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Turku, uma cidade finlandesa que se prepara para os holofotes em 2011

Ed Alcock/The New York Times
A 'Vida em uma Folha', uma casa amarela extravagante que fica em um parque arborizado à beira de Turku Imagem: Ed Alcock/The New York Times

JOSHUA HAMMER

New York Times Syndicate

27/12/2010 08h04

“Vida em uma Folha”, uma casa amarela extravagante que fica em um parque arborizado à beira de Turku, uma cidade no sul da Finlândia, é uma construção assimétrica, com um telhado vermelho, azul e verde e uma planta em forma de folha. Seu interior é ainda mais maluco: paredes curvas, janelas em forma de lágrimas e uma passarela com uma tela de vídeo minúscula embutida no piso, que mostra um loop infinito de passageiros se movendo como formigas pela estação Grand Central do metrô de Nova York.

Em uma manhã excepcionalmente quente de setembro, viajei para a casa Folha, que se tornou uma espécie de marco local, passando o porto de Turku, que fica sob uma colina coberta de pinheiros, em seguida se transformando em uma clareira na floresta. Jan-Erik Andersson - o artista, escultor e designer de interiores que, com contribuições de outros 20 artistas, criou o local e também oferece visitas para grupos de visitantes que as agendam com antecedência - estava esperando por mim. No gramado da frente, nós ficamos diante de sua obra em progresso: uma sauna de fibra de vidro em forma de dente de alho, uma das cinco saunas finlandesas que estarão em exibição na SaunaLab, uma exposição da Turku 2011, o festival de cultura que durará todo o ano que vem.

“Nós já a estamos testando”, disse Andersson, cujo trabalho tem sido exibido em Londres, Oslo e outras cidades europeias.

A sensibilidade peculiar de Andersson é, em muitos aspectos, emblemática do lugar onde ele nasceu e trabalha: Turku, uma cidade de espírito livre e inclinação artística com cerca de 175 mil habitantes, na foz do Rio Aura. Ao longo dos anos, Turku tem produzido alguns dos principais artistas do país, entre eles a artista performática Meiju Niskala, o escultor Kim Simonsson e o compositor Ulf Långbacka. A cidade possui uma das melhores academias de arte da Finlândia, sem contar uma escola de circo. Cerca de meia dúzia de pessoas que encontrei ali alegou que a música eletrônica nasceu em Turku; de fato, o festival anual Down by the Laituri, o mais antigo na Finlândia, é um dos melhores eventos musicais na Europa nórdica.

No entanto, é seguro dizer que muitas pessoas fora do norte da Europa nunca ouviram falar do lugar. “Quando digo às pessoas de onde eu sou, algumas me dizem: ‘Ah, sim, Turquia, eu já estivesse nesse país’”, disse Saara Malila, diretora de comunicações da Fundação Turku 2011, que está organizando o festival no qual a sauna de Andersson será exibida.

Agora, um dos segredos mais bem guardados da Europa nórdica espera conquistar um lugar de destaque no mapa. A União Europeia nomeou Turku -juntamente com Tallinn, a capital da vizinha báltica da Finlândia, a Estônia - uma de suas duas Capitais Europeias da Cultura para 2011. Os organizadores do festival dizem que esperam receber cerca de dois milhões de visitantes de toda a Europa e US$ 200 milhões em receita adicional para a cidade.

Para Turku, o tão esperado reconhecimento é aguardado há muito tempo. Esta cidade costeira ordeira, estrategicamente situada, foi a mais importante da Finlândia por cinco séculos e o centro de sua vida cultural, religiosa e comercial. Mas a proeminência de Turku desapareceu depois da Guerra da Finlândia de 1808 e 1809, quando a Rússia tomou do Império Sueco o Grão-ducado da Finlândia e tornou Helsinque a nova capital (a Finlândia conquistou sua independência em 1917).

Hoje, Turku é a quinta maior cidade da Finlândia, mas é uma de suas mais convidativas: uma cidade tranqüila que é a porta de entrada para o Mar do Arquipélago - uma treliça de aproximadamente 20 mil ilhas intocadas no Báltico. Seus eventos culturais, muitas vezes realizados em ambientes ousadamente não convencionais e com um repertório eclético, têm atraído multidões de todos os países nórdicos.

