Viagem

Utrecht, uma cidade holandesa que cultiva suas peculiaridades

JOEL WEICKGENANT

New York Times Syndicate *

01/05/2010 08h52

No palco no ACU, um bar e casa de show em Utrecht, Noam Cohen parou brevemente de se dirigir à plateia. “Há espaço demais!” gritou ao microfone Cohen, o vocalista da banda hardcore This Routine Is Hell, ao ver o espaço vazio entre a banda e o público, a maioria vestido de preto. Então ele fez algo a respeito.

  • Herman Wouters/The New York Times

    O Ekko, em Utrecht, na Holanda, é uma sala de apresentações que em uma noite pode contar com uma excelente banda underground, e, em outra, oferece música house


Apoiado pela batida agressiva da banda, ele pulou do palco gritando slogans, batendo nos ombros, se lançando aos ouvintes para trazê-los para mais perto do palco e para participarem mais do show.

A aproximação cara a cara funcionou no ACU, um bar cujos funcionários são voluntários que atendem a comunidade dos moradores ilegais; ele também é um dos melhores endereços de música underground nesta cidade, a cerca de meia hora de trem ao sul de Amsterdã. Em uma noite comum, tanto os membros da banda quanto o público são frequentadores regulares – um reflexo desta cidade modesta, às vezes isolada.

“Há uma verdadeira comunidade aqui – ela é separada da Holanda”, disse Boris Brouwer, o baterista da banda, nos bastidores após a apresentação.

“Muitas das pessoas que estavam aqui esta noite nós conhecemos, de rosto, pelo nome”, acrescentou Cohen. “São todos amigos.”

Utrecht é frequentemente sugerida como um passeio agradável de um dia com saída de sua cidade irmã, mas ela merece mais. Uma cidade universitária que é lar de artistas de todo tipo, é uma mistura de esforços culturais espontâneos, de cenas como a que foi vista no ACU até esforços mais tradicionais para explorar o passado medieval da cidade.

Novas ideias estão ganhando forma em prédios antigos apoiados em fundações ancestrais. Em uma tarde de sábado no final do ano passado, a iluminação holandesa característica fazia jogos de sombras na torre gótica de Domtoren – que domina o centro da cidade – cercada pela Domplein, a praça principal da cidade.

Da praça, o velho centro da cidade se abre em uma série de avenidas longas e adros que inevitavelmente levam todos ao Oudegracht (o velho canal), o centro da vida social de Utrecht. Olhe da rua para o canal e você verá barcos passando por varandas sob salgueiros.

Na maioria das cidades, uma rua com esse tipo de localização central pertenceria aos ricos que ditam moda. Mas o Oudegracht conseguiu manter um charme peculiar. A varanda do Kafe Belgie, por exemplo, é um dos melhores lugares da cidade para observar o desfile de pessoas pedalando e caminhando, enquanto se bebe uma cerveja Orval Trappist.

Descendo o quarteirão, o Tabou Haar en Jazz, uma combinação de barbearia e loja de discos, oferece uma extensa coleção de artistas de jazz holandeses. Mais ao sul ao longo do canal, onde, durante minha visita em um sábado, os temas urgentes de um sax barítono escapavam de algum estúdio solitário, virar na Lange Rozendaal leva às Zeven Steegjes (Sete Ruelas), um complexo idílico de pequenas casas geminadas em ruas estreitas, de paralelepípedos.

Por mais charmosa que seja a área, ela não é um lugar muito amistoso para alguém que esteja à procura de apartamento. Para os jovens artistas, muitos deles formados na academia de arte local, moradia sempre custou caro. Quando voltou de suas viagens no exterior, Monique Sep, que era uma estudante da academia em 1991, não conseguiu mais encontrar um apartamento. Seguindo o espírito da cidade, ela foi criativa.

“Eu consegui encontrar um ateliê, onde morei secretamente por 15 anos”, ela disse.

Sep atualmente é coordenadora de projeto da Sophie’s Kunst Projecten, uma organização que por mais de 20 anos ajuda os artistas locais a encontrarem moradia. Os esforços do grupo ajudaram a estimular o desenvolvimento da cena de arte de Utrecht – um dia de ateliês abertos em meados de novembro, por exemplo, exibe as obras de mais de 200 artistas locais. E instalar pessoas jovens inspiradas por toda a cidade – a Sophie’s administra cerca de 400 estúdios por toda a cidade – abriu novos bairros ao desenvolvimento criativo.

 

  • Herman Wouters/The New York Times

    Vista do canal em Utrecht, na Holanda


A missão é crucial em uma cidade onde os espaços para estúdios geralmente são temporários, as exposições frequentemente são improvisadas e depender de outros artistas é inevitável. Há quatro anos, com a ajuda da Sophie’s, Rikkert Paauw e Boudewijn Rijff alugaram um depósito fora do centro da cidade. Eles abriram o Vechtclub e o transformaram em um espaço eclético de música, que também conta com áreas de depósito e ensaio.

