Viagem

Uma visita de 45 minutos para ver as gemas do Prado

ANDREW FERREN

New York Times Syndicate

11/04/2010 07h03

Quanto tempo você precisa para visitar um museu? Alguns poderiam dizer que poderiam passar um dia inteiro nos grandes museus do mundo, como o Metropolitan Museum of Art em Nova York, o Louvre em Paris ou o Prado em Madri, sem nem mesmo chegar perto de apreciar todas suas riquezas.

Outros como os visitantes de museus com déficit de atenção, começam a ficar incomodados após mais ou menos meia hora, vendo correndo apenas alguns poucos favoritos e talvez dando uma espiada em uma nova exposição, antes de retornarem à luz do sol e se afastarem das multidões.

  • Matia­s Costa for The New York ­Times

    'Las Meninas', de Velázquez, está para o Prado como a 'Mona Lisa' está para o Louvre

Bem, e que tal aproximadamente 45 minutos? É realmente possível fazer justiça a um grande museu nesse espaço de tempo?

Surpreendentemente, um diretor de museu acha que sim: Gabriele Finaldi, o vice-diretor do Prado para conservação e pesquisa, a pessoa que costuma guiar as visitas de chefes de Estado e outros dignitários pela coleção notável de pinturas do museu.

“Quarenta e cinco minutos é um tempo perfeito para conhecer o Prado”, disse Finaldi.

E ele nem se intimidou quando lhe pedi que traçasse um itinerário para o Prado no qual entraria e sairia em menos de uma hora. Finaldi disse que a chave é estabelecer prioridades.

“Obviamente, você não verá toda a coleção, então deixe de lado algumas coisas –como a pintura inglesa e holandesa, para as quais existem coleções melhores em outros lugares”, ele explicou. O Prado abriga mais obras de Ticiano, Rubens, Velázques e Goya do que qualquer outro museu do mundo, ele disse, então esses artistas importantes não devem ser perdidos. “O Prado possui uma coleção especialmente sensual”, notou Finaldi. “Os reis da Espanha que a adquiriram adoravam as qualidades exuberantes da pintura veneziana, de forma que sempre vale a pena dedicar alguns poucos minutos às galerias, permitindo a si mesmo ser seduzido pela natureza sensual da coleção.”

Antes que qualquer sedução possa começar, é preciso entrar pela porta, e as filas para isso podem facilmente gastar seus 45 minutos. Felizmente, o site do Prado (www.museoprado.es) oferece ingressos com horário de entrada, apesar de terem que ser adquiridos com antecedência.

Imprima os ingressos, que contêm um código de barra, vá até a entrada Velázquez do museu (a entrada central, no meio da grande fachada do museu) e você estará dentro.

Um bônus: os ingressos online, que são vendidos por 7 euros, cerca de US$ 9,50, com o euro cotado a US$ 1,36, são 1 euro mais baratos do que os comprados na bilheteria. Para evitar gargalos e multidões, Finaldi sugere chegar quando o museu abre, às 9 horas da manhã. Também costuma haver uma calmaria de visitantes entre 15h30 e 17h30, horário em que muitos espanhóis almoçam.

A entrada é gratuita após as 18h e o museu fica aberto até às 20 na maioria dos dias. Ele fecha às segundas.

Desde a abertura de uma vasta nova ala em 2007, o Prado, com quase 200 anos, vem ocupando seu novo espaço por meio de uma reorganização e ampliação de suas exposições permanentes.

No ano passado, a renomada coleção de pinturas venezianas, incluindo muitas das 35 telas de Ticiano do museu, foi reinstalada em novas galerias. No final do ano, a coleção de pinturas e esculturas do século 19 do museu –que era exibida apenas em outros lugares (quando era exibida) nos últimos 30 anos– foi reapresentada em um conjunto de 12 galerias no prédio principal. Essas galerias do século 19 agora constituem a linha de chegada dos quase 1.000 anos de história da arte presentes no Prado.

