Alto Alentejo, pouco badalado, mas não por muito tempo

ROBERT GOFF

New York Times Syndicate

Em 2002, Doug Smith estava entediado. O Korakia Pensione, seu hotel butique ao estilo mediterrâneo em Palm Springs, Califórnia, que atraia celebridades como Annie Leibovitz, Gore Vidal e Brice Marden, praticamente se administrava sozinho. Smith estava à procura de um novo projeto - um imóvel necessitando de reforma em um local exótico - onde pudesse exibir seu estilo afiado e se estabelecer em um modo de vida de tranquilidade rústica com sua nova esposa, Josie.

Ele revirou listagens de imóveis em grandes propriedades em Yucatán e casas de capitães dos mares na ilha grega de Simi. Mas então, em um certo verão enquanto visitava fazendas na região de Extremadura da Espanha, Smith foi ao Alto Alentejo, uma região de Portugal da qual nunca ouviu falar, e se viu arrebatado pela paisagem, comida excelente, um estilo de vida perdido no tempo e o custo de vida relativamente barato.
  • João Pedro Marnoto for The New York Times

    Castelo de Marvão, em Mourão, é uma dos locais mais bonitos do Alto Alentejo


Após quatro dias inspecionando casas de fazenda e celeiros em pedaços, ele comprou uma fazenda do século 18 de 52 hectares, nos arredores do vilarejo de Campo Maior. "Em comparação à Espanha, este lugar era ainda mais charmoso, belo e cerca de um terço mais barato", disse Smith. "Velhos usando bonés e calças de veludo côtelé cumprimentam os estranhos com o chapéu."

Nos últimos sete anos, Smith, que não é mais dono do Korakia Pensione, tem assistido o Alto Alentejo, uma província de fronteira coberta de carvalhos e oliveiras no sudeste de Portugal, despontar como um lugar atrasado cheio de estilo. O nome da região vem de "Além do Tejo", o rio que passa por Lisboa. Uma nova estrada agora parte do leste de Lisboa e em uma hora você está admirando os vinhedos, uma ocasional cidade de casas brancas, um castelo e as planícies levemente arredondas.

O jetset internacional sofisticado começou a comprar propriedades na área, transformando o Alto Alentejo em seu pequeno playground europeu. Agora, entre lares elegantes há um punhado de hotéis-butique, vinícolas e restaurantes casuais, porém sofisticados.

Até recentemente, o Alto Alentejo era um enclave do dinheiro velho de Lisboa, interessado em produzir vinho, criar a raça local de cavalos Alter-Real e comungar com sua versão do interior. Mas eles apreciaram a vinda dos recém-chegados. "Nós queremos contar ao mundo sobre esta parte de Portugal", disse João Pinto Ribeiro, o presidente do Palácio do Correio Velho, uma das principais casas de leilão de arte de Portugal, que é dono de uma fazenda na região há mais de 20 anos. "Este é um lugar pobre e pode se beneficiar de mais visitantes."

Ele conheceu Doug e Josie Smith enquanto conduzia seu cavalo e carroça por uma estrada de terra entre suas respectivas casas, com uma amizade nascendo em torno dos principais vícios do Alentejo: vinho e comida.

Uma noitada no Alentejo é um jantar na casa de alguém. Assim como a Provença e a Toscana, a comida e o vinho unem famílias e estranhos. Em uma noite quente de julho, Ribeiro se preparou para servir uma de suas especialidades, bacalhau, deslizando uma longa faca pelo que parecia um monte de sal grosso em uma assadeira de barro. Ele usou cuidadosamente o lado da lâmina para abrir a pele e o sal incrustado para impedi-lo de se espalhar pela carne gigante abaixo.

"Se você fizer isso corretamente, você pode até mesmo precisar adicionar um pouco de sal para o sabor", ele disse. O peixe era o prato principal do jantar de Ribeiro, que ocorreu ao lado da piscina, com vista para o lago da barragem do Caia, um centro para observadores de pássaros. Entre os convidados estavam os Smiths; uma família local de proprietários de terras; a esposa de Ribeiro, Ana, e o irmão, José, um fotógrafo; e um cirurgião visitante da Louisiana.

De dia a melhor forma de visitar a região é de carro. Comece em Estremoz, uma das principais cidades do Alto Alentejo, com uma população de 15 mil. Sede do reinado de Dom Dinis no século 14, Estremoz permanece grande, mesmo que aparentemente despojada de pessoas. Como muitas cidades no Alentejo, as ruas e prédios são revestidos em mármore, um recurso local abundante, que resulta em um efeito geral de tudo parecer branco e, em dias ensolarados, radiante.

Aos sábados, a praça principal da cidade, a Rossio Marquês de Pombal, ganha vida com uma feira matinal onde os produtores rurais vendem queijo fresco, vinho, artesanato local e bijuterias. As ruas estreitas e escadarias levam aos baluartes em forma de estrelas nas muralhas do castelo.
  • João Pedro Marnoto for The New York Times

    Aos sábados, em Estremoz, no Alto Alentejo, a praça Rossio Marquês de Pombal ganha vida com uma feira matinal


No centro da propriedade do castelo, um palácio do século 18 agora abriga um dos melhores hotéis da região, a Pousada Rainha Santa Isabel. O hotel, como muitas pousadas (basicamente uma rede de pousadas de luxo patrocinada pelo governo em prédios históricos), é a epítome do luxo anacrônico. Imagine o Plaza em Nova York ou o Ritz em Paris em, digamos, 1984 e você terá uma ideia. Garçons em smokings amarrotados servem drinques aos hóspedes no terraço com vista para a cidade.

