Viagem

Próximo a Milão, na Itália, Lago d'Orta é destino ideal para passar um fim de semana

Bonnie Tsui

New York Times Syndicate

25/01/2013 08h20

Como uma sereia, a bela ilhazinha nos chamava. Partimos e, como nadadores olímpicos enlouquecidos, nadamos da praça de paralelepípedos de uma pequena cidade italiana até o sereno monastério da ilha, em meio ao reluzente Lago d'Orta.

A brincadeira começou como uma aposta entre três homens levemente embriagados pelo vinho, entre os quais, meu marido. Mas eu realmente não os culpo. Muitos autores já cantaram a inebriante beleza do lago Orta, uma joia de apenas 1.600 metros de diâmetro a oeste de Maggiore, no distrito italiano dos lagos: Friedrich Nietzsche, Honoré de Balzac e Robert Browning escreverem a respeito da beleza sublime da ilha e seus arredores (Balzac a chamou "um local timidamente escondido, deixado à natureza, um jardim selvagem"). Não à toa, também fomos para lá.

Atualmente, quase todos vão aos badalados Lago di Como e Lago di Maggiore, mas o Lago d'Orta continua a ser o irmão secreto dos lagos italianos. É um popular destino de fim de semana para os moradores de Milão, mas é pouco conhecido fora da Itália. Durante as vistas que meu marido, Matt, e eu fizemos nos dois últimos verões, praticamente só vimos italianos, alguns alemães e holandeses e um punhado de ingleses. Muitos italianos também não conhecem essa tranquila região, repleta de florestas e salpicada de sonolentas cidades medievais, nem o monastério localizado em uma minúscula ilha a cerca de 400 metros da Piazza Motta, a praça principal da cidade de Orta San Giulio.

A ilha, conhecida como Isola di San Giulio, abriga uma basílica do século 12 e um monastério do século 19. Apenas pedestres podem circular na ilha e pela cidade, o que a as torna perfeitas para passeios românticos entre piazzas repletas de cafés e mesinhas com guarda-sóis, mercados e pequenos restaurantes familiares. Além disso a atmosfera amigável de cidade pequena é parte importante do charme.

"Quando era pequena, sempre vínhamos para cá durante as férias escolares", afirmou Yasmin Schwitzer, uma londrina cujos pais se apaixonaram pelo lago, duas décadas atrás. Eles procuravam por um local para descansarem na região de Turim, onde viviam na época.
Fluente em italiano, Schwitzer agora vive em um pequeno vilarejo próximo a Orta San Giulio e trabalha em um dos poucos hotéis da cidade. Ela ama o ritmo de vida mais tranquilo. "Por aqui, as pessoas são muito mais amigáveis e muito menos superficiais do que em Londres", afirmou. "Sinto como se pudesse fazer amizade com qualquer pessoa, jovem ou velha."

Existem suntuosos palazzi e antigos edifícios, mas a obra arquitetônica mais importante de Orta San Giulio é o Sacro Monte di San Francesco, uma das nove "montanhas sagradas" do norte da Itália, que são consideradas patrimônios da humanidade pela UNESCO. Cravado a 1.200 metros do nível do mar, no topo da montanha sagrada, o complexo de Orta San Giulio inclui uma série de 20 belas capelas construídas ao longo de dois séculos e dedicadas à vida de São Francisco de Assis.

A caminhada é uma experiência bela e meditativa, com vistas excepcionais da cidade e do lago. As capelas cobertas de afrescos espalham-se pelas ruas tranquilas e arborizadas do local – considerado "reserva natural especial" na Itália – e possuem uma série de estilos arquitetônicos, da influência clássica do fim do renascimento, ao ornamentado rococó do século 18.

  • Samue­le Pelle­cchia/The New York ­Times

    Apenas pedestres podem circular na ilha e pela cidade, o que a as torna perfeitas para passeios românticos entre piazzas repletas de cafés e mesinhas com guarda-sóis

Há certamente muita história lá, mas Orta também possui surpreendentes sinais de vanguarda. Algumas pessoas apaixonadas por design peregrinam ao extremo norte do lago, onde encontram algumas fábricas de produtos para cozinha, entre as quais, o templo do moderno design internacional: a fábrica da Alessi, cuja família que dá nome à marca abriu a primeira oficina na região em 1921.

Entretanto, os prazeres e a tranquilidade de Orta San Giulio e seu lago continuam a ser os mesmos de sempre. Durante nossa visita mais recente, em julho deste ano, nadamos, passeamos e cochilamos. Passamos horas bebendo vinho no Al Bueuc, uma enoteca localizada em uma cava de 500 anos, fomos à Agri-Gelateria, uma sorveteria que oferece um cremoso gelato feito de leite orgânico vindo direto da fazenda. Relaxamos no Orta Beach Club, onde os clientes estavam cobertos por generosas doses de bronzeador e exibiam peles impecavelmente morenas. Quando nos sentíamos ambiciosos, normalmente nadávamos algumas vezes de uma boia à outra, antes de nos escondermos sob os guarda-sóis, para lermos pelo resto da tarde.

Além disso, adorávamos observar a Isola di San Giulio a janela do apartamento, três andares acima da Piazza Motta e bem em frente à ilha. Para um lago tão limpo e calmo no calor do verão, o Orta recebia uma quantidade impressionantemente pequena de barcos (provavelmente víamos uma pessoa praticando esqui aquático por dia, no máximo). Algumas balsas agitavam a água entre a cidade, a ilha e os minúsculos vilarejos do lado oposto do lago. Mas, como estávamos na Itália, nada realmente começava às 8h30 da manhã – incluindo as balsas.

Entretanto, como costuma acontecer em lugares como esse, as conversas – regadas a vinhos e amigos – ganham rumos inesperados. Uma noite, Matt apostou que era capaz de correr escada abaixo, nadar até a ilha, voltar, subir e sentar no sofá em menos de 21 minutos. Como nado há muito tempo, fiquei responsável por acompanhá-lo na empreitada. Alguns dias depois, tentamos realizar o desafio.

A dona do Orta Market, Signora Irene, como insiste que a chamemos, pediu para que fossemos cuidadosos. "È periculoso!", gritou enquanto passávamos. "Attenzione per le barche!" (Não se pode deixar de notar a preocupação dos vizinhos – isso é típico de Orta.)

Então nadamos, e eu prestava muita "attenzione" aos barcos e tirava a cabeça da água de tempos em tempos, para garantir que ele não fosse atropelado por uma balsa perdida. A água estava cristalina e fria, um perfeito espelho do céu azul que nos cobria; não havia qualquer barco no lago, a não ser por algumas lanchas lentas que passavam muito longe de nós.

Após algum tempo relaxei e comecei a aproveitar a vista aquática. Afinal de contas, com que frequência se pode ter essa vista privilegiada em um lugar tão encantador. Conforme nos aproximávamos da ilha, víamos as evidências da vida comum nas casas que pareciam fechadas do continente: brinquedos no jardim, um trampolim inflável boiando perto de um dos deques particulares. Um pequeno barco saía de um dos deques e o homem que o pilotava acenou com a cabeça e nos cumprimentou.

"Buon giorno!", disse, enquanto ele e a filhinha acenavam calorosamente. Devolvi o aceno com um grande sorriso e, então, Matt e eu demos meia volta e nadamos em direção aos barcos alinhados no cais da cidade. Saímos da água e nos deparamos com uma velha paparazza de calças vermelhas fotografando com sua câmera. Enquanto me secava, Matt correu escada acima até chegar ao apartamento e estava sentado no sofá menos de 18 minutos depois de levantar dele.

Mais tarde, quando descemos para comprar os ingredientes do jantar com nosso filho de 2 anos, Felix, Signora Irene nos cumprimentou com palmas e um caloroso "Bravíssimo!". Além da vista maravilhosa do Orta nos levar a pular na água e fazer o inesperado – ir e voltar do monastério o mais rápido que pudéssemos! – ainda fomos aplaudidos pelas pessoas da cidade. Ela nos entregou nosso prêmio: pirulitos para Felix.

  • Samue­le Pelle­cchia/The New York ­Times

    Vista do lago a partir do Orta Beach Club

Se você for

Como chegar
Orta San Giulio fica a 45 quilômetros de Aeroporto Internacional de Milan Malpensa e a maior parte das locadoras de carro funciona diretamente no local.

Onde ficar
Há um punhado de hoteizinhos na cidade de Orta San Giulio, o melhor lugar para servir de base.

Entre eles, o mais elegante é o Villa Crespi (Via G. Fava 18; 39-0322-911-902; hotelvillacrespi.it; a partir de 284 euros por noite), um edifício mourisco de 14 quartos construído no século 19 por um comerciante italiano que retornava do Oriente Médio. Não deixe de comer no restaurante, que tem duas estrelas no guia Michelin – o chef, Antonino Cannavacciuolo, prepara uma série impressionante de modernas criações mediterrâneas, incluindo salpicão de peixe com abobrinha, servido sob uma nuvem de espuma do mar.

Se quiser ter acesso à água e ao pátio na beira do lago, confira o Hotel San Rocco (Via Gippini 11; 39-0322-911-977; hotelsanrocco.it; a partir de 230 euros) localizado em um antigo convento.

Também é possível alugar apartamentos para temporada, mas não sem antes procurar um pouco; nós alugamos um belo apartamento de dois quartos no site Holiday Homes at Orta (lakeorta.com).

Onde comer
Aberto recentemente ao lado da estação de trem, o Agriturismo Il Cucchiaio di Legno (Via Prisciola 10; 39-322-905-280) é um lugar maravilhoso para provar os pratos da região.

Para os enófilos, o melhor lugar é a pequena Al Boeuc (Via Bersani 28; 39-3395-840-039) para provar vinhos antes do jantar, acompanhados de porções de bruschetta.

O que fazer
Os experientes capitães das balsas esperam no píer para levar os turistas pela Isola San Giulio, onde um calçadão circunda um mosteiro beneditino. Se desejar fazer um pouco de exercício, vá até o Sacro Monte di San Francesco (sacrimonti.net) e aprecie a vista maravilhosa.

Além disso, aproveite para passar uma tarde relaxando no Orta Beach Club (ortabeachclub.com), onde se pode nadar, alugar canoas ou relaxar nas cadeiras de praia.

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