Viagem

A arte brota nas lojas fechadas de Sarajevo

YASMINE RYAN

New York Times Syndicate

Em uma noite recente de outono em Sarajevo, um público de entusiastas por arte bebia drinques enquanto um dos artistas e curadores mais respeitados da Bósnia, Jusuf Hadzifejzovic, iniciava seus comentários na abertura de uma nova exposição. De repente, as luzes se apagaram, mas ele continuou falando no escuro, inabalado. Minutos depois, uma faxineira empurrava calmamente seu carrinho repleto de rodos e detergentes em meio à platéia. Os comentários prosseguiam.

Essa é uma abertura típica em Sarajevo, a capital da Bósnia, onde a cena de arte contemporânea está em perpétua colisão com a vida cotidiana. Mas de alguma forma, em meio ao caos da cidade, a arte sobrevive.
  • Chris Warde­-Jone­s/The New York Times

    Lejla Cehaj­ic e a peça "Eve in the Garde­n", parte do projeto Sub Dokum­enta no shopping Skend­erija, em Sarajevo


"Todas essas coisas, eu chamo de 'fervilhando de realidade'", disse Hadzifejzovic posteriormente. Ele vê as dificuldades da cena criativa de Sarajevo como uma arte viva: "A coisa toda para mim é como se fosse uma obra".

A galeria que ele abriu há três anos, a Charlama Depot, fica situada no meio do Centar Skenderija, um triste shopping center subterrâneo que já viu dias melhores. Apesar do shopping já ter sido um símbolo de prosperidade durante os tempos da antiga Iugoslávia -os complexos esportivos acima do shopping já receberam as Olimpíadas de Inverno de 1984- muitas de suas lojas fecharam por causa da recessão econômica.

Hadzifejzovic viu uma oportunidade no crescente número de lojas vazias, persuadindo o diretor do shopping a emprestar para artistas cerca de 40 delas, gratuitamente, espalhadas entre os salões de manicure e butiques de noivas restantes. Desde outubro, o shopping começou a expor a obra de artistas como parte da exposição Sub Dokumenta de Hadzifejzovic. O projeto, que deve envolver artistas da Itália até locais tão distantes quanto a Nova Zelândia, terá sua inauguração oficial em março; a exposição prosseguirá até o final do ano.

A chance de ver arte contemporânea dos Bálcãs em tamanha escala é cada vez mais rara na cidade. A Ars Aevi, uma coleção de arte contemporânea de qualidade mundial, pode atualmente ser vista apenas por agendamento no Centar Skenderija; um novo prédio, de autoria do arquiteto Renzo Piano, para abrigar a coleção deveria ter sido inaugurado em 2009, mas aguarda financiamento. E com a falta de apoio do governo bósnio e a dificuldade em encontrar apoio financeiro individual, os jovens artistas locais avançam com dificuldade de projeto a projeto, de espaço a espaço.

Mas existem outros espaços de arte. Pierre Courtin, um curador nascido na França, dirige há cinco anos a Galerija 10m2 e sua recém-inaugurada galeria gêmea, a Duplex/10m2. Como um estudante de intercâmbio visitando a Bósnia, Courtin ficou impressionado com o fato de que não havia nenhum lugar para seus colegas estudantes de arte exporem suas obras. Ele encontrou uma minúscula loja para alugar e, com uma subvenção da embaixada da França, ele e sua parceira, Claire Dupont, abriram a Galerija. Escondida em uma rua de fundo de outro shopping center, este espaço é ainda menor do que seu nome sugere -mais um espaço para experimentação do que uma galeria de fato.

Courtin há muito estava de olho no prédio vizinho maior, de dois andares, que estava vazio desde a guerra. Ele arrecadou dinheiro junto a amigos em Paris e finalmente conseguiu abrir a Duplex em fevereiro do ano passado. Enquanto a Galerija se tornou um degrau essencial para artistas menos conhecidos, "a Duplex é mais para artistas nos quais tenho completa confiança e estou convencido de seu trabalho", disse Courtin. De design minimalista, a Duplex é intencionalmente genérica; sua identidade está em seu conteúdo e não em sua arquitetura.