Topi Lehtipuu, um tenor finlandês que mora em Paris e é diretor artístico do Festival de Música de Turku, um festival anual de música clássica, realizou recentemente um concerto no sótão de um depósito de gás abandonado. “A acústica era fantástica”, ele me disse durante um jantar de perca e arenque cru no Oskarin Olohuone, um restaurante de peixes e frutos do mar no Hamburger Bors, um dos hotéis mais antigos da cidade. O restaurante, entre os mais populares da cidade, estava movimentado e, do lado de fora, as calçadas estavam cheias de pessoas seguindo para os bares e restaurantes das ruas do centro de Turku -lugares como o Cosmic Comic Cafe, um bar onde você pode ler histórias em quadrinhos enquanto bebe uma cerveja local; uma antiga escola que renasceu como o Brewery Restaurant Koulu; e até mesmo - eca! - um toalete público que voltou à vida como o Pub Restaurant Puutorin Vessa.

Para as autoridades da União Europeia, o perfil de Turku como um paraíso artístico sofisticado, mas relativamente desconhecido, fez dela uma candidata natural para Capital da Cultura - uma designação concebida em 1985 pela atriz que virou ministra da Cultura da Grécia, Melina Mercouri, e seu par francês, Jack Lang. Sua finalidade é descaradamente promocional: destacar as realizações culturais de uma cidade, aumentar a sua visibilidade e gerar turismo e renovação urbana.

  • Ed Alcock/The New York Times

    Visão da Praça da Velha Biblioteca, em Turku, na Finlândia


“Ser nomeada uma capital cultural pode acelerar a mudança, tornar a cidade mais atraente para os turistas e colocá-la no mapa mundial”, disse Dennis Abbott, um porta-voz de educação e cultura da Comissão Europeia, que citou Glasgow (vencedora de 1990), Lille (uma co-vencedora, com Gênova, em 2004) e Liverpool (2008) como três cidades que experimentaram ganhos econômicos de longo prazo com a designação. Turku vai gastar US$ 50 milhões - uma combinação de fundos do governo, dinheiro da União Europeia, patrocínios corporativos e receita dos ingressos - para realizar 1.500 eventos culturais ao longo de 2011. Na lista estão óperas, concertos, teatro de marionetes, exposições de arte, contadores de histórias, oficinas ambientais e até mesmo híbridos experimentais, como a “luta livre com acordeão”, durante a qual o maestro finlandês de acordeão, Kimmo Pohjonen, tocará com o acompanhamento coreografado de dois lutadores.

Apesar dos benefícios potenciais, nem todos em Turku gostaram da designação, especialmente aqueles que foram afetados pela desaceleração na economia local, que é baseada principalmente na construção naval, bem como biotecnologia e tecnologia da informação.

“Foi difícil no começo fazer as pessoas verem que valia a pena, mas muitas delas passaram a ver que é um investimento na cidade”, disse Malila. “Os protestos acabaram.”

Agora, muitos esperam que a agitação transforme Turku em um ímã para os artistas e a coloque definitivamente no mapa turístico. “Será um fracasso se isso durar apenas um ano”, disse Cay Sevon, presidente-executiva da Fundação Turku 2011. A designação, segundo ela, “precisa mudar a cidade de um modo profundo”.

Minha visita a Turku ocorreu meses antes do início do festival, em janeiro, mas a cidade já estava se preparando. Todos os espaços de exposição e apresentação disponíveis - desde o auditório da escola Puropelto, onde amadores e profissionais estavam ensaiando uma montagem de “Hair”, até uma oficina de engenharia ferroviária transformada em uma sala de espetáculos chamada Logomo, passando pelo Museu de Arte de Turku - foram requisitados para eventos.

“Definitivamente há um entusiasmo”, disse a minha guia da Turku Tours, Anu Salminen, que me encontrou no lobby do Hamburger Bors, que contém tanto alas altamente modernas quanto outras encantadoras do século 19 e, no piso superior, um impressionante conjunto de saunas. O hotel fica ao largo da Praça do Mercado, que foi projetada pelo arquiteto nascido na Alemanha, Carl Ludvig Engel, após um incêndio que destruiu quase toda a cidade em 1827. A praça é o lugar onde as pessoas se reúnem, fazem suas compras de hortifrutis em bancas ao ar livre e visitam joias arquitetônicas como a Igreja Ortodoxa Russa e o Teatro Neoclássico Sueco, o mais antigo da Finlândia, construído em 1839 (o teatro atende aos 5% da população da cidade que falam o sueco como primeira língua -um legado dos tempos de Turku como fortaleza estratégica do império sueco).

