Perto de Tóquio, Kawagoe mostra sua idade, com orgulho

KEN BELSON

New York Times Syndicate *

Para saber sobre Tóquio, às vezes é preciso sair dela. A capital foi reconstruída tantas vezes que, para aqueles que desejam um vislumbre de como era anos atrás, é preciso ir a lugares como o Museu Meiji-Mura, a mais de duas horas de distância.

Mas a cidade de Kawagoe, bem no quintal dos fundos de Tóquio, é uma alternativa mais prática. A menos de 45 minutos de trem, o centro de Kawagoe está repleto de uma coleção bem preservada de kura (ou depósitos) centenários, que ainda servem como lojas, oficinas e lares.
  • Jim O'Connell /The New York Times

    Em outubro Kawagoe realiza um dos festivais de rua mais coloridos do país, repleto de três toneladas de carros alegóricos


Muitos kura ficam reunidos em torno de uma torre de relógio de madeira ainda mais antiga e de um amontoado de edificações das eras Taisho e Showa, que criam a sensação de uma cidade pequena, com um encanto ausente em muitas cidades japonesas. Uma antiga cidade fortaleza, Kawagoe faz um trabalho tão bom em evocar a Tóquio do passado que é chamada carinhosamente de Pequena Edo, uma referência ao antigo nome de Tóquio.

Suas ruas são tão autênticas que a "NHK", a emissora nacional de televisão, está filmando uma de suas séries em Kawagoe, uma cidade de 330 mil habitantes. Isso aumentou ainda mais o interesse. Certa tarde meses atrás, ônibus lotados traziam vovós e vovôs japoneses que circulavam para cima e para baixo pelas ruas da cidade, admirando as cerca de três dúzias de kura, as docerias antigas e o gracioso Templo Kitain.

Mas como eu aprendi há mais de duas décadas, quando lecionava na cidade, a multidão de fato chega durante a terceira semana de outubro, quando Kawagoe realiza um dos festivais de rua mais coloridos do país, repleto de três toneladas de carros alegóricos.

Como Kawagoe é uma cidade dormitório para os trabalhadores de escritório de Tóquio, o serviço de trem é frequente e barato e os melhores endereços da cidade podem ser percorridos a pé em poucas horas. Os moradores locais também abriram um bom número de restaurantes, que servem orgulhosamente comida e saquê feitos a partir de produtos cultivados na área.

"Kawagoe antecede Edo como capital, de forma que ficamos felizes por sermos chamados de Pequena Edo", disse Yoshiharu Hibiki, proprietário do restaurante Kurobuta Gekijo e membro do Clube Kawagoe, um grupo cívico. "Nós somos a Edo original."

É possível resolver o debate histórico tomando o trem expresso Tobu Tojo, que parte de Ikebukuro e chega a Kawagoe em 30 minutos (450 ienes, ou cerca de US$ 4,65, com o dólar cotado a 97 ienes). Ou é possível tomar o trem expresso New Red Arrow, que parte aproximadamente de hora em hora (890 ienes) da Estação Seibu Shinjuku.

Com assentos reservados, os trens Seibu são a viagem mais confortável. Após passarem pelos bairros claustrofóbicos de Tóquio, plantações de chá e fábricas, eles também deixam você na Estação Hon Kawagoe, um local ideal para iniciar um passeio a pé.

Atravesse a praça dos ônibus e siga para Chuo Dori ou para a rua comercial mais tranquila uma quadra atrás dela. De lá, vá para o norte e você passará por lojas e casas construídas após a Segunda Guerra Mundial. Aos poucos, eles dão lugar às construções pré-guerra, quando você chega a Taisho Roman Dori. Lá você verá uma coleção de construções da era Taisho (1912-1924), incluindo Shimano Kohi Taisho Kan (Renjyaku-cho 13-7; 81-49-225-7680; www.koedo.com/taisyoukan), um café com letreiro art déco no lado de fora e xícaras de um café suave por 600 ienes no interior.

Cerca de 100 metros rua acima fica o prédio da Câmara de Comércio de Kawagoe. Seus simpáticos pilares de pedra evocam um prédio de banco do Meio-Oeste americano e um tempo em que o Japão copiava ardorosamente o Ocidente. Após virar à esquerda e depois à direita, você está de volta a Chuo Dori, que aqui se transforma em Ichibangai, onde está concentrada a maioria dos kura.

