Viagem

Nem tudo são flores, mas viajar o mundo é mais acessível do que você pensa

Divulgação/Projeto Viravolta
Depois de viajar pelo mundo, Carol Fernandes criou o projeto Viravolta Imagem: Divulgação/Projeto Viravolta

Felipe Floresti

Colaboração para o UOL, de São Paulo

Diariamente pipocam nas redes sociais histórias de gente que "largou tudo" para fazer viagens incríveis. Ficou com inveja e está sonhando em rodar o mundo? Há uma má e uma boa notícia: se por um lado nem tudo é fantástico como aparenta na internet, por outro, cair na estrada é mais possível do que você imagina e nem precisa "largar tudo" para isso.

O primeiro passo é entender o que te impede de colocar uma mochila nas costas e cair na estrada. Apesar de ser sempre apontado como a principal barreira, não é o dinheiro o maior vilão. “Temos uma cultura de viagem no Brasil que é muito influenciada por Europa e EUA, que são destinos caros”, afirma Carol Fernandes, do projeto Viravolta, que propaga a ideia de viagens de longo prazo como ferramenta para transformação pessoal. “Isso limita a visão de viagem que as pessoas têm, e faz com que pensem que é caro. Acham que tem que ser milionário para ficar um ano viajando”.

Graças às redes sociais, ficamos sabendo que aquele antigo colega da escola viajou por três meses pela Tailândia, desfrutando da vida perfeita no paraíso. Mas, entre fotos lindas e realidade existe uma grande diferença. Foi essa contradição que chocou tanta gente quando um casal de publicitários sul-africanos, Stevo Dirnberger e Chanel Cartell, autores de lindas fotos postadas periodicamente, contou em seu blog que lavavam banheiros e carregavam esterco para juntar dinheiro.

Divulgação/Projeto Viravolta
Carol Fernandes e seu namorado com a população da cidade de Sa Pa, no Vietnã Imagem: Divulgação/Projeto Viravolta

O relato repercutiu na imprensa do mundo todo, atraindo atenção sempre para as dificuldades, deixando para segundo plano o fato de afirmarem que o esforço valeu a pena. “Esse estilo de vida louco nos permite desfrutar da liberdade de explorar ricas florestas suecas, fiordes nórdicos, becos de paralelepípedos italianos e cidades cosmopolitas. Temos tempo para debater as nossas próprias ideias e tocar nossos próprios experimentos criativos. É como o céu para nós", afirmaram.

Para Carol, esse tipo de notícia gera tanta atração porque as pessoas estão sempre arrumando desculpas para o que querem fazer e não conseguem. Não percebem que os impedimentos vêm de paradigmas criados pela sociedade. É a cultura do medo.

Quanto o dinheiro importa?
Apesar não ser uma barreira, os recursos financeiros vão definir seu estilo de viagem. Entre o sujeito que dá a volta ao mundo a bordo de seu iate e os malucos de estrada, como são chamados aqueles que viajam o mundo vendendo artesanato em troca do suficiente para se manter (retratados no documentário “Malucos de Estrada II - Cultura de BR"), existe um leque gigantesco de possibilidades. Cabe a cada um encontrar o estilo que melhor se encaixa.

Quanto menos dinheiro, mais longe do iate e perto dos malucos. E isso não significa uma viagem pior. De acordo com a experiência da Carol, é o contrário. Antes de partir para uma viagem de dois anos com seu companheiro, o francês Alexis Radoux, ela costumava ficar nos melhores hóteis durante viagens a trabalho. “Eu era daquelas que pagava a mais para ficar em um hostel design”, conta.

As coisas só mudaram quando Carol deixou seu emprego para começar a viajar. “Eu chorava muito nos primeiros dois meses de viagem, por coisas que não eram relevantes. Baseada em tudo aquilo que eu tinha aprendido, acostumada com o conforto”.

Divulgação/Malucos de Estrada Cultura de BR
"Malucos de estrada" viajam o mundo vendendo artesanato para se manter Imagem: Divulgação/Malucos de Estrada Cultura de BR

“Depois de três meses eu comecei a ver tanto valor em viajar barato, que aquelas preocupações começaram a ficar supérfluas. Eu comecei a ter tanta aventura a mais viajando fora da minha bolha que aquele design foi lá para baixo na minha cadeia de valores”, revela.

“Após entrevistar tantos viajantes de longo prazo, para mim é claro que quanto mais barato a pessoa viaja, mais se transforma como ser humano”, conta Carol. Foi essa transformação que buscou Eduardo Marinho quando deixou o exército para rodar o Brasil. “Queria experimentar como é não ter nada. Eu olho para a maioria e ninguém tem nada, e vive tranquila. Enquanto nas classes mais abastadas está todo mundo apavorado com ficar pobre. Todo mundo com medo de não ter privilégio”, analisa Eduardo.