“Helsinque era uma vila de pescadores com seis cabanas quando éramos a capital”, me disse Salminen, deixando transparecer um ar de superioridade que ainda afeta alguns moradores de Turku.

Uma caminhada matinal ao longo do Aura, um canal estreito que serpenteia pelo coração de Turku, nos levou por prédios restaurados do século 19, praças arborizadas e uma avenida margeada por tílias, que é o ponto de encontro mais popular da cidade. Nós passamos por ciclistas pedalando descontraidamente pelo caminho à margem do rio, estudantes da universidade local lendo em gramados verdejantes e casais bem vestidos tomando cappuccinos nos cafés nas calçadas.

Aqui também estão algumas das atrações culturais mais proeminentes da cidade, incluindo a nova Biblioteca Municipal Principal de Turku - uma construção de vidro cintilante - e a reformada Praça da Velha Biblioteca, onde peças e concertos ao ar livre serão apresentados durante o festival. Perto da praça fica o Turku Bookcafé, um pequeno café e livraria charmoso que serve bolos e tortas vegetarianas e oferece música ao vivo, leituras e outros eventos culturais. Malila e eu paramos para almoçar no café à margem do rio, o Blanko, um local popular de almoço que serve uma excelente salada de queijo feta e salmão finlandês grelhado, juntamente com um chocolate branco e panna cotta de ruibarbo para a sobremesa.

A agradabilidade do centro de Turku deu lugar a uma periferia ligeiramente mais bruta à medida que seguimos o Aura na direção do Mar Báltico. Alguns barcos-restaurantes (a maioria já fechado após a temporada de verão) e uma escuna de três mastros, transformada em museu marítimo, estavam do outro lado do rio. No verão, os barcos de rio estão entre os locais mais populares de Turku para se ir. As pessoas podem se sentar no convés ao entardecer e beber cerveja ou cidra ouvindo música e apreciando a vista das luzes da cidade refletidas no rio. Antigas fábricas de tabaco e depósitos renasceram nos últimos anos como condomínios e centros culturais; um velha balsa, o último vestígio do Aura do século 19, ainda cruza o rio 365 dias por ano, cortando um canal através do gelo durante o longo inverno.

O Porto de Turku, um dos motores da economia da cidade, fica logo depois de uma curva do rio. O Oasis of the Seas, o maior navio de passageiros do mundo, foi construído no estaleiro daqui para a Royal Caribbean, e um navio maior, o Allure of the Seas, tem previsão de ser entregue em breve. Mas não há planos para futura construção naval e aproximadamente 8 mil pessoas empregadas no estaleiro e nos negócios relacionados enfrentam a possibilidade iminente de desemprego. “Nós estamos nos voltando para a cultura para nos salvar”, disse Malila.

Muitas das esperanças da cidade estão investidas em um projeto ousado, que está em andamento em um antigo depósito e galpão de manutenção ferroviária que remonta à época dos czares. Vendido pela companhia ferroviária finlandesa há seis anos para uma empresa que tentou, sem sucesso, transformá-lo em um parque de diversões, o prédio de tijolos cavernoso está prestes a renascer como o Logomo, um centro cultural de 23 mil metros quadrados com sala de concertos, espaço de exposições, restaurante e uma coleção de estúdios de artistas. A Hartela, uma empresa finlandesa, está investindo 50 milhões de euros (cerca de US$ 67 milhões) na reforma e readaptação da estrutura dilapidada, apostando que Turku se tornará um ímã para as artes e cultura depois de 2011.

“É um risco”, reconheceu Jukka Makinen, o gerente do projeto, enquanto me levava para conhecer o prédio semirreformado. Reconhecendo que Turku em si não é grande o suficiente para sustentar um centro cultural desse porte, ele espera que a cidade atraia cerca de 650 mil pessoas que vivem em uma área de até uma hora de distância da cidade. Malila disse que o projeto poderia acabar com a fuga de artistas e músicos de Turku para Helsinque e além. “Nós poderemos dizer aos artistas: ‘Agora há um motivo para vocês ficarem’”, ela disse.

