Viagem

Visita ao Atacama pode ser feita com luxo e conforto sem que se perca a essência do local

Stephen Paul Nash

New York Times Syndicate

08/01/2012 07h00

Se você já ouviu falar do Deserto de Atacama, no norte do Chile, você provavelmente sabe de uma coisa: é o deserto mais seco da Terra. Isso era tudo o que eu sabia ao chegar, apesar de ter ativado minha desconfiança automática de superlativos.

De fato, o Atacama é tão seco que a Nasa o escolheu como substituto de Marte para pesquisa, testando técnicas para detecção de vida em um ambiente aparentemente estéril. (Dizem que há crianças ali que cresceram até a idade adulta sem nunca terem visto a chuva.)
 
 
A ciência apoia essa curiosidade e adiciona outra distinção: um deserto por mais de 10 milhões de anos e talvez mais, o Atacama pode ser o mais antigo do planeta. Em termos técnicos, este é um deserto “extremo”, ou “absoluto” ou “hiperárido”. Mas como a maioria das descrições resumidas – precisas apenas a uma longa distância – você as considerará profundamente enganadoras quando de fato estiver lá.
 
O Atacama é árido sim, mas apenas ocasionalmente quente, com as temperaturas durante o dia atingindo em média a casa dos 25 graus nos meses de verão de janeiro, fevereiro e março.
 
E ele cobre 140 mil quilômetros quadrados. Os lugares supersecos, desolados, são apenas parte de uma paisagem cujo segredo aberto é a água. Uma série de vulcões que lembram o Fuji, cobertos de neve, se ergue abruptamente ao longo do horizonte oriental. Eles alimentam uma trama de vales de riachos, estreitos e verdejantes, oásis e lagoas de sal, que sustentam as aldeias dos nativos atacamenhos com igrejas da era colonial, meticulosamente preservadas. Bandos de flamingos de cor laranja avermelhado, brilhando como efeitos pirotécnicos sagrados, alçam voo das lagoas.
 
O caminho de entrada habitual para uma viagem ao deserto é um voo de duas horas de Santiago, a capital do Chile, até a cidade industrial de Calama. De lá, é possível alugar um carro ou fazer uso do serviço de translado do hotel e seguir uma hora para o sul, até a mais interessante San Pedro de Atacama, uma cidade de cerca de 5 mil habitantes que serve como base para visitantes que planejam prosseguir a pé, de carro ou cavalo nas várias excursões na área.
 
A rua principal da cidade, a Caracoles, é fechada para os carros, resultando no predomínio de uma languidez convidativa. As ruas estreitas de terra são margeadas por muros altos de adobe altamente cerrados. Os muros são de cor cinza claro, a cor ubíqua da areia do deserto ao redor, assim como os prédios do pequeno bairro comercial, nosso hotel e muitos da legião de amistosos cachorros de rua.
 
Mas os olhos se adaptam a este tipo de aparente uniformidade, assim como ao escuro. Lentamente, surge intensidade e variação. Lampejos ocasionais de cores vívidas – pigmentos de flores, um céu de cor cobalto, uma velha camisa na choça abandonada de um pastor – podem provocar algo próximo de uma sobrecarga sensorial.
 
Onde se hospedar? As opções variam de hotéis a resorts de luxo. Minha esposa, Linda, e eu optamos por esbanjar no Awasi, um refúgio com oito quartos cujos preços podem, assim como a altitude daqui, provocar tontura.
  • Linda Nelson Nash/The New York Times

    Flamingo andino na Lagoa Chaxa, no Atacama

 
Além das refeições soberbas, o que torna o preço palatável é que ele inclui um guia particular e também um motorista, às vezes para dias com 10 horas de exploração, sob medida para seus interesses e aversões. Os guias que conhecemos tinham profundo conhecimento da história cultural e natural do deserto, e nos levaram a lugares excepcionais quando os ônibus de turismo e grandes vans não podiam ser encontrados em lugar nenhum, ou a lugares aonde grupos grandes não vão.
 
Nossa visita itinerante de cinco dias foi reforçada pela cozinha do Awasi, que pode incluir um almoço de salmão e carpaccio de vieiras, voador grelhado, arroz com açafrão e uma sobremesa de mel de chanar (uma fruta local) – e nogado.
 
