Roteiro gastronômico é porta de entrada para conhecer a Cidade do Cabo

Todd Pitock

New York Times Syndicate

Bebe Rose, a camaronesa dona do restaurante Bebe's, na Cidade do Cabo, ficou parada, de braços cruzados, olhando com uma sobrancelha levantada para os restos que eu tinha deixado no prato. "Qual o problema?" ela pergunta. "Não gostou da minha comida?"

Claro que gostei. Tinha cozido de feijão mulatinho e quiabo, muitas carnes… é verdade que a tripa forçou um pouco a barra: numa poça de molho grosso de nozes raladas e óleo vermelho jazia um dos quatro compartimentos do estômago de uma vaca - o rúmen ou o omaso, mas talvez também fosse o abomaso.

Não dava para saber. Só sei que segurei com o garfo de encontro ao prato e serrei com a faca. O sabor forte de carne era bem rico, embora meio borrachento, como se não soubesse se queria ser ingerido ou não.

Na verdade, o problema era que aquela era a última parada de uma orgia gastronômica de quatro horas pelo centro da cidade e o meu compartimento único, coitado, estava mais que lotado.

Para a glutonaria, porém, havia um jeito. Eu tinha descoberto um novo jeito de explorar a Cidade do Cabo, que já tinha visitado várias vezes ao longo de vinte anos: uma agência de turismo local, chamada Coffeebeans Routes, estava oferecendo passeios para conhecer a cidade e suas subculturas através da Rota Gastronômica. Ao contrário de muitas outras excursões culinárias, porém, o objetivo não era encontrar os restaurantes mais finos (isso é o que não falta), mas usar a comida como porta de entrada para a vida íntima da cidade, visitando cozinhas de casas comuns, cafés pequenos e feiras que ninguém visitaria.

A Cidade do Cabo, espremida entre a Montanha da Mesa e o oceano Atlântico, no extremo sul da África, tem paisagens maravilhosas. Desde sua fundação, em 1652, pela Companhia Holandesa das Índias Orientais, que criou um assentamento como escala para os navios que traziam especiarias da Ásia, o centro sempre foi um caldeirão multicultural onde conviviam os khoisan nativos, os africanos do norte, os europeus, escravos e servos do sudeste Asiático, e ficou conhecido como Cape Malay.

Mais ou menos nos últimos dez anos, a eles se juntaram grupos do resto do continente – Maláui e Mali, Congo, Etiópia e Zimbábue – em busca de proteção e oportunidades e, assim, muitas vezes tiveram que enfrentar antagonismo e desprezo. Apesar de tudo, eles se estabeleceram, montaram comércio, mudaram a cara de muitas ruas e trouxeram receitas de casa.

O itinerário da Coffeebeans conta a história, bocada por bocada, diz o meu guia, Michael Letlala, de 28 anos, que é natural de Eastern Cape.
Nossa primeira parada é o Escape Caffe, que tem uma história extraordinária: é dirigido por nada menos que Muhammed Lameen Abdul-Malik, que nasceu na Nigéria e abriu o café depois de ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 2005, quando era diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica.

A clientela e os baristas parecem a versão sul-africana do café que frequento, na Filadélfia: são moradores e expatriados, frequentadores assíduos e gente nova, o mesmo tipo de gente que há ao redor do mundo e que conhece piccolos, macchiatos e lattes, acomodados na longa mesa comunal no meio do estabelecimento.

  • Piete­r Bauer­meist­er/The New York ­Times­

    No bairro Bo-Ka­ap, na área de Cape Malay, as fachadas das casas são todas coloridas

Embora a cidade já valorizasse o café antes da chegada do Escape, poucos locais ofereciam uma bebida decente. Abdul-Malik resolveu remediar isso. Seu café é ótimo e conquistou uma clientela disposta a pagar um preço salgado por ele. "Os grãos são da África", explicou Letlala enquanto bebericava seu cortado num copo transparente. "Além do mais, o café 'limpa' o paladar. O que é bom porque vamos comer à beça." Como tinha só beliscado antes de começar o passeio, achei que ia dar conta.

