Viagem

Curtindo as ondas e fugindo da multidão em Todos Santos, no México

Janet Jarman/The New York Times
Cachorro observa surfista em Todos Santos, destino mexicano localizado na península Baja Imagem: Janet Jarman/The New York Times

DANIELLE PERGAMENT

New York Times Syndicate

04/07/2010 08h00

Era uma tarde ensolarada na praia Los Cerritos, nos arredores de Todos Santos, México. O ar estava quente e seco, cheirando a peixe frito. As crianças brincavam nas marolas da praia, enquanto seus pais permaneciam nas mesas de piquenique com tacos e cerveja gelada. Na água, uma dúzia de surfistas estava deitada em suas pranchas, aguardando a formação da próxima onda.

 

Com olhos semicerrados devido ao sol, Mario Becerril, um instrutor de surfe que vive nesta cidade há uma década, observava mais surfistas caminhando com suas pranchas debaixo do braço na direção da água.

 

“Quando me mudei para cá, esta praia era quase que completamente vazia”, ele disse. “Mas as pessoas estão descobrindo o que sempre soubemos. Esta é um lugar bom para pegar ondas.”

 

Alguns poucos quilômetros na direção do interior, o pequeno centro de terra de Todos Santos conta com um punhado de galerias sofisticadas, tendo como pano de fundo os prédios coloniais de tijolos.

 

“Este era um lugar difícil há 10 anos”, disse Michael Cope, proprietário da Galería de Todos Santos, uma galeria e restaurante asiático, enquanto nos sentávamos em seu pátio cercado por pesados entalhes em pedra, pinturas a óleo abstratas e pequenos fossos de fogueira. “Quando nos mudamos para cá nos anos 90, era difícil encontrar um pintor decente. Agora, colecionadores estrangeiros vêm aqui.”

 

Uma pequenina cidade próxima do extremo sul da península Baja, Todos Santos pode não saber ao certo se é mais um destino de surfe ou arte. Mas as centenas de estrangeiros que se mudaram para cá nas últimas duas décadas sabem o que não querem que ela seja. Isso seria Cabo San Lucas, a 80 quilômetros ao sul da ponta de Baja, com um porto cheio de navios de cruzeiro, uma praia cheia de resorts monstruosos e lojas de souvenires cheias de camisetas que prometem “Uma tequila, duas tequilas, três tequilas, chão”.

 

Quando se sentem amistosos, os moradores de Todos Santos dizem que vão para a cama quando os de Cabo estão saindo. Quando estão menos, os comentários não são tão graciosos. “Cabo é mais para pessoas que cortam as golas de suas camisetas Corona”, disse um garçom estrangeiro.

 

“Este é o México não estragado”, disse Lisa Harper, que é dona do hotel Rancho Pescadero, que abriu no ano passado a 10 minutos do centro de Todos Santos. “Ela é relativamente não desenvolvida e temos uma incrível cultura da água; é como Cabo era há 20 anos. Não resta mais nada para ser descoberto em Cabo. Aqui, nós estamos prestes a ser descobertos, mas ainda temos ótimos recantos intocados.”

 

Esses recantos começaram a atrair certo tipo de turista para a área – do tipo que vem passar alguns poucos dias procurando belas artes, surfar nas ondas e desfrutar do espírito de um México mais antigo, mais tradicional. O que os recém-chegados encontram é uma Santa Fé em miniatura, à beira-mar, completa com boa comida e hotéis elegantes.

 

Minha segunda noite na cidade no mês passado coincidiu com o início do sétimo Festival de Cinema de Todos Santos anual, um evento de quatro noites que exibiu 12 longas metragens e dezenas de curtas sobre a cultura latina ou de autoria de cineastas latinos.

 

“Em nosso primeiro ano, nós tivemos apenas quatro filmes e ninguém tinha ouvido falar de nós”, disse Silvia Perel, a diretora do festival. “Neste ano, nós temos casa cheia toda noite.”

