Viagem

Praia e construções históricas são atração em passeio a Cuttyhunk, a duas horas de Boston

Laura House

New York Times Syndicate

01/12/2012 08h02

As Ilhas Elizabeth – 16 torrões de terra que se esparramam a sudoeste de Cape Cod – são praticamente desconhecidas. Quatorze delas pertencem à família Forbes; Penikese, uma ex-colônia de leprosos, hoje é um santuário para o garajau-rosado e permite acesso limitado. E tem Cuttyhunk. Minúscula e pouco povoada, para a maioria ela não passa de um borrão na paisagem escarpada que se vê da balsa rumo a Martha's Vineyard, mas para quem quiser esquecer os carros, a vida noturna e a conexão Wi-Fi confiável, é o destino ideal, a apenas duas horas de Boston.


Minha família e eu estivemos por lá no início de julho, junto com um navegador inveterado e sua família (o porto, tranquilo e protegido, faz de Cuttyhunk um dos destinos preferidos dos marujos; já os pescadores são atraídos pelos robalos e anchovas). Chegando ao cais, fomos recebidos por Bonnie Veeder, a dona do Cuttyhunk Fishing Club, onde ficaríamos hospedados. Ela pediu que colocássemos toda a bagagem – incluindo mantimentos, vinho e cerveja (a ilha não vende bebida alcoólica) – num carrinho de golfe e seguíssemos as placas até a pousada. A pé.

Muitos visitantes acabam dormindo nos barcos do porto, já que as acomodações em terra são limitadíssimas: além dos oito quartos do Fishing Club há apenas o Avalon, uma bela mansão com uma varanda enorme e sete quartos. As duas já foram casas particulares no passado, o que dá às suas cozinhas e espaços comunitários um ar de acampamento. Quem quiser um lugar mais reservado pode alugar uma casa só para si.

Porém, mesmo se hospedando em outro lugar, todo mundo acaba reunido no Fishing Club, com sua fachada pintada de branco e anexos em cedro, já que é o único lugar em que se pode tomar um bom café da manhã, afundar numa espreguiçadeira e apreciar a vista dos penhascos de Martha's Vineyard brilhando no sol da manhã ao mesmo tempo.

Dentro da casa, vale a pena dar uma olhada nas fotos e notícias sobre o grupo de empresários e financistas que compraram quase a ilha toda e formaram o Cuttyhunk Club em 1864. Entre os membros desse grupo estão o magnata Jay Gould, J. D. Archbold da Standard Oil e convidados que incluíram os presidentes Theodore Roosevelt, Grover Cleveland e William Taft.

Bonnie foi criada na ilha e acompanhava o pai, que era zelador de várias propriedades. "Aprendi a caçar, pescar, trocar telhado; meu pai me ensinou tudo o que um garoto sabe fazer", diz ela, "a vantagem é que minha mãe também me ensinou tudo o que uma menina sabe fazer".

Encarregada de reformar a pousada quinze anos atrás, ela contou com a bondade dos vizinhos, que doaram móveis e objetos de arte - e o resultado é uma decoração que mais parece uma colcha de retalhos da história da comunidade. Com 4 km de extensão e 18 residentes fixos, a ilha chega a receber de 300 a 500 visitantes no verão.

Obviamente, os recém-chegados se destacam - e, como se fossem alguém namorando uma pessoa de que gostam muito, os moradores querem saber as suas intenções: é a primeira visita? Onde está hospedado? O que está achando? Se passar na inspeção, acaba ouvindo um "Então até o ano que vem!".

  • Ryan Conaty/The New York Times

    Vista de Barges Beach, na região de Cuttyhunk, em Massachusetts


Há aproximadamente 130 casas, muitas com jardins carregados de hortênsias cor-de-rosa e azuis. Tudo na ilha é no singular – "o" mercado (bem estocado com produtos básicos, frutas, verduras e legumes frescos e até uma delicatessen), "o" raw bar (pequeno restaurante que serve frutos do mar) e "a" sorveteria, mas, ali, é mais que suficiente; a falta de opções é libertadora.

O grupo de prédios municipais no centro é um bom lugar para começar o passeio, mas não leva muito tempo para explorar a sociedade histórica e o museu, a biblioteca, a prefeitura, a Igreja Metodista da União (onde são realizados cultos de várias religiões) e a escola.

Depois de um giro rápido, eu e meu grupo subimos em direção a Lookout Hill. Com Vineyard Sound, Martha's Vineyard e as Ilhas Elizabeth se descortinando à nossa frente, fizemos um piquenique perto do bunker militar hoje desativado, mas muito ativo durante a Segunda Guerra Mundial, quando o exército dos EUA deixou ali 250 soldados para observar os submarinos nazistas.

Atualmente só há a mata fechada que nos convida a explorar aquele labirinto verde. Em meio à grama pisoteada e uma verdadeira parede de flores silvestres, chegamos aos rochedos à beira-mar de West End Pond.

O destaque nesse trecho de praia, onde um homem praticava pesca com mosca e uma mulher caçava conchas, parece mais uma gigantesca chaminé de pedra - talvez os restos de um castelo abandonado? Na verdade é o Monumento Gosnold, importante marco histórico erigido em 1903 pela Sociedade Histórica de Old Dartmouth em homenagem ao explorador Bartholomew Gosnold, que criou um assentamento ali em 1602.

Estão ali também as ostras cultivadas da Cuttyhunk Shellfish Farms, que podem ser encontradas no restaurante do centro. Todo finzinho da tarde é possível ver os barcos da fazenda atracados no porto para fazer a entrega.

Depois do passeio, nosso grupo seguiu para o Fish Dock – um mini shopping center onde é possível alugar barcos de pesca, admirar os crustáceos na vitrine do raw bar, contratar um táxi aquático ou saborear uma casquinha na sorveteria. Estávamos procurando lagostas e, por isso, fomos atrás do Capitão Bruce Borges; bronzeado pelas horas passadas ao ar livre, ele está sempre brincando com os fregueses ao lado das gaiolas que marcam seu ponto. Encomendamos quatro no meio da tarde e passamos depois para pegar nosso jantar. Naquela noite, acompanhadas de espigas frescas compradas no mercado, as lagostas se transformaram num verdadeiro banquete.

Num único dia é possível fazer tudo o que há para fazer na ilha - mas a verdade é que, nesse retiro a apenas 20 km do continente, a paz e a tranquilidade valem mais do que qualquer atração.

 

  • Ryan Conaty/The New York Times

    Público se diverte pescando no deck em Cuttyhunk, Massachusetts

Como chegar
A Cuttyhunk Ferry Company oferece passagens de ida para adultos por US$ 25 (66B State Pier, New Bedford, Mass.; 508-992-0200; cuttyhunkferryco.com).

O Táxi Aquático de Cuttyhunk oferece um serviço mais regular (embora comporte só cinco passageiros); a passagem de ida para adultos sai por US$ 35 (52 Fisherman's Wharf, New Bedford; 508-789-3250; cuttyhunkwatertaxi.com).

Onde ficar
Há oito quartos (alguns são suítes) no Cuttyhunk Fishing Club, com diárias a partir de US$ 165. Todos os hóspedes têm acesso à cozinha e à churrasqueira (508-992-5585;cuttyhunkfishingclub-bb.com).

William Madison Wood, presidente da American Woolen Company, não foi aceito como membro do Cuttyhunk Club por causa de sua ascendência portuguesa; assim, em 1909, construiu uma mansão exatamente acima do clube, que foi transformada no Avalon Inn. São sete quartos com diárias a partir de US$ 150; é possível alugar a pousada toda para grupos fechados (508-997-8388; cuttyhunkinn.com).

Quem preferir pode alugar chalés e casas na Pete's Place Rentals (508-997-6387; petesplacerentals.com). Há várias outras propriedades no site Cuttyhunk.net.

Onde comer
Além da vista espetacular, o Cuttyhunk Fishing Club serve pratos imensos como o Sow and Pig ("wrap" de ovos, queijo, espinafre e bacon). Aberto diariamente das 8h às 11h.

O Bart's Cart (508-758-6653; bartscart.com), favorito entre os moradores, é uma casa simples, com churrasqueira, que serve café da manhã reforçado (presunto, ovos e queijo num pãozinho português), pratos feitos no almoço e churrasco de costela e frango com acompanhamentos no jantar.

As ostras e os mariscos cultivados da Cuttyhunk Shellfish Farms podem ser saboreados no pequeno restaurante de frutos do mar no Fish Dock. Seth e Dorothy Garfield, os donos, também dirigem o Lobsters on the Lawn, casa tradicional que serve lagostas algumas noites por semana. Reservas no Fish Dock ou pelo telefone (508) 990-1317.

Se quiser lagosta ao vapor para levar para casa, faça o pedido no Borges Shack, no Fish Dock, até as 14h. É possível também comprar o crustáceo no gelo. Aberto diariamente das 14h às 18h.

O único restaurante tradicional (que abre só com tempo bom) é o Soprano's, que serve pizzas e calzones. Fica no Frog Pond, aberto das 17h30 às 20h diariamente; (508) 992-7530. Para quem quiser manter o contato com o mundo exterior, há uma banca de jornais que vende The New York Times, The Wall Street Journal, The Boston Globe e The New Bedford Standard-Times pela manhã.

O que fazer
Essa região é excelente para a pesca. Se essa é a sua praia, vá para alto-mar com o Capitão Duane Lynch, da Sea Hawk Charters (508-802-8633;cuttyhunkcharters.com).

Outra opção para quem quer pegar robalo e/ou anchova é o barco do Capitão George Isabel, da Linesider Fishing Charter (508-971-1388;linesider.com).

O Capitão Russell Wright, da Lisa G. Charters (508-965-7362;cuttyhunkflyfishing.com), é especializado em pesca com mosca e carretilha spincast.

O Capitão Bruce Borges (508-999-1263), além da pesca tradicional, também oferece seu barco, o Wahini, para a captura de lagostas.

Para quem prefere proezas marítimas, a Sociedade Histórica Cuttyhunk e o Museu das Ilhas Elizabeth (508-984-4611;cuttyhunkhistoricalsociety.org) abrem de quarta a domingo.
 

 

 

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