Para comprimir tudo isso na minha recente visita de 45 minutos, Finaldi se concentrou em algumas obras-chave que destacam os pontos fortes e caráter único da principal galeria de quadros da Espanha. Pulando direto para a Renascença, ele destacou “Morte da Virgem” de Mantegna, de cerca de 1462. Pendurada na Galeria 56B no térreo, à esquerda da entrada do museu, a pequena e luminosa pintura em um painel –cercada por obras de Rafael, Fra Angelico e Botticelli– propicia um bom ponto de partida para apreciar a coleção de pintura renascentista italiana do Prado.

As pinturas flamengas também eram altamente prezadas pelos reis espanhóis, que governaram sobre grande parte dos Países Baixos. Por uma porta em frente a Mantegna, as galerias de pintura flamenga incluem obras-ícones, como a dolorosamente bela “Descida da Cruz”, de Rogier van der Weyden, de cerca de 1435 (na Galeria 58). Os detalhes delicadamente pintados, como as lágrimas translúcidas percorrendo os vários rostos e os potentes gestos de pesar, passam um retrato comovente de dor.

Três galerias depois, na sala 56A, se encontra o famoso tríptico de Hieronymus Bosch, “O Jardim das Delícias Terrenas” (cerca de 1500), uma descrição detalhada e altamente criativa da passagem do Jardim do Éden ao Inferno. Vire à direita nesta galeria e tome os elevadores do lado de fora da Galeria 55, para subir ao primeiro andar.

Vire à direita saindo do elevador e entre na espetacular galeria longa que forma a espinha do prédio. Revestida de pinturas de mestres da era de ouro espanhola, como José de Ribera e Bartolomé Esteban Murillo, este é definitivamente um ponto onde abordagem de Finaldi é enormemente recompensada.

No extremo norte da galeria, a nova mostra veneziana (Galerias 40 a 44) oferece uma seleção suntuosa de obras de Bellini, Ticiano e Tintoretto e fornece um curso instantâneo de ação dramática, com cores como joias e superfícies pintadas de forma exuberante que cativaram os primeiros governantes Habsburgos da Espanha, Carlos 5º e seu filho Felipe 2º. O mestre espanhol Velázquez (1599-1660) é incontestavelmente a atração principal da coleção do Prado.

Como pintor da corte do rei Felipe 4º, Velázquez pintou retratos da família real assim como cenas de importantes vitórias militares e alegorias clássicas, que proclamavam ousadamente a majestade e o requinte da corte espanhola. Entretanto, o tema de sua pintura mais amada, “Las Meninas”, continua sendo uma questão aberta.

Uma cena ostensivamente cotidiana dentro do palácio, a pintura apresenta camadas de significados que acadêmicos ainda debatem. Ela costumava ficar pendurada na Galeria 12 que parece uma basílica, mas até junho ficará exposta no centro da galeria longa. “Las Meninas” está para o Prado como a “Mona Lisa” está para o Louvre. É muito improvável que ela viaje até você, então não a perca aqui.

O outro grande pilar da arte espanhola é Goya (1746-1828). Siga até o extremo sul da Galeria Central, onde os retratos do rei Carlos 4º por Goya dominam o pequeno pavilhão octogonal (Galeria 32). Grande parte do flanco sul do museu é dedicado a Goya, com 125 obras atualmente em exposição, mas Finaldi costuma selecionar duas grandes telas, retratando um levante em Madri contra as forças de Napoleão, para mostrar aos visitantes.

Chamadas simplesmente de “Dois de maio de 1808” e “Três de maio de 1808”, as obras retratam um combate brutal de rua em um dia, e as repercussões ainda mais brutais, com um pelotão de fuzilamento, no outro. Emblemas tanto da história espanhola quanto da arte ocidental, as pinturas revelam amplamente a técnica inigualável de Goya como mestre da ação dramática, texturas e efeitos climáticos, atributos que unem grande parte da coleção do Prado.

Passe pelo retrato por Goya do rei Fernando 7º, o homem que abriu o Prado como um museu público em 1819, e entre nas galerias do século 19 do museu, onde obras de Federico de Madrazo, Joaquín Sorolla e Mariano Fortuny preenchem as lacunas do que aconteceu na pintura espanhola entre Goya e Picasso.

Essas galerias levam você à porta pela qual você entrou no museu –vire à direita e você encontrará uma nova loja e café, ou vire à esquerda e volte à rua, tendo visto grande parte do Prado e ainda restando um dia inteiro à frente para você.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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