Subimos a rua de pedra até Bo-Kaap, a área de Cape Malay com suas casas coloridas feito pintura em perspectiva; lá em cima, na Signal Hill, paramos numa loja de especiarias. O Bo-Kaap, como grande parte da região, está em transição; depois de séculos sendo praticamente só muçulmano (em parte por causa das leis de segregação do apartheid), a popularização e crescimento da demanda, as mudanças nos impostos e taxas estão mudando o bairro, transformando-o num tipo de SoHo.

Naima Fakier, com 38 anos e quatro filhos, conversou conosco entre os corredores aromáticos de folhas, bulbos, raízes e sementes trazidas da Índia, com que a comunidade ainda possui fortes laços. "A diferença entre a Índia e Cape Malay é o ardor: aqui tudo é mais suave", explica ela enquanto cruzávamos a rua para entrar na cozinha dela e provar nossa refeição número 1 - que começou com daltjie (pedaços de pimenta), muito parecidos com falafel, mas feitos com pó de ervilha, espinafre e coentro fresco.

A seguir, roti, frango à Cape Malay e bobotie (o curry local), com cebola, tomate, alho, pasta de gergelim, cardamomo e canela em pau.
Para fechar, koesisters de sobremesa. A versão africâner desse doce é dura, trançada e cozida para que o xarope a deixe grudenta; já a de Cape Malay era uma massa molinha frita mergulhada numa calda feita com casca de tangerina, noz-moscada e gengibre e coberta com coco ralado.

A versão Cape Malay do pudim malva, receita clássica sul-africana, é feita com leite evaporado em vez de conhaque, já que os muçulmanos não consomem álcool. Nós comemos, batemos papo... e saindo do Bo-Kaap, senti que tinha comido até ficar torto; parecia um boxeador que tinha batido demais logo no primeiro assalto.

Achei que a caminhada pelo centro voltaria a abrir meu apetite até fazermos a segunda parada no Little Ethiopia Restaurant, na Shortmarket Street, comandado por Yeshi Mekonnen. Com a chegada de milhares de etíopes, inúmeros restaurantes se especializaram na cozinha da terra natal, mas esse parece ser o favorito entre os apreciadores dessa gastronomia.

  • Piete­r Bauer­meist­er/The New York ­Times­

    Little Ethiopia Restaurant, na Shortmarket Street. Com a chegada de milhares de etíopes, inúmeros restaurantes se especializaram na cozinha da terra natal

Um prato chegou coberto com injera, o pão tradicional que os africanos do leste usam para pegar e acompanhar a comida. Experimentamos também o tibs, ou bife com cebola, alecrim e pimenta fresca. Veio também lentilha com berbere, uma mistura de gengibre, cardamomo preto, cravo e outras especiarias.

Considerando-se que ainda era muito cedo, só havia uma outra mesa ocupada por um trio de mulheres incrivelmente altas e esbeltas - uma canadense e duas nigerianas que faziam uma sessão de fotos. O sabor era da Etiópia na África do Sul e, no entanto, como no Escape Caffe, a cena não parecia muito diferente daquela vista em Washington ou San Francisco.

Apesar disso, os etíopes e outros imigrantes africanos são considerados estrangeiros na Cidade do Cabo tanto quanto na América do Norte. A diferença é que ela se tornou mais diversa etnicamente e mais internacionalmente homogênea ao mesmo tempo.

Talvez fosse melhor, ou até mesmo saudável, ter parado de comer ali - e pedido um carrinho de mão para me levar embora. Fiquei imaginando se a Coffeebeans não devia organizar as coisas de outro modo – um prato em cada lugar, sei lá, até completar uma refeição ao longo do dia.

Vou fazer essa sugestão da próxima vez. Nessa viagem, ainda temos mais uma parada. E Bebe Rose estava esperando.

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