Viagem

Serra Gaúcha festeja a colheita da uva e a imigração italiana

CRIS GUTKOSKI

Colaboração para o UOL Viagem

10/02/2010 07h00

Tem merendim, colazione, pisa, passeio de tuc-tuc, corrida dos garrafonistas - os garrafões são de vinho. Na Serra Gaúcha, a festa da colheita das uvas prossegue até março e dispõe de uma língua própria para apresentar as principais atrações. É a língua dos imigrantes italianos e seus descendentes, que desembarcaram na região em 1875 e, ao longo do século 20, transformaram Bento Gonçalves e cidades vizinhas na principal região produtora de vinhos, espumantes e sucos de uva do país. A vindima, ou colheita, é uma época especialmente alegre e aromática, em que o turista pode percorrer os milhares de parreirais carregados de cachos, morro acima e morro abaixo, e ali mesmo degustar os produtos locais.
  • Cris Gutkoski/UOL

    Uvas viníferas (para a produção de vinhos) na vinícola Larentis, em Bento Gonçalves

Em 2010, vinícolas, pousadas, restaurantes e agências de receptivo divulgaram uma vasta programação para aproximar os visitantes da colheita das uvas e da arte de amar o vinho. Até 28 de fevereiro, a Salton realiza o Merendim da Vindima, um lanche com pão, salame, geléia e suco sob os parreirais, seguido de visita guiada à vinícola e curso de degustação. Aos sábados, até 13 de março, a Casa Valduga celebra a vindima com o colazione (café-da-manhã italiano), a sabrage (abertura das garrafas de espumantes com golpes de espada), almoços e jantares harmonizados com vinhos e ainda a divertida pisa, em que os grãos de uva são esmagados à moda antiga, com os pés descalços.

Na Pousada e Vinícola Don Giovanni, os hóspedes são convidados a colher os cachos no parreiral. Em 13 de março, a Miolo promove o Wine Day, com colheita, degustação de mostos, visita às etapas de engarrafamento e rotulagem. Às sextas e sábados, até 28 de março, o Hotel e Spa do Vinho Caudalie faz almoços e jantares temáticos, também com passeio aos parreirais.

Em pleno Carnaval, nos dias 13 e 14 de fevereiro, os pavilhões da Festa da Colheita, no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves, se abrem para uma festança enogastronômica italianíssima. Em vez de máscaras, as cabeças se cobrem com chapéus de palha, como fazem os agricultores. No lugar de carros alegóricos, moradores e visitantes são transportados até as videiras no tuc-tuc, uma carreta motorizada que vai fazendo tuc-tuc-tuc-tuc-tuc durante o trajeto, sacudindo os passageiros em bancos que são simples ripas de madeira. Dependendo das curvas, das subidas e descidas do passeio, equivale a turismo de aventura. E ainda mais irreverente, embalada em risadas e brincadeiras, é a corrida dos garrafonistas, com largada em frente à Igreja de São Valentim. Para participar, basta estar vestido de imigrante italiano: calças compridas e camisas de xadrez para os homens, vestidos floridos para as mulheres, chapéus de palha para todos.

Em sua sexta edição, a Festa da Colheita no Vale do Rio das Antas antecipa em poucos dias a Festa Nacional da Uva, promovida há 80 anos, desde 1931, em Caxias do Sul. Desta vez, ela tem como tema Nos Trilhos da História, a Estação da Colheita, e se realiza de 18 de fevereiro a 7 de março, todos os dias, com desfiles, exposição de uvas e vinhos, shows de música, muitas fotos com as rainhas e princesas da festa, e eventos de gastronomia.

Somando uvas comuns e viníferas, a safra gaúcha de 2009 colheu 534 milhões de quilos de uva, ou 100 milhões de quilos a menos do que em 2008, segundo relatório do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho). Na colheita de 2010, os produtores lamentam a quebra de cerca de 30% na produção, provocada por fatores como o excesso de chuva e a falta de sol dos últimos meses, combinação que prejudica a quantidade do açúcar da uva e, por conseqüência, a qualidade da safra. Em relação à produção vinícola no Rio Grande do Sul no ano de 2008, o Ibravin registra 47,33 milhões de litros de vinhos finos, e 287,44 milhões de litros de vinhos comuns.