 

O simples caminhar pela meia dúzia de quarteirões da cidade deixa claro que o festival estava em pleno andamento. Era uma noite quente e as calçadas estavam lotadas de pessoas conversando sobre o que tinham acabado de assistir, caminhando em pequenos grupos até o próximo local de exibição ou seguindo para o Todos Santos Inn para uma taça de vinho pós-filme.

  • Janet Jarman/The New York Times

    Feixe de luz sobre cerâmicas expostas em uma loja de Todos Santos, paraíso mexicano procurado por surfistas e artistas

No século 19, muito antes de se tornar um refúgio para turistas que não se consideram turistas, Todos Santos foi a capital do açúcar de Baja. Um século depois, ela se tornou um pequeno vilarejo tranquilo que atraiu a atenção de um pintor e escultor americano chamado Charles C. Stewart. Segundo o folclore local, no início dos anos 80 um recenseador bateu à porta de Stewart e, ao ver o seu trabalho, fez uma anotação de que Todos Santos era uma colônia de artistas –apesar de que só havia um. Foram necessárias mais algumas décadas, mas com o tempo Todos Santos se tornou discretamente um refúgio para o pessoal de arte.

 

Ao mesmo tempo, surfistas chegavam para escapar do crescente congestionamento em Cabo. E eles não se mostram muito dispostos a compartilhar todas as suas descobertas. Quando perguntei a Becerril em que praias ele prefere surfar quando não está lecionando, ele ficou quieto.

 

“É que elas ainda não são tão conhecidas e os moradores locais querem que permaneçam assim”, ele disse em tom de desculpas.

 

Os surfistas e os artistas não são os únicos migrantes na área. As tartarugas de couro, antes abundantes em Cabo San Lucas, mas expulsas pelos grandes resorts, começaram a buscar refúgio aqui. Mas elas precisam de ajuda.

 

“É frio demais para os filhotes aqui mais ao norte”, explicou Francesca Dvorak, a coordenadora de campo do Proyecto Todos Tortugueros. “Assim que fazem seu ninho, nós temos que transferir os ovos para um terreno mais quente, para que não congelem.”

 

O grupo construiu uma estufa na praia para proteger os filhotes, e agora as tartarugas se tornaram uma atração, assistidas enquanto avançam lentamente na praia para depositar seus ovos.

 

“Elas parecem utilitários esportivos gigantes saindo do oceano”, disse Dvorak.

 

Meu último dia em Todos Santos começou às 5 horas da manhã. Esses utilitários esportivos gigantes depositam seus ovos apenas à noite, de forma que lá estava eu: dormente até os ossos e percorrendo um trecho intocado de praia em um veículo off-road, com o Pacífico mal visível na escuridão, ao lado do meu guia, um homem robusto chamado German (a pronúncia era rer-món). Não havia tartarugas naquela manhã, mas German e eu vislumbramos outro ritual de antes do amanhecer: uma picape estacionou na praia e quatro surfistas desceram, pegando suas pranchas na traseira. Eles vieram protegidos pela escuridão para que turistas não descobrissem este lugar.

 

Por ora, Todos Santos parece ter o equilíbrio perfeito para o surfe: um fluxo constante de surfistas, ondas o ano todo e ótimos breaks, como playa los Cerritos, e (pedindo desculpas aos moradores locais) as mais vazias playa San Pedritos e playa La Pastora, ao norte da cidade.

 

“Antes você podia correr pelado pela praia que ninguém notaria”, disse Mark Waters, um americano que surfa em Todos Santos há 20 anos. “Vamos dizer que não dá mais para correr pelado.”

 

Talvez, mas ainda não há nenhuma grande competição de surfe, lojas de surfe ou representantes da Quiksilver em Todos Santos.

 

E os surfistas e artistas se tornaram grandes companheiros nesta cidade. Os primeiros conseguiram manter os preços baixos e as barracas de taco movimentadas (os melhores tacos de peixe são encontrados na Taqueria El Parguito, na esquina da Santos Degollado e Del Huerto), enquanto os outros atraíram os turistas mais sofisticados e novos hotéis.