Em meio ao turbilhão cultural que está tomando conta de Turku nesta temporada, aproveitei para visitar duas das atrações permanentes da cidade: sua catedral e o castelo. Em meados do século 12, diz a lenda que o bispo Henry da Suécia batizou animistas finlandeses em uma fonte chamada Kupittaa, introduzindo o cristianismo para os pagãos finlandeses, e depois ergueu uma pequena igreja de madeira ao lado do Rio Aura. Hoje, sua sucessora gótica construída no mesmo local, a Catedral de Turku, com mais de 100 metros de altura, continua a ser a igreja mais importante da Finlândia, um cruzamento impressionante entre a Abadia de Westminster e a St.-Germain-des-Prés.
  • Ed Alcock/The New York Times

    O Castelo de Turku, uma fortaleza medieval na foz do Rio Aura, é agora um espaço de exposição popular e salão de banquetes, na Finlândia


O Castelo de Turku, uma fortaleza medieval na foz do Rio Aura, é agora um espaço de exposição popular (quando eu estive lá, o espaço estava exibindo pinturas finlandesas do período imperial russo, de 1809 a 1917) e salão de banquetes. Por trás das espessas muralhas de pedra do castelo, corredores e pátios interligados oferecem vislumbres de seus dias de glória em meados do século 16, quando o castelo serviu como a corte suntuosa do duque da Finlândia.

Naquela noite, no Oskarin Olohuone, o restaurante no Hamburger Bors, eu me juntei ao cantor de ópera Topi Lehtipuu e várias outras pessoas envolvidas no festival cultural. Naquela atmosfera amigável, jantamos peixe fresco do Báltico e conversamos sobre a vitalidade idiossincrática da cena artística de Turku.

Lehtipuu, que passa boa parte do ano na estrada, vê a cidade como um lugar para recarregar suas baterias criativas e buscar novos ambientes para sua música. “Eu venho aqui pelos espaços”, ele me disse. Dois meses atrás, ele disse, um empresário local assumiu a prisão de segurança máxima abandonada da cidade e organizou um concerto de piano e barítono em meio às celas, com música de Tom Waits e Robert Schumann. “As pessoas aqui estão sempre exigindo algo novo”, disse Lehtipuu.

Em Turku, elas certamente encontrarão.

 

Se você for

O ano da Capital da Cultura Europeia começa em 15 de janeiro de 2011. Informações sobre os eventos e ingressos em Turku podem ser encontradas em turku2011.fi/en/2011-corner e em www.turku2011.fi/en/tickets.

Hotéis
Eu fiquei no Sokos Hamburger Bors (Kauppiaskatu 6; 358-2-337-381 www.sokoshotels.fi), um hotel amplo e movimentado ao largo da Praça do Mercado, com dois bons restaurantes –um escandinavo e outro provençal. Diárias a partir de 90 euros.

O Park Hotel (Rauhankatu 1; 358-2-273-2555; parkhotelturku.fi) é um hotel-butique agradável situado em um palacete restaurado da virada do século 20, no centro da cidade, ao lado parque Puolalanpuisto. Tem 21 quartos mobiliados, incluindo uma suíte e um mascote - um papagaio-cinzento africano - no lobby. Um quarto duplo custa 130 euros.

O Centro Hotel (Yliopistonkatu 12; 358-2-211-8100; centrohotel.com) é um hotel-butique moderno no centro, com quartos aconchegantes a partir de 86 euros por um duplo.

Radisson Blu Marina Palace Hotel (Linnankatu 32; 358-2-01234-710 ; www.radissonblu.com/hotel-turku), um hotel recém reformado com vista para o Rio Aura; quartos a partir de 90 euros.

Restaurantes
Blanko (Aurakatu 1; 358-2-233-3966; blanko.net), ao pé da Ponte Aura, é um dos restaurantes mais populares e elegantes de Turku. Um jantar para dois sai por cerca de 90 euros.

Brewery Restaurant Koulu (Eerikinkatu 18; 358-2-274-5757), no centro, é considerado o maior restaurante-cervejaria da Finlândia. Você pode provar as cervejas da casa e a adega Koulu’s Wine House com grande variedade, assim como visitar a cervejaria no porão. Um jantar para dois sai por cerca de 100 euros.

O restaurante Mami (Linnankatu 3; 358-2-231-1111; mami.fi ), no cais no distrito histórico de Turku, serve comida simples em uma atmosfera despretensiosa; jantar para dois sai por cerca de 100 euros.

O restaurante Herman (Lantinen Rantakatu 37; 358-2-230-3333; ravintolaherman.com) situado em um prédio centenário no Aura, oferece boa comida e um terraço. Jantar para dois sai por cerca de 120 euros.

O Cosmic Cafe (Kauppiaskatu 4; 358-2-250-4942; cosmic.fi) oferece cidra e cerveja de várias partes da Europa, além de uma coleção de histórias em quadrinhos.

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