O Vale dos Vinhedos, formado por dezenas de vinícolas que ocupam terras de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, foi a primeira região do Brasil a obter o Selo de Indicação de Procedência de seus produtos, em 2007. O selo de controle, numerado em cada gargalo de garrafa, reconhece a qualidade de uma arte mais do que centenária na região. No livro "Vale dos Vinhedos: História, Vinho e Vida", a pesquisadora Maria Stefani Dalcin escreve que no distante ano de 1883 já existia uma pequena produção de vinho na Linha Leopoldina, habitada por famílias italianas. "Para estes imigrantes, ainda na terra natal o vinho fazia parte de suas vidas, da sua cultura. Acostumados, em seus países, a tomar vinho todos os dias, viviam tristes e amargurados porque não sabiam viver sem ele".
  • Cris Gutkoski/UOL

    Salame, copa, queijo, pão, uva e geléia são servidos na sombra dos parreirais, na vinícola Salton


Na época colorida da colheita, de janeiro a março de cada ano, cheia de verdes e roxos ondulando sobre o acidentado relevo, o que uma viagem à Serra Gaúcha proporciona é justamente o contato com pessoas apaixonadas pela arte da fabricação do vinho, que não conseguem viver sem a alegria que um cálice de tinto ou branco proporciona. A comida e a bebida são sempre uma celebração, desde o tempo em que eram escassas. Pode ser um repasto básico, como o que atraiu centenas de moradores para o filó festivo do Hotel Villa Michelon, na noite de Abertura da Vindima, em 30 de janeiro. Mas bastam alguns minutos para o visitante puxar pela memória gustativa e redefinir a experiência: que pão, que salame, que suco!

Distante 120 km de Porto Alegre ou 110 km de Gramado, Bento Gonçalves é uma cidade pacata de cerca de 100 mil habitantes, que concentra bares e restaurantes no entorno dos principais hotéis e pousadas, no Centro. Distantes do Centro, junto aos parreirais e vinícolas, há hospedagens com estruturas variadas de conforto, em que o luxo pode estar num serviço de spa, num jantar de alta gastronomia ou numa caminhada sob os parreirais ao nascer do sol.

No Centro, vale a pena visitar a Igreja de São Bento que, como o pórtico da cidade, tem a forma de uma pipa gigantesca de vinho. O ousado projeto, apresentado em 1982, é de uma arquiteta, Francesca Fenóchio. Lá dentro, quatro andares de coloridos vitrais apresentam a Via Sacra e também cenas bíblicas que fazem referência ao trigo, ao peixe, ao cálice de vinho. O altar tem formato de barricas de carvalho. Ao lado, uma pipa de aço inox, com torneira, informa em letras azuis que o conteúdo é de água benta. Mira-se o centro do teto da igreja e o que está lá? Um sacarrolhas? Não, um vitral com um cacho de uvas rosadas, os grãos gordos, redondos.

Aproveite também para fazer um curso de degustação, antes de ir às compras dos merlots, cabernets, tannats, chardonnays, marselans, espumantes. Enólogos jovens ou veteranos explicam que a apreciação de um bom vinho tem três fases: a visual, para admirar a cor, a olfativa e, enfim, a fase do gole, que deve ser um gole de bom tamanho, para que o líquido percorra todas as partes da língua, aguçando a percepção do gosto. E para colher ou degustar os cachos nas videiras, a pé ou de tuc-tuc, leve repelente de insetos. Depois de tantas décadas de produção de uva e vinho, também os mosquitos da Serra Gaúcha perceberam a delícia que é se alimentar na sombra dos parreirais.

SERVIÇOS

Bento Gonçalves - Secretaria Municipal de Turismo
www.turismobento.com.br

Vale dos Vinhedos
www.valedosvinhedos.com.br

Festa Nacional da Uva de Caxias do Sul
www.festanacionaldauva.com.br

Valle Verde Turismo Receptivo
www.valleverde.com.br

Terra Bela Viagens e Turismo
www.terrabela.com.br

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