Foi quando ele precisou da ajuda de estranhos, mesmo aqueles sem recursos financeiros, que descobriu a beleza de viajar. Na estrada aprendeu a fazer arte com os materiais que encontrava e tornou-se artista plástico. Mas dificilmente Eduardo para muito tempo no mesmo lugar. “Diversão não é o objetivo de viajar. O que busco é um sentido para a vida, uma razão para existir, uma função nisso tudo. O sentimento de integração e caminhada permanente”, conta.

Como conseguir?
É bom reafirmar que a mudança de paradigma é um processo que não acontece da noite para o dia. “É difícil viajar barato. Às vezes você vai chorar. Vai sentir falta da zoa de conforto. Essa é a realidade. Se nunca fez daquela forma, tem que reaprender”, acredita Carol. Mas se esse for o desejo, o aprendizado só vem depois de começar.

Fazer um planejamento prévio, para poder se jogar na ideia de viajar pelo mundo, é essencial. É preciso analisar as condições financeiras, o estilo de viagem desejada, considerando suas limitações, e pesquisar lugares com características que se encaixem nesse perfil. Siga isso pelo menos para começar, depois vale deixar o caminho tomar seu destino próprio.

Divulgação/Malucos de Estrada Cultura de BR
Quem se aventura na estrada se vira para conseguir o mínimo para seguir viajando Imagem: Divulgação/Malucos de Estrada Cultura de BR

Se o problema é dinheiro, a solução é trabalhar. Principalmente durante a alta temporada em lugares turísticos, sempre dá para arrumar uma forma de ganhar algum dinheiro fora de casa. Seja com música, malabares, artesanato, oferecendo algum serviço, ou com um emprego, principalmente em pousadas, bares e restaurantes. Aí que entram os banheiros lavados.

Exemplos não faltam. Os argentinos Almendra Lombardi e Lucas Ramos não sabiam fazer malabares tampouco eram músicos. Pesquisaram na internet um modelo de sandália com tiras de pano e passaram a produzir estes calçados. Percorreram, assim, boa parte da América Latina. No Panamá, trocaram trabalho por hospedagem e comida. Hoje, dois anos e meio depois de terem deixado La Plata, ela trabalha como massagista na Costa Rica, enquanto ele é funcionário de um hostel.

Na internet existem ferramentas para facilitar os primeiros passos. “Só é fundamental mudar o olhar preconceituoso, senão nunca vai se propor a tentar e experimentar”, diz Carol.

Almendra está feliz com a experiência. “A melhor parte é aprender a viver de outra maneira, sem tantos medos e estruturas. Creio que viver assim me fez mais valente e tranquila”. Mas nem tudo é perfeito. “A pior parte é não poder dividir com sua gente as experiências”. Se por um lado alguém dificilmente viaja sozinho, já que no caminho encontra sempre algum companheiro que está seguindo o mesmo rumo que o seu, as amizades normalmente são efêmeras.

Cortesia/Almendra Lombardi
Foi produzindo e vendendo sandálias que Almendra percorreu a América Latina Imagem: Cortesia/Almendra Lombardi

Mercado de trabalho
Se você entendeu que não é fácil, mas mantém o desejo de fazer as malas, uma boa notícia: uma viagem longa pode ser benéfica para a sua carreira profissional. Apesar da recorrente preocupação sobre a requalificação profissional, Carol Fernandes garante que, das pessoas que conheceu e que foram viajar, todos que quiseram conseguiram voltar melhor para sua área de trabalho. “Tem muita empresa que valoriza, pois viajar desenvolve competências não só pessoais, como profissionais. Viajar traz autoconfiança, que é fundamental para o mercado profissional”, opina.

Larissa Meiglin, supervisora da assessoria de carreiras da Catho, classificados online de empregos, concorda. Apesar das empresas enxergarem um candidato que fica mais de seis meses fora do mercado como desatualizado, ele precisa saber converter a experiência a seu favor. Tudo depende da forma como a pessoa aproveita esse período. “Ele acaba perdendo um pouquinho de pontos. Mas se mostrar que está utilizando a experiência para desenvolvimento próprio, conhecendo outras culturas, a prender um idioma, agrega valor ao currículo”, revela.

Fazer uma viagem longa não se trata de largar tudo, mas de se abrir para o “resto”, como conta Eduardo Marinho: “eu apenas me livrei das correntes que me impediam de caminhar. Não é largar tudo, mas só o que pesa e te incomoda. O que importa você leva junto”. Nesse processo, o único risco é não querer mais voltar para a vida que se levava antes. Nem adianta planejar o que fazer no retorno, porque mente e corpo já serão diferentes. 

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