Arte e fogo se misturam às paisagens das Ilhas Eólicas, na Itália

JULIA CHAPLIN

New York Times Syndicate *

O elegante palácio do século 19, na remota ilha italiana de Salina, parecia como qualquer outro prédio dilapidado no passeio pavimentado com pedras vulcânicas. Manchas de umidade marcavam sua fachada de pedra envelhecida e uma sacada escurecida, moldada em ferro, estava repleta de cadeiras bambas.

Então as portas de madeira, como as de uma fortaleza, se abriram e de lá saíram andando um padre com colarinho branco, um chefe de polícia em uniforme completo de carabinieri e vários colecionadores de arte e curadores, com roupas brancas leves de linho e sandálias, com os cabelos ainda molhados do chuveiro pós-praia.

Eles se misturaram aos artistas, pescadores e transeuntes curiosos, bebendo vinho branco enquanto exploravam a arte nas câmaras do palácio, antes de se espremerem nas escadas estreitas até a cobertura, para vistas do Mar Tirreno e de um distante vulcão cuspindo fogo e fumaça no ar quente de início de noite.

Era a recepção inaugural para um artista conceitual russo, Vadim Fishkin, realizada em agosto na Galeria Amanei, um espaço de arte contemporânea de quatro anos. O espetáculo improvável era simplesmente surreal, o que poderia explicar por que a ilha de Salina se tornou o centro de uma cena efervescente de arte.

Salina faz parte das Ilhas Eólias, um arquipélago vulcânico de difícil acesso que se projeta para fora do Mar Tirreno - uma bizarra mistura primordial de praias pretas de lava, águas termais borbulhando no meio da terra e paisagens rochosas lunares. O arquipélago leva o nome de Èolo, o deus dos ventos da mitologia grega, que travessamente soprou Odisseu de volta às costas escarpadas das ilhas quando ele tentou voltar para casa.
  • Chris Warde-Jones for The New York Times

    Salina faz parte das Ilhas Eólias, um arquipélago vulcânico de difícil acesso que se projeta para fora do Mar Tirreno


Ultimamente, entretanto, as únicas pessoas que parecem trazidas às costas do arquipélago são artistas. Uma alternativa para as lotadas e mercantilizadas ilhas de Capri e da Sardenha, as acidentadas Eólias foram recentemente ungidas pelo pessoal de arte contemporânea como seu ponto de parada sazonal. Entre os visitantes atuais estão artistas conhecidos como Maurizio Cattelan, Robert Wilson, Anselm Kiefer, Paola Pivi, Rudolf Stingel e Aleksandra Mir - sem contar seus proeminentes marchands e colecionadores.

Situado ao norte da Sicília, o arquipélago é composto de sete ilhas habitáveis, dentre as quais as maiores e mais desenvolvidas são Salina, Lipari e Vulcano. È claro, os artistas preferem as mais primitivas e curiosas - Filicudi, Alicudi e Stromboli, onde o único vulcão ativo do arquipélago cospe lava no céu com o urro de um King Kong em intervalos de poucos minutos.

A jornada exaustiva aumenta sua mística. Não há voos comerciais para as ilhas e a maioria dos visitantes chega de aerobarco, que leva cerca de cinco horas de Nápoles e quatro horas de Palermo. Os barcos não têm frescuras, com assentos não maiores do que os de um avião, e a viagem trepidante não é para aqueles que enjoam. Como Martin Creed, um artista britânico que tem uma casa em Alicudi, colocou: "De Londres, é mais fácil e mais rápido chegar à Austrália".

Uma popular rota de balsa vai para Stromboli. Do mar, Stromboli parece uma pequena aldeia rural com uma alta dose de incomum. Amistosos moradores locais barrigudinhos e com bonés virados lotam as docas, oferecendo aos turistas chalés brancos para alugar.

A ilha é um contraste surpreendente. Um lado é rico em flora, com matas, palmeiras, cactos, buganvílias e flores silvestres intensamente coloridas. Mas o outro lado, que a lava ocasionalmente cobre e queima, é preto e morto.

