Viagem

Seguindo os passos de Thomas Jefferson pelas vinícolas da Borgonha

Ed Alcock/The New York Times
Fundado no século 11, o vinhedo Clos du Vougeot, de 50 hectares, era o Mondavi de sua época, onde, como nota Jefferson, os monges produziam cerca de 50 mil garrafas de vinho por ano. Imagem: Ed Alcock/The New York Times

ANN MAH

New York Times Syndicate

Quando Thomas Jefferson embarcou em sua grande viagem à França em 1787, ele alegou que a jornada era para fins de saúde. Uma fratura no pulso o enviou a 1.900 quilômetros ao sul de Paris até Aix-en-Provence, em busca de suas águas minerais terapêuticas, e no caminho ele planejava cumprir suas obrigações como principal emissário americano à França, pesquisando a arquitetura, agricultura e projetos de engenharia franceses.

Mas quando ele optou por iniciar sua jornada de três meses pelas colinas cobertas de vinhedos da Borgonha, a filha de Jefferson, Martha, suspeitou.

“Eu estou inclinada a pensar que sua viagem é por prazer e não para sua saúde”, ela provocou em uma carta.

De fato, a visita de cinco dias de Jefferson à Côte d’Or - uma região já famosa no século 18 por seus extraordinários terroirs - não foi casual. Após passar mais de dois anos em Paris estabelecendo relações diplomáticas com a corte de Luís 16, Jefferson, um antigo enófilo, já tinha provado sua cota de vinhos notáveis. Agora ele estava disposto a descobrir os vinhedos e adegas da Borgonha, e estudar pessoalmente uma tradição de produção de vinhos que remontava ao século 11.

“Eu visitei seus vinhedos mais célebres, indo às casas dos trabalhadores, adega dos donos, me misturando e conversando com eles o máximo que pude”, escreveu Jefferson sobre as vinícolas em uma carta postada durante sua viagem.

Apesar de quase 225 anos, uma revolução, uma epidemia devastadora nos vinhedos e várias guerras nos separarem da viagem do vinho de Jefferson, eu descobri em uma recente viagem que ainda é possível explorar o trecho célebre de colinas cobertas por vinhedos como fez o autodescrito “cavalheiro estrangeiro”.

“Os vinhos que tornaram a Borgonha célebre são produzidos apenas na Côte”, observou Jefferson em seus meticulosos diários de viagem. A lenda local diz que monges cistercianos iniciaram o cultivo de uvas naquela cadeia estreita de colinas no século 11, viajando entre as quatro côtes, misturando o solo arenoso com água e o provando para saber as diferenças no terroir. Para Jefferson (que construiu Monticello a partir da adega de vinhos), uma viagem à Côte d’Or também era uma chance de examinar a viticultura francesa visando iniciá-la nos Estados Unidos.

Como Jefferson, eu percorri a região do norte ao sul, de Côte de Nuits à Côte de Beaune, iniciando minha viagem em uma das primeiras paradas de Jefferson, o Clos du Vougeot. Fundado no século 11, este vasto vinhedo de 50 hectares era o Mondavi de sua época, onde, como nota Jefferson, os monges produziam cerca de 50 mil garrafas de vinho por ano.

  • Reprodução

    Barris do Domaine François Gaunoux, um vinhedo de propriedade familiar que produz o Goutte d'Or


Hoje, o Château du Clos de Vougeot abriga um museu e a sede da Confrérie des Chevaliers du Tastevin, um clube exclusivo de vinho. Dentro, a vinícola cavernosa, onde o vinho era produzido, é um testamento da indústria dos monges, com quatro enormes prensas de uva do século 15 e imensos tanques de madeira para fermentação.

Na época da viagem de Jefferson, alguns poucos ricos proprietários de terras eram donos da maioria dos vinhedos da Borgonha, o maior deles a Igreja Católica. A Revolução Francesa dividiu posteriormente as grandes propriedades em terrenos menores, e a Borgonha continua sendo uma região de pequenos produtores, com alguns vinhedos do tamanho de um jardim. Mas com poucas cercas ou placas, a paisagem é notavelmente semelhante à descrita por Jefferson, as colinas “mais ou menos vermelhas ou avermelhadas”, “com suas encostas tomadas por vinhas”, e estas “cercadas por muros de pedra”.

Jefferson viajou sozinho e de forma anônima. Mas quando chegou à cidade de Beaune, no centro da região, ele buscou orientação, contratando um consultor de vinhos, Étienne Parent. Como muitos homens de sua época, Parent se interessava pela produção de barros e viticultura, mas sua principal fonte de renda era como negociante, um comerciante que misturava os vinhos de vários produtores para criar e vender uma quantidade comercial suficiente.

Ao longo dos anos, Parent ajudaria Jefferson a criar sua adega, enviando vinho para Paris e para a Casa Branca. Mas durante a única visita de Jefferson à região, ele o apresentou aos vinhos de Pommard e Meursault, que se tornaram os favoritos de Jefferson.

Eu parei em Clos de la Commeraine, um vinhedo próximo do vilarejo de Pommard, cujo vinho ainda deixava Jefferson extasiado mais de 20 anos após tê-lo provado. Aqui, em meio a quatro hectares de vinhas, se encontra um agradável château do século 12, completo com uma pequena sala de fermentação.

Ele atualmente é de propriedade da família Jaboulet-Vercherre e o vinho da propriedade é produzido pela Louis Jadot, uma das maiores casas de negociantes da Borgonha. Mas a magia do terroir perdura, como ficou evidente com a elegância do vinho que provei.

“Jefferson era fascinado por vinhos, plantas - ele foi seduzido pelo terroir”, disse Anne Parent, que, juntamente com sua irmã Catherine, é dona da Domaine Parent, um vinícola em Pommard. As irmãs são descendentes diretas de Étienne Parent e Anne faz parte da 12ª geração de produtores de vinho da família. Ela me conduziu pelas ruas tranquilas de Pommard, parando diante de uma placa em homenagem a Jefferson (ela foi colocada em novembro, parte de um projeto para colocação de placas nas 40 das cidades francesas visitadas por Jefferson).

Posteriormente, Anne Parent e eu descemos à sua adega, onde provamos novos vinhos. Enquanto parávamos diante de vários barris, sem pressa para beber, saborear e cuspir, me ocorreu que estávamos compartilhando uma atividade ancestral. Eu perguntei se Thomas Jefferson e Étienne Parent teriam descido a esta mesma adega juntos e provado os jovens vinhos da Borgonha da mesma forma? “Estou absolutamente certa que sim”, ela disse.

Segundo a tradição local, Jefferson gostou tanto de um vinho branco, o Goutte d’Or, que “ele comprou toda a produção daquele ano”, disse Louis-Fabrice Latour, diretor da Maison Louis Latour, uma casa de negociantes estabelecida em 1797.

Visitar as adegas da Maison Latour é como entrar no cofre da família, com garrafas empoeiradas de vinho ocupando o lugar das joias. A família Latour, que dirige a casa há sete gerações, guarda quase todo vintage desde o final do século 19, um acervo de vinhos antigos que Jefferson teria invejado.

Na sala de degustação, enquanto provávamos o Goutte d’Or 2008 de Latour, eu pedi um conselho: qual é a melhor forma de uma pessoa apaixonada por vinhos descobrir a Borgonha?

“Não tenha pressa para descobrir as denominações, para visitar a região”, ele disse. “Prove as diferenças entre os vinhedos vizinhos. Faça perguntas. Seja curioso.”

Em outras palavras, seja como Thomas Jefferson.

 

Se você for

Um carro é essencial para visitar os vinhedos da Côte d’Or. A Borgonha fica a cerca de três horas de carro de Paris, um caminho reto pela autoestrada A6. Como alternativa, os trens para Dijon partem de Gare de Lyon em Paris duas vezes a cada hora, diariamente; a viagem leva cerca de uma hora e meia. Carros podem ser alugados na estação Dijon TGV (a unidade GPS que aluguei foi inestimável para me ajudar a percorrer as pequenas estradas da região).

O que ver
Château du Clos de Vougeot, em Vougeot (33-3-80-62-86-09; tastevin-bourgogne.com). Ingresso para as visitas custa 3,90 euros, ou cerca de US$ 4,70, com o euro cotado a US$ 1,20; estudantes e crianças com idades entre 8 e 16 anos pagam 2,90 euros.

Onde degustar
Domaine François Gaunoux (23, rue du 11 Novembre, Meursault; 33-3-80-21-22-40; gaunoux.com). Um vinhedo de propriedade familiar que produz o Goutte d’Or. Visitas e degustações por agendamento; telefone ou mande e-mail com antecedência.

Louis Jadot (21, rue Eugène Spuller, Beaune; 33-3-80-22-10-57; louisjadot.com). Apesar das visitas geralmente serem reservadas a profissionais do vinho, tente agendar uma visita por e-mail. Se houver algum funcionário disponível, ele proporcionará de bom grado uma visita e degustação.

Louis Latour (18, rue des Tonneliers, Beaune; 33-3-80-24-81-00; www.louislatour.com). Visitas de degustações por agendamento.

Domaine Parent (Place de l’Église BP 8, Pommard; 33-3-80-22-15-08; domaine-parent-bourgogne.com). Visitas de degustações por agendamento.

Onde ficar
O Hotel Villa Louise (9, rue Franche, Aloxe-Corton; 33-3-80-26-46-70; www.hotel-villa-louise.fr) foi construído originalmente como uma residência privada no século 17, à beira de um vinhedo em Aloxe-Corton. Os quartos são charmosos e aconchegantes, com vigas de madeira, colchas costuradas à mão e vista das vinhas. O café da manhã (15 euros) possui frutas preparadas em casa, croissants, geleias e fromage frais com açúcar e creme, uma especialidade da Borgonha. Diárias a partir de 85 euros na baixa temporada; 98 euros na alta.

Hotel de la Poste (1-5, boulevard Clémenceau, Beaune; 33-3-80-22-08-11; www.hoteldelapostebeaune.com) é o mais velho de Beaune, construído no século 17 como uma posta. Apesar de Thomas Jefferson não ter se hospedado aqui - segundo seus diários, ele ficou no Chez Dion a l’Écu de France, que não funciona mais - ele provavelmente trocou de cavalos aqui. Hoje, o hotel oferece quartos luxuosos decorados com uma mistura eclética de móveis modernos, tecidos e antiguidades. Diárias a partir de 160 euros.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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