Viagem

Os presentes de Brad Pitt para Nova Orleans são a nova atração turística da região

FRED A. BERNSTEIN

New York Times Syndicate

12/12/2009 12h00

Al Andrews, que mora na Tennessee Street, no Baixo 9º Distrito de Nova Orleans, disse não se importar com os ônibus de turismo que visitam seu bairro, mas disse que gostaria que os turistas "deixassem parte do que pagam para a comunidade". Andrews vive em uma das casas modernistas, de cores vivas, que se erguem em um pequeno trecho do 9º Distrito, quatro anos após ter sido devastado pelo Furacão Katrina.
  • Cheryl Gerber/The New York

    A Casa Flutuante, na direita, projetada pelo arquiteto Thom Mayne, e, na esquerda, uma casa da firma de arquitetura GRAFT, no Lower Ninth Ward

Em 2007, frustrado com o ritmo lento da reconstrução do 9º Distrito, o ator Brad Pitt criou uma fundação chamada Make It Right (faça direito); a fundação então contratou 13 firmas de arquitetura para projetar casas verdes, a preço acessível. A organização planeja construir 150 casas, todas para pessoas que antes moravam no 9º Distrito. Até o momento, apenas 15 delas estão ocupadas, mas as 15 deixam uma grande impressão.

De fato, da rota principal para o 9º Distrito, a ponte da avenida Claiborne, é impossível deixar de notar as Casas Brad Pitt, como todo mundo aqui as chama. Elas são construções amplas e angulares em tons ousados, não frequentemente vistos fora de uma sorveteria. Monumentos à resistência da cidade, e ao grande coração de Hollywood, elas também são a mais nova atração turística de Nova Orleans.

Os ônibus de turismo, incluindo os da Cajun Encounters (504-834-1770; www.cajunencounters.com) e Gray Line (504-587-0709; www.graylineneworleans.com), passam pelas casas, mas não param para permitir que os turistas caminhem pelo bairro. Você também pode tomar um táxi para percorrer os cerca de oito quilômetros do centro da cidade até o 9º Distrito; o preço de uma viagem de ida e volta é de menos de US$ 30. (Virginia Miller, uma porta-voz da Make It Right, disse que a organização poderá oferecer visitas, mas "no momento a prioridade é instalar os moradores".)

Eu fui em um carro alugado, seguindo as direções do MapQuest, até o cruzamento das ruas Tennessee e North Galvez, o coração do novo enclave. Eu descobri que moradores como Andrews e sua vizinha, Gertrude LeBlanc, adoram conversar. "Se não conversarmos, como as pessoas saberão o que aconteceu conosco?" disse LeBlanc, uma alegre septuagenária.

"Bairro do Brad Pitt"

Durante minha visita anterior ao Baixo 9º Distrito, há quatro anos, eu praticamente só vi devastação. Casas destruídas estavam por toda parte. Grande parte dos escombros foi removido e hectare atrás de hectare foi retomado pela natureza, com a relva quase tão alta quanto os diques reconstruídos. O principal efeito em grande parte do distrito é de uma quietude assustadora.

Mas o "bairro do Brad Pitt" é um local cheio de atividade, com construtores e paisagistas superando em número os moradores. Uma placa na frente de cada casa cita o nome e cidade de seu arquiteto. Uma, chamada Casa Bóia, foi projetada pelo vencedor do Prêmio Pritzker, Thom Mayne, de Los Angeles. A parte principal da casa é construída para se erguer com a elevação das águas, sobre pilotis que a impedem de se soltar. É difícil ver a fundação inovadora, mas elementos externos incomuns são fáceis de avistar, como o tipo de grade cortada em padrões complexos e pintada de azul-turquesa, tendo como fundo a construção em tom de framboesa.

Perto dela, uma casa angular da GRAFT, um escritório internacional de arquitetura, apresenta uma varanda fechada que parece ter sido aberta à força por uma tempestade, uma lembrança visual infeliz. Uma casa do arquiteto japonês Shigeru Ban apresenta um pátio privado entre a sala de estar e os quartos, mas nenhum detalhe que a faça parecer parte de Nova Orleans.

Na verdade, as casas parecem mais adequadas a uma exposição de arquitetura de vanguarda do que a um bairro lutando para se recuperar. Vários arquitetos com os quais conversei, que já visitaram o bairro, lamentaram a ausência de formas familiares que reconfortariam os moradores que retornam.

James Dart, um arquiteto de Manhattan que nasceu e cresceu em Nova Orleans, descreveu as casas como "alienígenas, às vezes até insultantes", acrescentando: "O maior problema é não estarem baseadas na história da arquitetura de Nova Orleans". Mas, como os demais arquitetos, ele expressou admiração por Pitt. "Ele merece muito aplauso", disse Dart, acrescentando que Pitt "já fez mais por Nova Orleans" do que qualquer agência do governo.
  • Cheryl Gerber/The New York

    A casa de Melba Leggett-Barnes foi desenhada por KieranTimberlake

Jennifer Pearl, uma corretora que tem várias casas à venda no 9º Distrito, tem uma visão prática. "Brad tem a melhor das intenções", ela disse. "Mas se ele tivesse feito casas parecidas com as que existiam antes, ele provavelmente teria quatro ou cinco vezes mais casas prontas a esta altura."

Outro problema com as casas (exceto a de Mayne) é sua elevação: para protegê-las de futuras inundações, elas foram construídas sobre pilotis que transformam suas varandas em passarelas. A meta das varandas é criar um senso de comunidade, o que é difícil de acontecer quando os vizinhos e transeuntes ficam literalmente encobertos.

"É como Nova York, os arranha-céus", disse LeBlanc, que mora em uma casa térrea vizinha de uma das criações muito maiores da Make It Right, como um Mini Cooper estacionado vizinho de um utilitário esportivo. "E haverá mais delas", ela acrescentou.

Para a maioria dos moradores, a construção é uma boa notícia. "É difícil viver aqui agora, mas valerá a pena", disse Melba Leggett-Barnes, uma funcionária de café, que está preocupada com a criminalidade no bairro. A falta de atividade comercial também é decepcionante. "Nós costumávamos ir ao comércio na esquina", ela disse. "Agora não temos mercado, não temos uma lavanderia."

Leggett-Barnes, cuja casa foi projetada pelo escritório de arquitetura KieranTimberlake, da Filadélfia, é literalmente a garota-propaganda da Make It Right; sua imagem está presente nos pontos de ônibus por toda a cidade, pedindo aos antigos moradores para voltarem ao bairro.

"Algumas pessoas podem ter o desejo de voltar", ela disse, "mas não sabem que é possível".

Alguns visitantes também param no outro extremo do 9º Distrito, na Andry Street, onde três casas construídas pela Global Green (outra caridade apoiada por Brad Pitt) se destacam, convidativas e desocupadas. As casas, de autoria de Andrew Kotchen e Matthew Berman da Workshop/APD, em Nova York, custam US$ 175 mil. (Uma delas está aberta para visitas; de segunda a sexta das 11h às 16h; sábados das 10h às 13h; ou telefone 504-525-2121 para um agendamento.)

Diferente das casas da Make It Right, que são reservadas aos moradores que desejam retornar ao 9º Distrito, as Global Greens estão disponíveis para qualquer um. "Nós adoraríamos se você comprasse uma", disse Pearl, com um tom esperançoso em sua voz.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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