Os estilistas de moda Domenico Dolce e Stefano Gabbana, que têm casa lá, devem estar canalizando esse aspecto gótico para sua nova linha de cosméticos com tons de lava, que chamam de Stromboli.

Esta não é nem de longe a primeira vez que o vulcão serviu como musa. Os artistas são atraídos pela estranha forma cônica e parecem compelidos a recriá-la, documentá-la ou imitar sua estranha intensidade. "Os artistas gostam das Eólias porque é difícil lá", disse Marina Abramovic, uma artista de origem sérvia conhecida por suas performances dramáticas. Há cinco anos, ela comprou uma casa na cidade de San Vincenzo, em Stromboli, que ficou famosa em "Stromboli", um filme de 1950 do diretor neorrealista Roberto Rossellini (o filme é uma meditação cabeça sobre conformidade, religião e a fúria da natureza, na forma de um vulcão em atividade).

"Stromboli" também é o nome de uma série de fotos de Abramovic, incluindo uma na qual ela aparece nua, carregando uma aldeã também nua, na cratera fumegante. "É um lugar de poder e energia intensos", ela disse. Na verdade, a energia da ilha se tornou excessiva para ela, de forma que ela vendeu sua casa no ano passado.

Isso não quer dizer que a ilha careça de um lado mais brando, bom para o turista. Na principal praça de pedra de San Vincenzo, os visitantes encontrarão uma barraca de sorvete e um café que serve espresso à sombra de uma igreja ocre do século 18. E por volta de todo entardecer, pequenos grupos de escaladores, geólogos amadores e turistas, todos de olhos arregalados, se reúnem para participar das caminhadas de três horas com guias até a cratera fumegante, a 924 metros de altitude.

Mas as coisas são menos pitorescas nas outras ilhas (diferente da jornada do continente ou da Sicília, o deslocamento entre as Eólias é relativamente fácil, com aerobarcos indo e vindo regularmente, várias vezes por dia em horários marcados). Nas ilhas remotas de Filicudi e Alicudi, a terra é muito árida e há poucos hotéis e restaurantes. As populações de inverno lá variam de 200 a 400. Não é preciso dizer, não há muitas barracas de sorvete.

"A parte traseira de Alicudi parece que esteve em uma guerra", disse Paola Pivi, uma artista milanesa que passou um tempo considerável fotografando a paisagem fantástica da ilha. "Parece estar faltando terra. É muito violento."

Ao ancorar no porto de aspecto rudimentar de Filicudi, é possível ansiar imediatamente por uma sombra e um sofá confortável. Rochas estão espalhadas ao redor de um vulcão dormente, com o sol formando poucas sombras. Em uma recente visita, alguns poucos pescadores e operários de construção estavam reunidos sob o toldo externo do Da Niro sul Mare, o único café da ilha, gritando uns com os outros como extras de algum filme italiano em preto-e-branco.

Filicudi está longe do charme de cartão postal. Pode ser por isso que artistas, estilistas e arquitetos gravitam para suas costas inóspitas e escarpadas, disse Sergio Casoli, um marchand de Milão que passa o verão em um velho chalé na ilha e convida artistas como Maurizio Cattelan e Rudolf Stingel para estadias.

Também é onde Ettore Sottsass, o renomado designer e arquiteto italiano, um fundador do movimento grupo Memphis dos anos 80, passou parte dos anos antes de sua morte, em 2007, aos 90 anos. Como as paisagens indômitas do Vale Hudson ou a luz etérea da Provença, a beleza primitiva e ameaçadora da ilha é uma fonte contínua de inspiração.

Mas nem todas as ilhas Eólias são conhecidas por seu esplendor natural duro. A menor ilha, Panarea, que tem cerca de três vezes o tamanho do Central Park de Nova York, é famosa por seu bacanal do jet set. A ilha pode estar margeada de oliveiras fragrantes e por suas angras para nado fotogênicas, mas em agosto ela é tomada por aristocratas e playboys, nomes famosos como a princesa Caroline de Mônaco, o príncipe William e o estilista de moda Roberto Cavalli.