Para um ambiente ligeiramente mais badalado, cheio das pessoas bonitas de Lisboa, vá à dilapidada cidade de Crato, onde o Convento da Flor da Rosa leva arte contemporânea e decoração luzidia a um castelo do século 14, posteriormente um convento. Na pousada semelhante a um castelo em uma tarde ensolarada de sexta-feira, todos os olhos estavam voltados para a piscina moderna com borda infinita, repleta de pessoas tomando sol e bebendo vinho branco feito da uva arinto.

Não há falta de locais históricos no Alto Alentejo e um dos mais belos é Marvão, uma cidade murada que fica na ponta estreita de um rochedo, com vista para as planícies acidentadas que adentram a Espanha. Marvão é lar de casas brancas perfeitamente restauradas e de um castelo construído no século 9, como uma fortificação moura por Ibn Marwan.

Outro destaque histórico é a Capela dos Ossos, uma capela de mármore e pedra construída em 1766 com floreios neogóticos, na pequena e movimentada cidade de Campo Maior. O interior da capela, uma versão menor da Capela dos Ossos em Évora, está coberto de ossos humanos, crânios e dois esqueletos completos.

O Alto Alentejo também oferece tesouros naturais. Em particular, o lago da barragem do Caia parece um oásis em uma savana do Saara, com colinas com arbustos e água cristalina não perturbada por barcos. O lago, adjacente à propriedade de Ribeiro, é um refúgio para aves raras como a águia-caçadeira, a abetarda-comum e a águia-imperial-ibérica. Os visitantes podem ficar na Casa da Ermida de Santa Catarina, uma pousada butique de sete quartos que fica na ponta de uma península na propriedade privada Rocha.

Mas para os epicureus que seguiram ao Alentejo nos últimos anos, o principal atrativo da região é sua cozinha. Seus elementos básicos são trigo, azeite de oliva, carne de porco e certos peixes, como o bacalhau, que os moradores locais fritam, assam ou deixam infundidos em alho e ervas em várias formas gloriosas. Cordeiro e pato fazem aparições sedutoras.

Os queijos aromáticos variam do semiduro queijo de Nisa, feito de leite de ovelha, até o semimole e fragrante Queijo da Serra. Os vinhos regionais podem ser sofisticados e interessantes, desde os tintos robustos da Quinta do Carmo, de propriedade conjunta da Domaines Barons de Rothschild (Lafite), aos vinhos mais leves feitos da uva trincadeira local.

Um exemplo perfeito da cozinha gastro-rústica do Alentejo é o Restaurante a Maria, um pequeno estabelecimento na pacata Alandroal, onde a proprietária e a chef Maria Monteiro serve pratos locais excelentes em uma sala decorada como uma praça de aldeia. Entre os clássicos estão queijo de ovelha, pato em molho de vinho tinto e migas à Alentejana (carne de porco frita com pão frito em gordura de porco). Os prêmios culinários ocupam as paredes próximas da entrada e há uma seriedade por parte dos clientes que está de acordo com a qualidade da comida.

Como os pratos de Maria Monteiro, muitos dos charmes do Velho Mundo do Alto Alentejo são servidos de modo simples e despretensioso. Tudo isso poderá mudar quando, além da nova estrada de Lisboa, um trem de alta velocidade entre Madri e Lisboa deverá começar a operar em 2012, com uma parada em Elvas, tornando o Alto Alentejo ainda mais acessível aos turistas e compradores de casas de fim de semana de todo o sudoeste da Europa.

Mas, por ora, é um local descomplicado, barato e que aprecia os visitantes. "Esta é a Toscana há 30 anos", disse Smith, o ex-dono de hotel.
  • João Pedro Marnoto for The New York Times

    Casas e igrejas da cidade de Castelo de Vide, na região do Alto Alentejo, em Portugal


Antes palácios, agora hotéis

Como chegar
O grande aeroporto mais próximo fica em Lisboa. A viagem de carro do aeroporto de Lisboa até Estremoz, pela nova estrada, leva cerca de duas horas.

Onde ficar
Situada em um antigo palácio real, a Pousada Rainha Santa Isabel em Estremoz (Largo de D. Diniz; 351-268-332-075; www.pousadas.pt) oferece camas com dossel, banheiros de mármore e quartos com pé direito alto e vistas. Diárias a partir de 90 euros.

Nos arredores de Crato, a Pousada Flor da Rosa (Mosteiro da Flor da Rosa; 351-245-997-210; www.pousadas.pt) atrai uma clientela elegante com quartos a partir de 102 euros.

Em Elvas, o Hotel São João de Deus (Largo S. João de Deus, 1; 351-268-661-194; www.hotelsaojoaodeus.net) é elegantemente decorado e conta com uma pequena piscina. Quartos a partir de 70 euros.

Entre Estremoz e Redondo, o Convento de São Paulo (351-266-989-160; www.hotelconventospaulo.com) é um antigo convento no alto da colina, com duas piscinas e trabalhos em azulejos deslumbrantes. Quartos a partir de 90 euros.

Onde comer
O Zona Verde (Largo Dragões Olivença, 86; 351-268-324-701), em Estremoz, serve pratos regionais como porco assado e carré de cordeiro com batatas. O jantar, incluindo vinho, sai por cerca de 25 euros por pessoa.

O Restaurante Casa do Povo (Rua de Cima, Marvão; 351-245-993-160) serve pratos tradicionais em um terraço com vista do vale. O açorda à Alenteja, um pão com alho e sopa de coentro, é delicioso. Almoço para dois, sem vinho, sai por cerca de 25 euros.

O Restaurante a Maria (Rua João de Deus, 12; 351-268-431-143), em Alandroal, é um restaurante tradicional venerado. Jantar para dois, com vinho, sai por cerca de 80 euros.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos