Experimente a adrenalina de andar pela Rota da Morte de bicicleta

EDUARDO VESSONI

Colaboração para o UOL Viagem *

Tráfego intenso, excesso de caminhões e curvas sinuosas. Tem gente que faz de tudo para evitar esse cenário, comum em muitas estradas brasileiras, durante os deslocamentos entre cidades. Mas na Bolívia, o perigo virou produto turístico e atrai viajantes que pagam para acrescentar alta dose de adrenalina em sua viagem: são os ciclistas (profissionais ou não) que serpenteiam as vertiginosas curvas da Rota da Morte, a estrada mais perigosa do mundo.

  • Eduardo Vessoni/UOL

    Ciclista dá suas primeiras pedaladas em trecho asfaltado da famosa Estrada da Morte, na Bolívia

Para encarar o Camino Yungas, a via que une La Paz a Coroico, dois requisitos são fundamentais: saber equilibrar-se sobre uma magrela e ter muito espírito aventureiro para 'despencar', verticalmente, os 3.400 metros que separam as duas cidades, e a uma velocidade que chega aos 50 quilômetros por hora. Do resto, a sorte e a natureza se encarregam.

O circuito começa em La Cumbre, aos pés da montanha Huyaina Potosí, a 11 km da caótica La Paz. Ali, rodeado pela beleza árida da região, o aventureiro recebe as instruções de como comportar-se diante das curvas que rasgam abismos profundos, faz alguns ensaios (ainda em terreno seguro) e, em poucos minutos, lança as duas rodas sobre o cimento quente de uma das rodovias mais cobiçadas por viajantes aventureiros (e 'malucos').

O frio não vem apenas da barriga do aventureiro, mas também do lado de fora. Uma das curiosidades desse circuito é a mudança de climas e de temperatura ao longo da arriscada e radical viagem pela região. Os ciclistas começam a aventura no altiplano boliviano para ganhar, logo adiante, um terreno esverdeado com cheiro de Amazônia, conhecido como Yungas, a pré-selva amazônica.

Detalhes da Rota da Morte

O título de 'estrada mais perigosa do mundo' foi dado pelo BID, em 1995
O circuito ciclístico começa em La Cumbre, a 11 km da caótica La Paz e a 4.700 metros sobre o nível do mar, e termina em Yolosa, a cinco quilômetros de Coroico e a 1.185 sobre o nível do mar
São 3.400 metros de descida vertical entre as duas cidades do trajeto
A viagem em bicicleta até Coroico dura, aproximadamente, quatro horas
O trajeto tem uma extensão de 66 quilômetros
A viagem está dividida em duas etapas bem definidas: a primeira parte ocorre ainda em área asfaltada, onde os ciclistas dividem espaço com caminhões, ônibus e carros; e a segunda, em terreno irregular, já no trecho da estrada da morte utilizado apenas para fins turísticos
O ciclista conta com, pelo menos, 12 paradas estratégicas para descanso, revisão das bicicletas e para registrar alguns cenários da bela paisagem
As mudanças climáticas são sentidas a partir da sétima parada, quando ocorre uma mudança brusca de temperatura. O aventureiro deixa o altiplano para ganhar terreno quase amazônico
Cada grupo de ciclistas é acompanhado por três profissionais, entre guias e motoristas que se comunicam por rádio em casos de acidentes e para a atualização de informações
O perigo existe e é iminente, sobretudo em curvas extremamente fechadas que tiram todo o campo de visão de quem se aventura naquele terreno. Mas as agências contratadas costumam contar com profissionais que acompanham o comboio durante toda a viagem e que ajudam no transporte das bicicletas, explicação das rotas e possíveis resgates e primeiros auxílios em casos de acidentes que, em alguns casos, chegam a ser fatais.

O título mortal dessa estrada de terra escorregadia e com centenas de curvas fechadas foi dado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Mas os riscos não são recentes e começaram bem antes de ônibus lotados de passageiros despencarem em profundos abismos.

A fama vem por conta de um filho de escravos que aterrorizava brancos e mestiços que passavam pela estrada, na segunda metade do século 19. Salvador Sea, popularmente conhecido como Zambo Salvito, mantinha uma caverna estratégica no caminho aos Yungas, onde se refugiava após os assassinatos e roubos que cometia. Salvito era uma espécie de Robin Hood dos índios aymarás e dos escravos de origem africana.

Atualmente, a estrada já não oferece esse tipo de perigo, até mesmo para quem a cruza em automóveis. Há três anos, o caminho ganhou um desvio asfaltado e melhor sinalizado, e as comunidades locais viram diminuir os índices de acidentes.

O que sobrou daquela época é uma estrada de terra que, hoje, é utilizada apenas com fins turísticos ou para abastecimento de algumas comunidades locais. Tem gente que ainda prefere seguir o caminho das pedras para apreciar as paisagens exuberantes das altas montanhas de picos nevados bolivianos, da pré-selva e das dezenas de cascatas que completam o cenário. E se tiver vento forte na cara, a aventura fica melhor ainda.
  • Eduardo Vessoni/UOL

    A descida pela Estrada da Morte, na Bolívia, começa em La Cumbre, a 4.700 metros sobre o nível do mar e aos pés da montanha Huyaina Potosí


SERVIÇO
Free Bikes Mountain Biking
Tel: (591) (2) 245-0917 / 7153-9549 (La Paz)
www.freebikesbolivia.com

* O jornalista Eduardo Vessoni viajou a convite da agência Free Bikes.

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