 

Há poucos anos havia apenas dois lugares onde ficar hospedado: o Hotel California, um hotel mais galeria (sem relação com a canção dos Eagles), e o encantador e colonial Todos Santos Inn.

 

Então, em 2007, chegou o Hotelito, uma versão altamente colorida da arquitetura moderna mexicana. Em novembro de 2009 chegou o Harper’s Rancho Pescadero, um hotel sensual à beira-mar. Mais recentemente, chegou o Guaycura Boutique Hotel and Spa, cuja construção estava próxima do final em março. (Além de um spa e dos supostos preços altos, Guaycura está trazendo para Todos Santos seu primeiro elevador.)

 

Apesar das preocupações dos moradores locais, Todos Santos, uma cidade de um só semáforo, é pequena segundo qualquer medida.

 

“É uma cidadezinha no meio do nada”, disse Cope, o dono de galeria. “Mas agora é uma cidadezinha com 800 gringos.”

  • Janet Jarman/The New York Times

    Surfistas frequentam praias de Todos Santos como alternativa ao congestionamento crescente de Cabo San Lucas, destinos mexicanos separados a 1h30 de carro

Se você for

 

Como chegar lá

Voe para Cabo San Lucas e alugue um carro para dirigir por uma hora e meia ao norte até Todos Santos. Uma recente pesquisa online encontrou passagens de ida e volta com partida de Nova York pela American, United, Continental e Delta, com uma escala, a partir de cerca de US$ 300 para viagem em maio.

 

Onde ficar

A maioria dos lugares em Todos Santos fica em estradas de terra e não possui endereço formal. Os hotéis e restaurantes usam a sinalização de quilômetro da Rodovia 19, que é a principal que passa pela área.

 

Rancho Pescadero (KM 62; 52-1-612-135-5849 ou, nos Estados Unidos, 910-300-8891; ranchopescadero.com) é o hotel mais bonito da região e tem um restaurante fantástico, deybeds à beira-mar e 12 quartos a partir de US$ 185.

 

O colonial e charmoso Todos Santos Inn (Calle Legaspi 33, Todos Santos; 52-612-145-0040; todossantosinn.com), no centro da cidade, tem um bar aconchegante para drinques pós-jantar. Quartos duplos a partir de US$ 125.

 

Hotelito (52-612-145-0099; hotelitotodossantos.com) tem um bar animado e uma área de piscina moderna. Ele fica localizado na saída do centro da cidade. Peça informações para chegar lá. Quartos a partir de US$ 90.

 

Onde comer

Suki’s (Calle Hidalgo, entre Rangel e Cuauhtémoc; 52-612-145-0847) tem uma ótima seleção de pratos asiáticos – experimente o pad tailandês – e fica situado em um jardim exuberante, em patamares.

 

Café Santa Fé (Calle Centenario, 4; 52-612-145-0340), cujo dono vem de Milão, serve pratos italianos autênticos; a pizza marguerita e o espaguete são os destaques.

 

O que fazer

Galería de Todos Santos (Calle Juárez; 52-612-145-0500; galeriadetodossantos.com) possui a melhor coleção de arte mexicana da cidade.

 

Galería Logan (Calle Juárez y Morelos; 52-612-145-0151; jilllogan.com) exibe obras da artista estrangeira Jill Logan.

 

Gabo Galería (Calle Márquez de León; 52-612-145-0514; gaboartista@hotmail.com) fica aberta poucas horas por semana (telefone antes de ir) e exibe obras do artista mais renomado da região, Gabo.

 

O Proyecto Todos Tortugueros (52-612-145-0353; todostortugueros.org) levará os visitantes em patrulhas noturnas para ver as tartarugas.

 

Mario Becerril (52-612-142-6156; mariosurfschool.com) ensina surfe para todos os níveis de habilidade.

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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