Viagem

Cercados por muro israelense, palestinos lutam para ter um zoológico

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL, dos Territórios Palestinos

11/03/2016 07h00

"Isto aqui é uma enorme prisão", diz o veterinário Sami Khader, cuja missão de vida é cuidar do jardim zoológico da cidade palestina de Qalqilia, na Cisjordânia.

A frase do médico, porém, não se refere ao espaço que exibe dezenas de animais atrás de jaulas e cercados e que, há 17 anos, está sob sua responsabilidade.

Khader fala sobre o lugar onde ele próprio mora.

Com aproximadamente 50 mil habitantes, Qalqilia está "abraçada" pela barreira que separa Israel da Cisjordânia, uma obra que começou a ser construída em 2002 e que tem como um de seus objetivos impedir a entrada de terroristas palestinos em território israelense.

Sua estrutura de concreto e de grade eletrificada, em alguns trechos com oito metros de altura, ziguezagueia sobre terras palestinas e dá uma volta em Qalqilia, deixando a cidade quase que completamente encerrada pelo muro (veja o mapa abaixo).

Arquivo pessoal
Sami Khader se desdobrou para alimentar os animais do zoológico na 2ª Intifada Imagem: Arquivo pessoal

Nesse cenário, o zoológico de Khader virou um oásis em uma região onde não falta tensão. “Este é o único zoológico da Cisjordânia e um dos poucos espaços de lazer da Palestina”, diz ele. “É um lugar onde pais podem se divertir com seus filhos e esquecer um pouco dos problemas do dia a dia”.

Sob fogo cruzado

As manobras que o veterinário teve que fazer para manter esse espaço ativo, porém, são dignas de um filme.

Em 2002, no auge do levante palestino conhecido como Segunda Intifada, o Exército israelense sitiou e invadiu Qalqilia, cidade de onde teriam partido homens-bomba e atiradores que atacaram Israel naquele período.

Arte/UOL
A linha azul é a barreira que separa Israel da Cisjordânia e cerca a cidade de Qalqilia Imagem: Arte/UOL

"Toques de recolher de vários dias eram impostos sobre os habitantes de Qalqilia, e eu não podia sair de casa para alimentar os animais", relembra Khader. "Eu tinha que entrar secretamente nas ambulâncias da cidade [um dos poucos tipos de veículo que podiam circular pelas ruas], que me levavam até o zoológico. Graças a essa estratégia, consegui manter os bichos vivos".

Mas nem todos sobreviveram. Uma noite, um comboio militar israelense passou perto do zoológico e foi recebido a pedradas por moradores da área. Os soldados revidaram com tiros de fuzil e bombas de efeito moral. Os estrondos fizeram com que muitos dos animais cuidados por Sami Khader entrassem em pânico.

Uma girafa macho começou a correr dentro de seu cercado, bateu a cabeça em uma grade de ferro e morreu pouco tempo depois. Segundo Khader, sua companheira, uma girafa que estava grávida, abortou por causa do estresse.

Na mesma época, três zebras morreram sufocadas por gás lacrimogêneo.

Galinhas na jaula

Com as mortes, Khader, que é também taxidermista, começou a montar seu "museu educacional". "Eu resolvi empalhar os animais que haviam morrido, para que nossos visitantes pudessem continuar aprendendo sobre a fauna do mundo", conta ele. A girafa e as zebras mortas ainda estão em exposição no local, muito visitado por escolas palestinas.

A solução encontrada para as jaulas que haviam subitamente ficado vazias foi também criativa (e um tanto tragicômica).

No espaço previamente ocupado pelas zebras, Khader colocou galinhas, que tinham como vizinho um dromedário. "Para nós sempre foi um desafio conseguir novos animais. Eu não podia deixar um espaço vazio em nosso zoológico. Precisava haver algo se mexendo lá dentro para entreter os visitantes".

Creative Commons
Visão do muro que separa Qalqilia (à direita da barreira) de Israel (à esquerda) Imagem: Creative Commons

Apesar de afetado pelos ataques e contra-ataques dos Exército israelense, o zoológico de Qalqilia deve sua existência à colaboração de gente que vive do outro lado do muro, em Israel.

A grande maioria de seus 160 animais (como três leões) foram doados por zoológicos israelenses, como o Centro Ramat Gan. E veterinários israelenses frequentemente assessoram o doutor Khader em seu trabalho. “O zoológico também mostra que pode haver colaboração entre os dois lados”, diz o médico. 

Outras espécies, porém, chegaram a Qalqilia após tortuosas aventuras. Um casal de babuínos que ainda vive por lá foi resgatado por Khader de um parque abandonado na cidade palestina de Nablus em 2004, quando a Segunda Intifada ainda pegava fogo.

Na ocasião, Khader conseguiu um atestado médico falso, que dizia que ele estava doente, e entrou novamente em uma ambulância, que o levou até Nablus e o fez passar facilmente pelas guaritas israelenses que, naquele momento, controlavam (e quase sempre impediam) o trânsito dos palestinos nas rodovias da região.

Na volta a Qalqilia, ele colocou os macacos em um caminhão e foi barrado em dois postos de controle antes de conseguir retornar à sua cidade.

Famílias e mártires

Os babuínos, por sua vez, são hoje uma das grandes atrações do zoológico. Crianças os alimentam e famílias inteiras tiram fotos na frente de suas grades. Ao redor, é possível ver um hipopótamo, uma gaiola com aves de rapina, antílopes, zebras e um cercado com pôneis.

Marcel Vincenti/UOL
O zoológico é uma das poucas áreas de lazer da cidade palestina de Qalqilia Imagem: Marcel Vincenti/UOL

O espaço também abriga um playground, um museu de história natural, um parque de diversões com uma roda-gigante e uma quadra para eventos culturais, devidamente pintada com imagens de Yasser Arafat. Segundo Sami Khader, uma empresa holandesa deve em breve remodelar e aumentar as áreas dos animais e do público, tudo bancado pela prefeitura de Qalqilia. "Queremos trazer mais palestinos e turistas aqui. Depois de tudo o que passamos, precisamos manter esse lugar vivo". 

O palestino Yhya Heshayka, de 25 anos, se reúne frequentemente no zoológico com seus amigos para bater papo e fumar narguilé. “É um dos lugares mais arborizados e tranquilos de Qalqilia”, diz ele. “Gosto de vir aqui e ver as pessoas se divertindo”.

Assim como muitos habitantes da cidade, Yhya não tem um emprego fixo. Segundo o Escritório Central de Estatísticas da Palestina, Qalqilia está entre os lugares com os maiores níveis de desemprego na Cisjordânia, com quase um quarto de sua população economicamente ativa sem trabalho.

Nas ruas locais, cafés, tendas de frutas e lanchonetes vendendo falafel se misturam, aqui e ali, com fotos de nativos que morreram na Segunda Intifada e que, hoje, são tratados como mártires.

Marcel Vincenti/UOL
O zoológico da Qalqilia tem hoje cerca de 160 animais, como aves de rapina e leões Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Após sofrer durante a Segunda Intifada, que terminou em 2005, Qalqilia elegeu como prefeito, em 2006, um membro do Hamas, organização que prega o fim do Estado de Israel.

Atualmente, mesmo com mais facilidade para se locomover pela Cisjordânia (diversos jovens locais estudam na universidade de Nablus), muitos habitantes de Qalqilia querem simplesmente ir embora para o exterior.

Yhya Heshayka é um deles. “Tenho o sonho de ir para o Canadá, onde acho que minha vida vai ser melhor. Mas nenhum país do mundo quer receber palestinos. Somos prisioneiros aqui”, diz ele, juntando os dois punhos, como se estivessem presos em algemas.

SERVIÇO

Qalqilia está a cerca de 80 km de Jerusalém, mas, para chegar até lá da Cidade Santa, o turista deve trocar de ônibus na cidades de Ramallah e Nablus. A viagem inteira dura cerca de cinco horas.

O zoológico fica aberto diariamente das 8h às 19h. Milhares de pessoas visitam o local anualmente, mas ainda é raro ver estrangeiros por lá. 

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