Uma história de guerra e reunião em Tegernsee, na Alemanha

STEVE DOUGHERTY

New York Times Syndicate

  • Oliver Hartung/The New York Times

    Pessoas em roupas típicas em Tegernsee

    Pessoas em roupas típicas em Tegernsee

Um fluxo constante de BMWs, Porsches e Mercedes passa por mim enquanto caminho na direção sul, por uma via para bicicletas e pedestres, às margens de um lago, em uma gloriosa tarde de domingo de maio. Os carros aparentemente transportam prósperos viajantes de um só dia de Munique, a 45 minutos de carro ao norte, para Tegernsee, uma cidade resort popular no pequeno lago alpino de mesmo nome na Baviera.

A cidade surge à vista assim que faço uma curva. É um aglomerado de telhados vermelhos aconchegados em uma graciosa curva do lago a cerca de 1,5 quilômetro ao sul. Atrás dela, montanhas cobertas de florestas densas se erguem contra o céu azul, e ao longe, os raios de sol refletem nos campos de neve e gelo no alto dos Alpes. Cruzando as águas cintilantes à minha direita, pequenos veleiros deslizavam com a brisa leve. Enquanto eu aprecio a beleza pacata do cenário, eu tento imaginar como ela seria há 65 anos, no final de um dia de primavera como este, quando meu pai caminhou ao longo da mesma margem e o mesmo vale tranquilo explodia em violência.

Era 3 de maio de 1945, nos tensos dias finais da Segunda Guerra Mundial. Meu pai, na época um segundo-tenente e observador de artilharia avançado, e 200 soldados americanos de infantaria avançavam para o sul na direção de Tegernsee, à caça dos remanescentes das já derrotadas forças armadas alemãs. O silêncio era quebrado pela explosão dos projéteis de artilharia disparados pelas obstinadas tropas alemãs da SS, em retirada pela cidade rumo à fronteira austríaca. Enquanto os americanos lutavam com dificuldade para responder ao fogo, o temor de ser morto, naquele que provou ser um dos últimos combates da longa guerra - ela terminaria oficialmente em 8 de maio, um dia antes do 25º aniversário do meu pai - era superado pela raiva.

Menos de 48 horas antes, meu pai e seus companheiros testemunharam um vislumbre repugnante da vasta máquina do mal da Alemanha nazista. A oeste de Munique, eles entraram nas ruínas fumegantes de um pequena prisão de trabalho escravo, parte da rede Landsberg-Kaufering de campos de concentração.

Horas antes da chegada dos americanos, soldados da SS, membros da corporação de elite que ajudou a executar os enormes crimes que a história recorda como o Holocausto, conduziram os prisioneiros para celeiros, os incendiaram e metralharam aqueles que conseguiam sair. A lembrança dos cadáveres incinerados e crivados de balas, assim como os corpos ensanguentados pendurados nas cercas de arame farpado, assombrou meu pai pelo restante de sua vida. Os americanos ficaram tão revoltados com o que viram, ele lembrou posteriormente, que "deixamos de ver os alemães como pessoas naquele dia".

Mas uma lição de humanidade compartilhada aguardava na estrada para Tegernsee. Quando estava prestes a dar aos seus artilheiros a ordem para disparar, iniciando uma barragem de artilharia que certamente reduziria Tegernsee a escombros, meu pai ficou surpreso ao ver um oficial alemão se aproximar a pé carregando uma bandeira branca.

  • Arquivo pessoal

    O pai do autor do texto, Dick Dougherty, e o alemão Hannibal von Lüttichau (à direita)


O major Hannibal von Lüttichau era um comandante condecorado da divisão Panzer alemã que se recuperava no lotado hospital militar de Tegernsee, após uma operação no cérebro para remoção de fragmentos de uma granada de mão americana. Quando a unidade alemã abriu fogo, o major ferido deixou o hospital, confrontou o comandante e o persuadiu a cessar-fogo e retirar-se; talvez seu tamanho imponente (1,98 metro) e patente, a Cruz de Ferro por valor que ele usava em sua túnica e a formação militar prussiana tenham provado ser persuasivos.

Enquanto a unidade da SS se retirava, Von Lüttichau marchou desarmado para confrontar os americanos. Por meio de um intérprete, ele explicou de modo urgente que Tegernsee e todo o vale do lago eram um santuário para milhares de soldados alemães feridos e até 12 mil refugiados de guerra civis. Se os americanos tivessem respondido ao fogo, um número imenso de soldados e civis desarmados na cidade lotada certamente teria perecido. As tropas já tinham recuado para o sul, o major assegurou ao comandante da companhia de meu pai. Para provar, ele escoltou os americanos até a cidade - um ato que sem dúvida teria sido fatal caso ele estivesse errado.

Em consequência da bravura de Von Lüttichau, a bateria de meu pai não disparou, a cidade de Tegernsee não foi destruída pela barragem de artilharia, as vidas de um grande número de pessoas indefesas foram salvas e meu pai foi poupado de uma vida inteira de pesar.

Cinquenta anos depois, ele apreciou a oportunidade de expressar sua gratidão.

Reunidos em 1995 graças ao trabalho de detetive de um historiador amador na Alemanha e uma rede transatlântica improvável de conhecidos mútuos e parentes, meu pai, acompanhado de meu irmão e eu, visitou Von Lüttichau em sua casa perto de Heidelberg. Com um aspecto nobre, uma voz alta e uma cicatriz funda dividindo sua testa, ele nos recebeu com abraços de urso e nos convidou para entrar, para uma reunião ruidosa, regada a vinho e conhaque.

Os dois velhos inimigos se transformaram em amigos instantâneos. Falando um inglês fraco, um alemão franco e gesticulando, os dois trocaram histórias sobre suas vidas e experiências de guerra. A certa altura, enquanto Von Lüttichau contava uma história sobre o general alemão Erwin Rommel, a lendária Raposa do Deserto que o treinou como jovem oficial de tanque, ele agarrou rédeas invisíveis, sentou-se na beira de sua cadeira e galopou até finalmente gritarmos "Cavalaria!" como uma equipe de jogo de mímica.

 

  • Divulgação/ Turismo Tegernsee

    Tegernsee é uma cidade resort popular no pequeno lago alpino de mesmo nome na Baviera


Quando chegou a hora de partirmos, meu pai agradeceu seu anfitrião por tê-lo persuadido a não atirar. Eles se despediram calorosamente "até a próxima", mas meu pai posteriormente se perguntou se eles se veriam de novo.

De fato, isso não ocorreu. Von Lüttichau morreu sete anos depois, em 2002, aos 86 anos. Meu pai, que iniciou sua carreira de jornalista logo após o fim da guerra e ainda escrevia uma coluna popular, o Dick Dougherty Report, em Rochester, Nova York, meio século depois, morreu em novembro de 2008, aos 88 anos.

Em maio do ano passado, seis meses após a morte do meu pai, eu estava visitando amigos em Munique e então segui para o sul, para Tegernsee. Enquanto eu estava na curva na estrada onde meu pai e Von Lüttichau se encontraram pela primeira vez, uma arma disparou e uma pequena nuvem de fumaça flutuou sobre o lago - não um disparo de artilharia, mas sim um disparo sinalizando o início de uma regata.

Caminhando ao sul para Tegernsee, eu passei debaixo da torre barroca do imponente Hotel Bayern, visível acima da copa das árvores. Meu pai viu a mesma torre de ponta vermelha enquanto marchava para Tegernsee em 1945, encontrando uma cidade cheia de homens feridos e refugiados assustados, como Von Lüttichau disse.

 

 

  • Divulgação/ Turismo Tegernsee

    Visão de Tegernsee, na Baviera alemã


Nenhuma cicatriz de guerra é visível atualmente em Tegernsee. Nas ruas de pedras e praças públicas, casais em seus melhores trajes dominicais bávaros - as calças curtas com suspensórios e vestidos típicos - desfrutavam do sol de primavera. Uma banda com tuba e acordeão tocava no beer garden lotado da cervejaria municipal. Os namorados caminhavam de mãos dadas no passeio às margens do lago, e famílias remavam pelas águas do lago em barcos de madeira.

Não há placa comemorando o dia em que Von Lüttichau arriscou sua vida para apelar a um jovem oficial de artilharia americano para que não disparasse; quase certamente nenhuma das pessoas desfrutando o dia agradável de primavera às margens do lago lembra os nomes dos soldados e quão perto a guerra chegou de Tegernsee.

Mas a paz e a beleza impecável do lugar é um tributo duradouro aos dois inimigos que interromperam o combate para salvar vidas, salvar a cidade e não apenas preservar o futuro para todos nós que aqui estamos, mas também enriquecê-lo.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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