Viagem

Ondas e vida selvagem atraem turistas para o vilarejo de Nosara, na Costa Rica

Bonnie Tsui

New York Times Syndicate

27/01/2013 08h01

Não é todo dia que se pode sair da água depois de passar a tarde surfando e cair direto na floresta, onde gritam os bugios, que pulam de galho em galho nos ipês ao som da sinfonia das cigarras, enquanto dois quatis de focinho branco passeiam pela estrada de terra, afugentando os lagartos do caminho. A imagem era tão encantadora que quase me esqueci de espantar os mosquitos que estavam prestes a atacar minhas pernas.

Assim é Nosara, um pequeno vilarejo na península da Nicoya, na costa noroeste do Pacífico, na Costa Rica. O isolamento da aldeia sempre manteve as multidões afastadas, mas os surfistas experientes – como a lenda das grandes ondas Richard Schmidt – têm vindo para cá há muitos anos. Agora, surfistas aspirantes, distantes do circuito mundial, têm vindo até aqui para estudar no punhado de escolas de surf que foram abertas nos arredores da cidade e aproveitar para conhecer as belezas da floresta selvagem, as pousadas e a cultura da ioga.

A grande atração é a Playa Guiones, uma praia com seis quilômetros de areias brancas e boas ondas durante a maior parte do ano, onde a topografia gradual impede que as ondas fiquem grandes demais. O resultado é um dos lugares mais confiáveis para se surfar no mundo, com ondas que vão de poucos centímetros a mais de três metros de altura, fáceis quando arrebentam perto da praia e ideais para iniciantes.

Guiones fica ao sul de uma reserva de animais selvagens de 16 quilômetros de extensão, que inclui a Playa Nosara e Playa Ostional, uma praia de areia negra famosa pelas "arribadas" mensais, quando milhares de tartarugas-olivas vêm à praia para botar ovos. Na zona de conservação, é proibido construir a menos de 200 metros da linha da maré. Por essa razão, há uma óbvia e deliciosa ausência de bares de beira de praia e grandes redes de hotéis; ao invés disso, o pano de fundo é uma floresta que se estende até onde a vista alcança.

Durante uma viagem de surfe que fiz no final de março, os moradores me contaram que a única coisa feia de Nosara é a estrada que leva até lá. A maioria dos turistas vai de avião até a capital San José (a cinco horas de carro) e todos precisam enfrentar os últimos 25 quilômetros de estradas de terra entre Samara e Nosara. Na verdade, o caminho esburacado – frequentemente obstruído por vacas e boiadeiros em lombo de cavalos – ajuda a manter o paraíso intacto por mais algum tempo.

Meu taxista, Eduardo Araya, conversou comigo em espanhol durante toda a viagem de Liberia (nesse trajeto de duas horas e meia tivemos tempo de nos conhecermos muito bem). Morador de Nosara, Araya me contou que o número de turistas ainda não é suficiente para que a estrada seja asfaltada, mas, segundo ele, não vai demorar muito para que isso aconteça. Uma nova ponte ligando a península de Nicoya ao restante da Costa Rica e um novo aeroporto em Liberia já melhoraram o acesso à região.

Os visitantes podem brincar com os macacos-prego resgatados pelo Sibu Monkey Sanctuary, visitar um refúgio para prática de ioga, ou conhecer a Reserva Biologica Nosara com florestas que chegam até a praia e mangues perfeitos para a observação de pássaros (e das incríveis jiboias). Mas a verdade é que o surfe é a principal atração do lugar, com suas ótimas ondas e clima perfeito entre novembro e agosto.

O local atrai pessoas como Ru Hill, um inglês de Bristol que se descreve como "nerd do surfe" e gerente do Surf Simply, uma pousada que traz a filosofia técnica e esportiva do surfe para seus acampamentos de surfe com uma semana de duração.

  • Laura Flore­nce Upton

    A Playa Ostional, de areia negra, é famosa pelas "arribadas" mensais, quando milhares de tartarugas-olivas vêm à praia para botar ovos

"Peguei um mapa e risquei todos os lugares frios, ou em guerra, e acabei vindo parar aqui", afirmou Hill, de 34 anos. Ele veio a Nosara pela primeira vez em 2007, em busca do lugar perfeito para seu projeto de surfe, e notou que o grande trecho de águas quentes e verdes, com ondas incessantes e areia branca em Guiones seria o lugar ideal para que surfistas de diferentes níveis pegassem ondas lado a lado.

Havia poucas escolas de surfe na época – incluindo a primeira, aberta por Corky Carroll em meados nos anos 1990 –, mas a cena evoluiu nos últimos cinco anos e mais escolas foram abertas para dar conta do crescente número de visitantes. Além disso, os habitantes locais estão abrindo seus próprios negócios relacionados ao surfe; alguns anos atrás, Hill ofereceu treinamento para dois surfistas de Nosara, Esteban Lopez Paniagua e Luis Montiel, para ajudá-los a abrir a Nosara Tico Surf School (os costarriquenhos referem-se a si mesmos como "ticos").

A abordagem de Hill lhe garantiu muitos fãs: seu objetivo é fazer com que as pessoas entendam todos os aspectos do surfe, da previsão de marés ao design das pranchas, afastando o que ele chama de "vodu místico" do esporte.

Durante uma semana em Nosara, surfando com Hill e sua equipe, também virei um nerd do surfe, depois de descobrir os pontos mais precisos de uma saída angulosa, de aprender a usar melhor os rails da minha prancha, de assistir a aulas teóricas sobre meteorologia e sobre como julgar um campeonato de surfe. Graças às duas sessões diárias de surfe, seguidas de um feedback em vídeo, pude me ver surfando até o fim uma onda duas vezes maior do que eu e analisar o que fiz direito, para que aquilo fosse possível. (Também vi em dolorosa câmera lenta os espetaculares caldos que tomei enquanto tentava pegar uma onda.)

Conheci Leslie Clyde, uma executiva de marketing de 38 anos natural do Brooklyn, que foi a Nosara pelo oitavo ano consecutivo. Essa era a segunda vez que ficava no Surf Simply. "Nosara tem uma vibe positiva e relaxante. Eu também adoro a comunidade de ioga", contou. "Mas o que me traz para cá é o surfe."

É importante que os visitantes saibam que Nosara não é o melhor lugar para conhecer a cultura de Costa Rica; ainda que existam muitas atrações nas redondezas, há tantos americanos vivendo e trabalhando na pequena comunidade, que às ruas ao redor de Guiones dão a impressão de que o inglês é a língua do local.

Andrew Jaspersohn veio para Costa Rica com a esposa, Lindsay Antolino, de Canaan, New Hampshire. Os dois passaram alguns dias em San Jose, e encararam a viagem de cinco horas para Nosara. "Vim até aqui porque queria aprender a surfar direito e o lugar perfeito para isso é Nosara", afirmou Jaspersohn, que é professor. "Mas San Jose foi muito mais cultural – as lojas e os mercados da cidade são incríveis, nós provamos várias comidas tradicionais e Lindsay pôde praticar o espanhol. Nosara é diferente. É uma cidade de estrangeiros, onde se pode caminhar pela rua principal, comprar um biquíni, uma pranche de surfe e um taco de peixe em oito minutos. Não é ruim – mas é diferente."

  • Surf Simpl­y

    Playa Guiones tem seis quilômetros de areias brancas e boas ondas durante a maior parte do ano, onde a topografia gradual impede que as ondas fiquem grandes demais

Na verdade, a cidade de Nosara fica a seis quilômetros da praia e a maioria dos habitantes são ticos. Araya, o taxista, me contou que é muito difícil um turista ir até o vilarejo para passear.

Mas existem alguns lugares que atraem tanto turistas quando os habitantes locais, e esses lugares quase sempre ficam dentro da água. Um deles, segundo Araya, é La Boca – a foz para onde os rios Nosara e Montana convergem em meio à floresta, desaguando na Playa Nosara. Esse é um dos locais de maior beleza natural da região, frequentado por pescadores e grandes garças azuis e brancas, culminando na Reserva Biologica Nosara.

Certa vez, fomos durante o entardecer ao Lagarta Lodge, localizado no alto de um desfiladeiro com vista para La Boca, em busca de mojitos e de algo para comer. O ar tinha a mesma temperatura agradável da minha pele e os raios de sol do fim da tarde iluminavam tudo, do claro céu azul acima de nós aos brilhantes hibiscos rosados e o verdejante dossel de folhas, abaixo. Apenas três surfistas estavam na água, com quilômetros de ondas cristalinas atrás de si. Aquela estrada de terra pode até esconder Nosara, mas não por muito tempo.

Se você for

Nosara fica a duas horas e meia de carro do Aeroporto Internacional de Liberia, aberto no último outono. A estação das chuvas é breve, entre setembro e outubro, mas as ondas e o sol são abundantes mesmo durante esse período.

A Surf Simply (Playa Guiones, Nosara; 646-233-3139; surfsimply.com) oferece viagens de surfe de uma semana a partir de 2.570 dólares, incluindo a hospedagem, as refeições, as aulas de surfe e ioga e as transferências do aeroporto. Os acampamentos de surfe ocorrem entre novembro e agosto, mas as vagas acabam rápido.

A Nosara Tico Surf School (Playa Guiones, Nosara; 506-2682-4076; nosara-surf-school.com) oferece aulas de surfe de 90 minutos por 45 dólares.

O Hotel Lagarta Lodge (Reserva Biologica Nosara; 506-2682-0035; lagarta.com) oferece quartos duplos com ar condicionado entre 85 e 130 dólares por noite, dependendo da época do ano. Aproveite os coquetéis ao por do sol no bar com vista para La Boca. A entrada para a Reserva Biologica Nosara (6 dólares ou grátis para os hóspedes do hotel) fica no lobby do hotel; os visitantes podem conhecer a reserva através de uma trilha que pode ser percorrida em duas horas.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Mais Viagem

Topo