Apesar de muitos kura no Japão serem brancos, os de Kawagoe foram escurecidos com carvão para mantê-los de acordo com o estilo do final do século 19. As portas espessas, de quatro camadas, do lado de fora das janelas do segundo andar, foram projetadas para conter incêndios e impedi-los de se espalharem para as edificações vizinhas. Os kura eram usados como depósitos de arroz e outros produtos e sobreviveram, em grande parte, porque seus proprietários em Kawagoe resistiram à chegada das ferrovias durante a era Meiji. Como consequência, a indústria chegou tarde e os bombardeiros aliados se concentraram em outras cidades durante a Segunda Guerra Mundial.
  • Jim O'Connell /The New York Times

    Os homens que puxam riquixás também atuam como guias na cidade de Kawagoe, no Japão


Hoje, os kura são lojas de varejo que vendem saquê, picles e todo tipo de receita possível usando as batatas-doces cultivadas famosamente nas proximidades. Alguns kura se tornaram casas de chá e restaurantes que servem macarrão soba e unagi, ou enguia assada, outra iguaria local popular.

O centro da atividade ao longo da rua é o prédio que o cartão postal de Kawagoe, o pitoresco Toki no Kane, ou torre do sino. Construída há quase 400 anos, a atual versão de 16,5 metros foi reconstruída após um incêndio em 1893 e é mantida em pé com troncos individuais de cedro. O sino não é mais tocado manualmente, mas toca quatro vezes por dia.

Atravesse a rua principal para chegar ao Kawagoe Matsuri Kaikan, ou museu do festival (2-1-10-Moto Machi; 81-49-225-2727; 300 ienes). Dentro se encontram vários carros alegóricos ornamentados, alguns chegando a três andares, usados anualmente no festival.

"Quanto mais alto, melhor, para chegar aos deuses", disse Toru Ohkouchi, o diretor do museu.

Nada substitui ver o caos organizado do evento ao vivo, mas o museu conta com vídeos de festivais recentes e, nas tardes de domingo, recebe bandas que tocam canções do festival em flautas de bambu shakuhachi e tambores taikô.

A duas ruas atrás do museu fica Kashiya Yokocho, uma alameda encantadora com 14 docerias e lojas de presentes para crianças da era Showa. As lojas são depósitos convertidos que antes guardavam xarope de açúcar. Uma loja ainda produz bala tipo caramelo duro.

Apesar de representar um desvio de 15 minutos da rua principal, o Templo Kitain (Kosenbamachi 1; 400 ienes) vale a pena a caminhada. Com raízes que remontam o ano 830, o templo ganhou proeminência no final do século 16, quando o shogun visitou Kawagoe. Após a destruição do templo por um incêndio em 1638, o shogun enviou construtores do Castelo Edo para Kawagoe. O destaque, entretanto, são as 500 estátuas de pedra de monges budistas, exibindo todo tipo de emoção. Em um canto contemplativo do terreno do templo, os monges mostram toda forma de emoção, rindo, bebendo saquê e até mesmo colocando o dedo no nariz.

Ao retornar para a rua principal e para a estação de trem, pare para almoçar no Ichinoya (1-18-10 Matsue-cho; 81-49-222-0354). Sua especialidade, como em muitos restaurantes em Kawagoe, é unagi. Um prato de 2.400 ienes inclui quatro tiras de enguia saborosa e delicada, acompanhado de arroz servido em uma caixa de laca. Cinco tipos de picles e um caldo completam a refeição.

Se o jantar estiver próximo, experimente o Kurobuta Gekijo de Hibiki-san (17-4 Wakita-machi; 2º andar, 81-49-226-8899). A especialidade do restaurante é carne de porco e legumes frescos grelhados no espeto e embebidos no molho miso picante de Hibiki-san, entre outros. A refeição fica mais bem acompanhada de saquê Kagamiyama ou cerveja Coedo, ambos produzidos localmente.

O restaurante também fica a poucos minutos a pé da Estação JR Kawagoe, onde é possível tomar o trem de volta para Tóquio.

* Texto publicado originalmente em setembro/09

Tradução: George El Khouri Andolfato

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