Outros hotéis de luxo têm guias e motoristas para grupos de vários tamanhos para os mesmos destinos, ou você pode contratar os passeios na cidade. Você também pode alugar um carro e circular por conta própria, evitando as estradas mais desafiadoras.
 
Mas nosso motorista às vezes era indispensável: algumas estradas são acidentadas, tendendo a intransponíveis, especialmente quando inundadas pelo derretimento da neve dos Andes, que se erguem no horizonte próximo. Outras estradas melhores são conhecidas pelos motoristas errantes, animais e saídas sem sinalização. Não ter que lidar com essas distrações é a essência do luxo.
 
Uma primeira viagem fácil é até as lagoas Cejas e Chaxa, que fornecem uma chance de adaptação à altitude de mais de 2.400 metros ao redor de San Pedro. A principal atração delas é o grande número de três das seis espécies de flamingos do mundo. Um som alto causado pelo ar passando por suas asas largas anuncia pousos e decolagens a uma proximidade surpreendente.
 
Uma viagem de carro nos levou mais alto – a até cerca de 4.250 metros de altitude – até os gêiseres Tatio, que aparentemente podem enviar jatos escaldantes de água até 6 metros no ar – um sintoma da geologia muito ativa que torna o Chile cenário de tantos terremotos. Na verdade, nós perdemos o espetáculo, que ocorre pela manhã. Ao optarmos por uma visita à tarde, para evitar as multidões, nós testemunhamos um borbulhar gentil, não mais vigoroso do que o de um chafariz escolar. 
 
Nós encontramos consolo nos espetinhos de carne grelhada de lhama de uma barraca à beira da estrada e na visão desses mesmos animais adoráveis. Nós também vimos guanacos, vicunhas, asnos selvagens, uma ninhada de carquejas, patos com bicos azuis e uma dúzia de outras espécies de pássaros, mas pouco tráfego humano.
 
Infelizmente, o saboroso cabernet chileno que bebemos em nosso piquenique teve um preço: uma latejante dor de cabeça e 90 minutos de enjoo durante nossa viagem de volta. A cura veio com um jogo de palavras cruzadas e chá de coca, o antídoto local e legal.
 
Outros viajantes pelo deserto apreciam o registro ancestral da história humana. Do lado de fora do pequeno vilarejo de Talabre, nas altas paredes rochosas de um desfiladeiro dentado, os ur-atacamenhos gravaram inúmeros petróglifos de flamingos, viscachas parecidas com coelhos e figuras humanas espectrais, outra estava curvada em uma postura votiva adequada ao espírito do local, uma homenagem aos penhascos vermelhos, silenciosos, e ao céu vazio infinito.
 
Todo aquele trabalho concentrado era um lembrete: os artistas conseguiram encontrar água suficiente para permanecerem próximos dessas câmaras de rocha por séculos a fio, como um longo acorde sustentado. Então a chegada dos incas e, logo depois, dos conquistadores mudou a música.
 
A própria Talabre é nova na paisagem. Sua população se mudou para cá de vários quilômetros desfiladeiro acima apenas em 1985. “Me disseram que a cidade mudou para escaparem do vulcão”, nos disse nosso guia, e, de fato, o vulcão Lascar próximo é o mais ativo na região.
 
“Mas quando você pergunta para as pessoas que vivem aqui, elas dizem que não foi esse o motivo”, ele acrescentou. “Elas sempre viveram próximas do vulcão e não têm medo.” O motivo mais provável foi que o córrego em particular que abastecia a cidade por algum motivo começou a secar, então os habitantes de mudaram para mais perto de outra fonte mais confiável de água.
 
A velha Talabre agora é uma cidade fantasma de paredes desmoronando e telhados caídos. Cadeiras de madeira, utensílios de cozinha, um par de aventais suspensos no varal, uma igreja com uma imagem suja de Jesus ainda próxima do altar arruinado. É como se, assim que a decisão foi tomada, todo mundo partiu às pressas. Apenas o cemitério ainda recebe cuidados.
 
Em nosso último dia, a rota nos levou de volta por Calama em nosso caminho por Chiu Chiu. Na passagem, nós vimos as altas chaminés expelindo fumaça de Chuquicamata, uma das maiores minas a céu aberto do mundo, além do horizonte norte.
 