A Duplex e galerias como ela não estão apenas preenchendo um vácuo para os artistas locais, elas estão substituindo a arte pública que em grande parte desapareceu após o período pós-guerra. Daniel Premec, um jovem escultor bósnio que está participando do Sub Dokumenta (seu espaço de exposição fica logo depois do Charlama Depot de Hadzifejzovic) e de futuras exposições na Duplex, disse que muitos monumentos públicos foram derrubados por motivos políticos após a separação da Iugoslávia. "Nossa cidade é muito pobre em obras de arte públicas", ele disse. Ele acrescentou que há pouca consulta aos artistas locais sobre o punhado de novos monumentos erguidos para substituí-las.

Mas há exceções, incluindo duas peças na área gramada entre o Museu de Sarajevo e o Museu Nacional da Bósnia-Herzegóvina, ambas de artistas bósnios proeminentes que atualmente vivem no exterior. Um simples bloco de pedra de autoria de Braco Dimitrijevic conta com uma inscrição enigmática em inglês: "Sob esta pedra há um monumento às vítimas da guerra e da Guerra Fria". Perto dali, uma escultura warholesca de Nebojsa Seric-Shoba assume a forma de uma lata gigante de carne em conserva -uma crítica ambivalente à ajuda internacional.

Estas peças fazem parte de um projeto do Centro para as Artes Contemporâneas de Sarajevo, uma organização que tem trabalhado para fomentar a arte contemporânea na Bósnia desde o final da guerra. Por meio das esculturas, "nós abordamos essa ideia do apagar do passado", disse Asja Hafner, a coordenadora e editora do programa do centro. Ela acrescentou que há um contínuo interesse por esta abordagem para a memória coletiva por todas as regiões dos Bálcãs, assim como em outros países do Leste Europeu.

Artistas selecionados em breve serão convidados para interagir com o passado de uma forma totalmente nova em um projeto mais ambicioso, planejado para 2011, a Bienal de Arte Contemporânea, D-O ARK Underground (www.bijenale.ba). Hadzifejzovic é um dos três curadores do evento.

O local do evento, perto da cidade de Konjic, a uma viagem de trem de cerca de uma hora e meia de Sarajevo, faz referência direta ao passado militarista da cidade: um bunker que foi construído para proteger o ditador comunista Josip Broz Tito, juntamente com sua família e camaradas mais próximos, em caso de uma guerra nuclear. O abrigo permaneceu em segredo até recentemente e geralmente visitas só são possíveis com a autorização do Ministério da Defesa da Bósnia. Artistas locais e internacionais produzirão suas obras no local, dentro do labirinto colossal de salas, a mais de 275 metros de profundidade.

A bienal, que está sendo organizada em cooperação com o Ministério da Cultura sérvio e com várias organizações de governo bósnias, foi classificada como um dos futuros projetos culturais europeus mais importantes pelo Conselho da Europa. Mas como ainda não surgiu a verba para o projeto, ele, como grande parte da cena de arte em Sarajevo, ainda é apenas um plano.

Se você for

Charlama Depot Gallery, Centar Skenderija, Terezije; (387-33) 203-178. Aberta das 11h às 20h, de segunda a sábado (a partir das 9h para a exposição Sub Dokumenta).

Galerija 10m2 e Duplex/10m2, Stakleni Grad, Ferhadija 15; (387-63) 952-197; galerija10m2sarajevo.unblog.fr e www.duplex10m2.com. Ambas as galerias ficam abertas das 14h às 19h (fecham às quartas e domingos).

Centro para as Artes Contemporâneas de Sarajevo, Obala Kulina Bana 22; (387-33) 665-304; www.scca.ba e www.pro.ba; visitas apenas por agendamento.

Obala Meeting Point, Hamdije Kresevljakovica 13, Skenderija; (387-33) 668-186. Um café onde frequentemente ocorrem miniexposições; vídeos de artistas às vezes são exibidos no cinema adjacente.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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