao veleiro, caso isso acontecesse. “Descobrimos que Georgie é uma nadadora fantástica e deu a volta no barco mais rápido do que Matt”, relembra Jessica.

Ritmo diferente e mais cuidados
Explorar o mundo com animais de estimação às vezes requer cuidados especiais, papelada para entrar em um novo país e outro ritmo de viagem. Segundo Jessica, cruzar uma fronteira com um gato a bordo do barco é mais fácil do que pegar um avião.

Na maioria dos casos, um certificado atualizado das condições de saúde basta, porém alguns países também exigem exames de sangue específicos e formulários. Além disso, o casal não fica mais do que 48 horas em terra, longe do barco, para poder cuidar de Georgie - a não ser quando encontram alguém na marina que possa fazer isso durante a ausência deles. “Ela nos traz tanto amor e felicidade que o compromisso vale a pena”, ressalta.

Para quem viaja de bicicleta, a preocupação com o conforto do animal durante as longas horas de pedalada é constante. Depois de algumas experimentações com um carrinho traseiro, que quebrava muito, Karina e Ismael chegaram à conclusão que cestas de plástico na frente das bicicletas funcionavam melhor para transportar Estopa e Cachopa. 

Nas estradas do interior e à beira-mar, as cachorras muitas vezes também os acompanham correndo enquanto eles pedalam. “Vamos parando o tempo todo para borrifar água na cabeça delas para evitar insolação e hidratá-las”, explica Karina. As cadelinhas despertam a curiosidade de todos por onde passam e acabando sendo uma forma de aproximação com as pessoas. “É um pretexto para conversarem com a gente, todo mundo quer passar a mão nelas, é sempre divertido viajar assim”, diz.

Para Kaori Tomaru, apesar das prioridades serem diferentes quando se faz turismo com um cão, não existe melhor parceiro de viagem do que Ralph. Ao invés de correr para ver os pontos mais turísticos, ela costuma andar calmamente pelas cidades com ele, sobretudo ao amanhecer e ao anoitecer. “Estou disposta a acordar às 4h se isso significa ver um lindo nascer do sol e ele nunca reclama, é o perfeito companheiro de viagem”, diz.

Ela define Ralph como calmo, tranquilo e muito amável. “Eu acredito que ele gosta de tudo, principalmente ficar olhando o cenário no carro, trem e no barco. Se existir um cachorro que nasceu para viajar e conhecer pessoas é ele”, brinca. Por causa de um problema na válvula mitral no coração, Ralph precisou passar por uma cirurgia, que custou mais de 25 mil dólares, pagos com as economias da professora e 8 mil arrecadados por financiamento coletivo, graças à popularidade dele na internet. “Ralph está muito bem e em breve vai passar pelo seu último check-up para ser liberado para viajar e podermos ver o resto do mundo juntos”, revela, animada.

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