Uma manta altamente visível de poluição regional gerada por esta mina estatal de cobre parece fazer pouco para diminuir o orgulho de muitos chilenos com sua produtividade. Ela é o alicerce da economia do país. Mas nosso guia nos disse que a continuidade do funcionamento dos gêiseres Tatio e de parte da agricultura local está ameaçada pelos planos agressivos para ampliação da mineração no norte de Chile, porque a mineração utiliza água em abundância. O desmoronamento de uma mina em Atacama há um ano prendeu 33 mineiros, que foram resgatados após mais de dois meses presos no subsolo.
 
Àquela altura, eu estava afastando os pensamentos de filas de check-in e revistas no aeroporto de Calama e, é claro, na viagem de volta. Tudo isso foi facilitado pela penúltima parada, na pequena cidade de Chiu Chiu. Sua igreja, apontou nosso guia com um sorriso zombeteiro, seria a mais antiga do Chile, datada de meados do século 17.
 
Os contornos derretidos das paredes brancas de adobe da Igreja de San Francisco de Chiu Chiu emolduravam um interior altamente sombreado. Seu acabamento é parcialmente em madeira de cacto, povoado com imagens de santos, por vezes austeros ou graciosos, mas sem incluir quase nenhum indício de algo que tenha acontecido no mundo exterior no último século, aproximadamente.
 
Essa foi a última das várias pequenas igrejas bonitas que visitamos, com pelo menos três delas alegando ser a mais velha do Chile. Como todos os outros extremos no Atacama – o deserto mais seco e mais antigo; uma das maiores minas; a maior probabilidade de próxima erupção vulcânica – esse é um tipo de celebração, independente de seus outros méritos. Os superlativos aqui tendem a expandir, em vez de limitar, a variedade de possibilidades.

Se você for

 
Para chegar lá
 
Há vários voos diários de Santiago para Calama pela LAN Airlines. Organize com seu hotel o translado para San Pedro de Atacama ou alugue um carro.
 
Onde ficar
 
San Pedro possui acampamentos comerciais baratos, albergues e pequenos hotéis de qualidade variada. Verifique cuidadosamente, pois alguns são conhecidos por serem barulhentos, sujos ou menos convidativos. Deixe uma gorjeta para qualquer um que for solícito; 10% é um valor considerado bom em restaurantes e generosidade nunca faz mal.
 
Para os mais sofisticados, o Tierra Atacama (tierraatacama.com; 800-829-5325) com 32 quartos, em San Pedro de Atacama, é um exercício de alto design – sobriedade e luxo se encontram, com linhas retas e interiores que complementam os arredores desérticos. Os quartos dão vista para o vulcão Licancabur e aos picos ao redor. O preço total para cinco noites, que inclui passeios com guia para pequenos grupos, é de US$ 2.190 por pessoa. Estadias mais curtas estão disponíveis.
 
O Awasi (awasi.cl; 888-880-3219) com oito quartos, em San Pedro, onde ficamos, fica voltado para uma piscina interior, um tocheiro, um bar e um restaurante com cozinha aberta. O projeto é ecologicamente correto e sereno, feito de adobe local, palha e faixas de pedra e pedras de rio. As diárias para estadias de cinco dias na alta temporada (de 20 de dezembro a 31 de março) são de US$ 3.515 a US$ 4.225 por pessoa e incluem tudo, até mesmo guia e motorista próprios.
 
Onde comer
 
A cidade de San Pedro é uma feira de pequeninas lojas de artesanato e pequenos restaurantes. Muitos servem pratos de massa, como espaguete à carbonara ou lasanha.
 
No El Charrua (Tocopilla 442, perto da esquina de Caracoles; 56-55-851443), com seis mesas, eu comi um mais do que justo capellini com molho pesto com manjericão por US$ 8.
 
Outros lugares servem variantes da discreta cozinha chilena – comidas locais sem muito tempero ou outra diferenciação, mas que vale a pena experimentar, como o pastel de choclo, um empadão com pedaços de frango, duas azeitonas e metade de um ovo cozido sob uma camada de queijo derretido. Uma versão mais cara é o pastel de loco, que conta com frutos do mar em seu lugar.
 
Eu experimentei o pastel de loco no La Casona (Caracoles 195, lacasonadeatacama.cl), juntamente com uma empanada saborosa chamada pino del horno. Ele também oferece um cardápio de ótimas sobremesas. (Tradução de George El Khouri Andolfato)

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