Viagem

Na Bolívia, turistas compram dinamite para visitar mina com altar diabólico

Christophe Meneboeuf /Creative Commons
A expectativa de vida dos mineiros do Cerro Rico é de 45 anos Imagem: Christophe Meneboeuf /Creative Commons

Marcel Vincenti

Do UOL, em São Paulo

29/09/2016 14h26

A Bolívia é um país conhecido por suas lindas paisagens montanhosas que quase tocam o céu, em terrenos que facilmente ultrapassam os 4.000 metros acima do nível do mar.  

Mas, na nação sul-americana, o turista também pode descer a uma espécie de sucursal do inferno na Terra. Trata-se da incursão ao Cerro Rico, montanha localizada na cidade de Potosi e que, principalmente no século 17, foi a principal fonte de prata do mundo.

Hoje, mesmo com o precioso elemento quase esgotado por causa da exploração da época da colonização espanhola, o Cerro Rico continua com atividade em suas entranhas. E viajantes podem entrar em seus claustrofóbicos labirintos para ver o trabalho dos mineiros que, turbinados por folhas de coca e uma bebida chamada Ceibo (grau alcoólico de 94%), passam dia e noite tentando encontrar minérios de valor dentro da montanha.

Christopher Meneboeuf/Creative Commons
Dinamites são vendidas livremente em mercado de Potosi Imagem: Christopher Meneboeuf/Creative Commons

Os tours são organizados por agências de viagem, hotéis e hostels de Potosi: antes do "passeio" começar, os turistas vestem macacões para proteger as roupas, botas de borracha e ganham um capacete equipado com uma lanterna.

E há um ritual a seguir: em uma das ruas que levam às bocas das minas, existe um mercado onde todos compram dinamite e folhas de coca para dar de presente aos mineiros. Fundamental no trabalho de extração dentro do Cerro Rico, o material explosivo é vendido livremente por cerca de R$ 10.

Ahron de Leeuww/Creative Commons
A figura diabólica conhecida como "El Tío" é venerada pelos mineiros bolivianos Imagem: Ahron de Leeuww/Creative Commons

Já a folha de coca (cujo saco custa também cerca de R$ 10), quando armazenada por longos períodos dentro da boca, é capaz de dar energia ao corpo e diminuir a fome. É um recurso usado pelos mineiros para encarar suas longas e cansativas jornadas de labuta: trabalhando em esquema de cooperativa, mas com grande autonomia, alguns deles chegam a passar mais de 20 horas na mina, até encontrar algum minério de valor que possa ser vendido depois.

Ver essa realidade de perto é chocante: muitas minas do Cerro Rico estão a mais de 4.500 metros acima do nível do mar e, além de rarefeito e extremamente úmido, o ar da montanha está impregnado de poeira de sílica, que, quando inalada por meses ou anos a fio, pode causar uma doença pulmonar mortal conhecida como silicose. Por causa disso, a expectativa média de vida dos trabalhadores locais é de cerca de 45 anos.

"El Tío"

Sempre acompanhados por uma guia, os turistas se sentem dentro de um formigueiro no Cerro Rico, cruzando corredores estreitos e passando por câmaras claustrofóbicas onde grupos de mineiros (incluindo jovens adolescentes) escavam a montanha. Estes operários do subterrâneo costumam receber amigavelmente os forasteiros (especialmente quando ganham as folhas de coca e a dinamite) e parecem ter consciência de que vivem em uma espécie de inferno.

Em diversos cantos do Cerro Rico, os viajantes se deparam com a figura assustadora do "Tío", uma estátua de feições diabólicas que é respeitadíssima pelos mineiros. Diariamente, eles colocam cigarros, Ceibo, folhas de coca e até fotos pornográficas aos pés do "Tío", acreditando que, com isso, estarão protegidos de acidentes dentro das minas. 

Christopher Meneboeuf/Creative Commons
Vista do Cerro Rico, "a montanha que devora homens" Imagem: Christopher Meneboeuf/Creative Commons

A estrutura de todo o local, porém, é precária e, a todo momento, os visitantes ouvem um "bum!" vindo de algum buraco da montanha: alguém acaba de explodir uma dinamite.

Todo este trabalho, porém, não traz muitos rendimentos: há hoje cerca de 13 mil mineiros labutando no Cerro Rico e poucos deles conseguem encontrar prata de alta qualidade. A maioria dos achados são chumbo, zinco e prata de baixa qualidade. Este material é vendido para refinarias de Potosi e os mineiros afirmam que conseguem fazer apenas cerca de 2.000 bolivianos por mês (cerca de R$ 930).

E há poucas oportunidades para trabalhar em outras áreas em Potosi, que foi um dos locais que gerou mais riqueza para a Espanha na época da colonização, mas que hoje é a capital do Estado (lá chamado de Departamento) mais pobre da Bolívia. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas boliviano, o mercado de extração de minérios é responsável por quase 40% do PIB potosino.

Albert Backer/Creative Commons
Os mineiros trabalham em condições precárias dentro do Cerro Rico Imagem: Albert Backer/Creative Commons

O tour é procurado por gente que quer conhecer uma das realidades mais cruéis da América do Sul, mas não o faça se você for claustrofóbico (e há sempre o risco de desabamentos, dada a estrutura precária do lugar).  

É bom não esquecer o nome histórico do Cerro Rico: "a montanha que devora homens".

SERVIÇO

Potosí fica a cerca de 540 km de La Paz e, apesar de ter o Cerro Rico como seu principal símbolo, oferece um lindo casario colonial em seu centro histórico.

Diversas agências de turismo no centro de Potosi oferecem o tour à mina. Uma das mais recomendadas é a Koala Tours: www.koalabolivia.com.bo/minaing.php   

Há também boas acomodações na cidade, como o Apart Hotel Turquesa (diárias por cerca de R$ 120) e o hostel Casa Blanca Potosi (diárias por cerca de R$ 50)*

*Preços sujeitos a alterações.

Marcel Vincenti/UOL
Conduzindo uma carriola, adolescente deixa o interior do Cerro Rico Imagem: Marcel Vincenti/UOL

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