“É deste espaço que estávamos sentindo falta, um grande espaço para shows estranhos, underground”, disse Paauw.

O clube frequentemente exibe eventos “soundclash”, que fundem gêneros musicais contrastantes em um show. Um evento recente casou uma banda afro-funk – que contava com um grupo de acrobatas – com uma série de DJs brasileiros. Os artistas em Utrecht parecem concordar que o gosto pelo improviso pode render frutos.

“Nós temos que contar uns com os outros”, disse Maja Badnjevic, uma artista que trabalha em um estúdio no bairro de Wittevrouwen, no nordeste da cidade. “Você vai a todas as aberturas, você permanece conectada. É uma cidade de estudantes, com muita gente jovem.”

Devido a esse senso jovem de conexão e improviso, a vida noturna em Utrecht é vibrante e informal. Na segunda segunda-feira de cada mês, o ‘t Oude Pothuys, um espaço que parece uma gruta com um terraço para o cais e que possui velhas guitarras penduradas no teto, abre o microfone para a noite do estudante estrangeiro, que Eric Kerns, um natural de New Hampshire, Estados Unidos, iniciou há dez anos.

Kerns esperava colocar uma geração mais jovem de ouvintes holandeses em contato com o ideal holandês de café “luister” (literalmente “escute”), onde o público deve participar da música ao vivo. “Esses tempos foram esquecidos pelos jovens holandeses”, ele disse. “Eu estou tentando trazê-los de volta.”

Fora do centro, siga até além da margem norte do Oudegracht, onde os antigos fossos da cidade velha se encontram com o Rio Vecht. Aqui você encontrará o Ekko, uma sala de apresentações que em uma noite pode contar com uma excelente banda underground, como o Balmorhea do Texas, e em outra oferece música house com 200 batidas por minuto por um grupo local de DJs conhecido como 030303.

Caminhe para o leste até o aglomerado de casas geminadas art nouveau do bairro Vogelenbuurt, onde você encontrará o Cafe Averechts. Esse lugar aspira ser os velhos cafés luister do passado, recebendo artistas locais e de lugares distantes por trás de uma fachada discreta. Em uma noite de quinta-feira, o músico dinamarquês MC Hansen, recém-chegado de uma turnê pelos Estados Unidos, tocava em seu violão ritmos folk tradicionais.

Como o ACU, os funcionários do Averechts também são voluntários e ele tem lutado para manter sua missão. O local precisa manter sua música silenciosa o suficiente para os vizinhos e autoridades municipais, manter os retardatários do lado de dentro, oferecendo uma sala de espera na frente e um espaço para fumantes no fundo. Tudo para manter a música tocando.

 

Como chegar lá


Do aeroporto Schiphol de Amsterdã, a passagem de ida de trem até a Utrecht Centraal, a estação central de trem da cidade, custa 7,80 euros, ou cerca de US$ 10,50, com o euro cotado a US$ 1,34. (Se você já estiver em Amsterdã, tome o trem na Amsterdam Centraal: a passagem de ida custa 6,80 euros.)


Onde ficar

Situado em um hotel repleto de história, mas com interiores revestidos em design moderno, o Grand Hotel Karel V (Geertebolwerk 1; 31-30-233-7555; karelv.nl) é um bom modo de experimentar os lados contemporâneo e histórico de Utrecht. Quartos duplos a partir de 161 euros em março. Para uma estadia mais descontraída, há o Toeven Bed en Ontbijt (Weerdsingel Oostzijde 93; 31-651-275-255; www.toeven.nl), uma pousada com localização central, tranquila. Diárias a partir de 95 euros (estadia mínima de duas noites).

Onde comer e beber

O Florin (Nobelstraat 2-4; 31-30-231-9957; florinutrecht.nl), um bar e restaurante, oferece pratos internacionais básicos, sólidos. O Restaurant Deeg (Lange Nieuwstraat 71; 31-30-233-1104; restaurantdeeg.nl) é um ponto moderno e da moda; pense em mesas brancas com pimenteiros, todos em um layout preto e branco geometricamente preciso. Kafe Belgie (Oudegracht 196; 31-30-231-2666). MUSIC ACU (Voorstraat 71; 31-30-231-4590; acu.nl). Vechtclub (Brailledreef 9; 31-30-221-8206; vechtclub.nl). ‘t Oude Pothuys (Oudegracht 279; 31-30-231-8970; www.pothuys.nl). Ekko (Bermuurde Weerd WZ 3; 31-30-231-7457; ekko.nl). Cafe Averechts (Lijsterstraat 49; 31-30-271-0916; www.averechts.nl).

 

* Texto publicado originalmente em fevereiro de 2010

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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