Durante o dia, eles podem dar mergulhos do convés de seus iates gigantes. À noite, eles festejam em minivestidos de estilistas famosos no Hotel Raya, um hotel chique que foi aberto nos anos 60 por dois artistas, Myriam Beltrami e Paolo Tilche. Em uma concessão ao clima relaxado dos eólios, as pessoas deixam de lado o salto alto e andam descalças ou em sandálias de dedo.

Para alguns, o espetáculo leva a sátira - talvez até arte. Aleksandra Mir, que aluga um chalé de pescadores em Panarea todo verão, lembrou um momento favorito quando testemunhou um iate colidir contra uma pilha de rochas vulcânicas.

"Pareceu acontecer em câmera lenta", ela disse, "como se o equipamento de navegação de alta tecnologia da embarcação tivesse sido sobrepujado pela força lenta da onda. Ver e ouvir a fibra de vidro branca ser destruída pelo vulcão silencioso foi como experimentar a mais magistral das esculturas".

Se você for

Para chegar lá
A melhor forma é voar para Nápoles ou Palermo e tomar o aerobarco até as Ilhas Eólias.

A Ustica Lines (www.usticalines.it) e Snav (www.snav.it) são as principais operadoras de balsa. De Nápoles, a balsa da Snav para Stromboli leva de quatro a cinco horas e a passagem de ida e volta custa 170 euros (cerca de US$ 245, com o euro cotado a cerca de US$ 1,45). De Palermo, a balsa da Ustica para Lipari leva quatro horas e a passagem de ida e volta custa 76,44 euros. Para viajar entre as ilhas, as balsas partem várias vezes por dia dos principais portos. Para circular por terra, alugue uma lambreta nos portos. Nas ilhas menores, caminhar é a melhor opção.

Onde ficar
O preço dos hotéis varia de acordo com a temporada. As diárias abaixo são para a temporada pós-verão em setembro.

O Salina Hotel (Via Manzoni, Salina; 39-090-984-3-441; www.lasalinahotel.com), na aldeia ventosa de Lingua, é um moinho de sal do século 19 e inclui o velho depósito e bangalôs. Ele foi reformado com muito bom gosto em 2006 e conta com 24 quartos, cada um com rede e vistas do mar. Quartos duplos por 160 euros.

I Cinque Balconi (Via Risorgimento, 36, Salina; 39-090-984-3508; www.icinquebalconi.it), no centro de Santa Marina, oferece quartos modernos em uma casa tradicional da cidade. Quartos duplos a partir de 130 euros.

La Nassa in Stromboli (Fico Grande; 39-02-26-83-0102; www.lanassastromboli.it) é uma pensão rústica, sem frescura, no que antes era uma casa de pescador. Como o charme discreto de Stromboli, as cabanas básicas parecem luxuosas com as flores de laranjeira e fúcsias silvestres, além dos pátios com sombras. Quartos duplos a partir de 50 euros.

Onde comer
Alcaparras, azeitonas, pimentas e anchovas são espalhadas generosamente sobre uma massa finíssima no Ristorante da Luciano's em Stromboli (Via Roma, 15; 39-090-986-088, www.ristorantedaluciano.it). Esta e outras pizzas ao estilo napolitano (6 a 15 euros) são servidas em uma varanda arejada com um Nero d'Avola gelado, um vinho tinto feito de uvas sicilianas.

Fabio Giuffre, um jovem chef que tem uma lagosta tatuada em seu braço, preside os bem cuidados pratos no 'nni Lausta (Via Risorgimento, 188; 39-090-984-3486, www.isolasalina.com). As entradas incluem cuscuz com moluscos, tartar de atum com erva-doce e alcaparras, e camarão salpicado com hortelã (12 euros cada).

O que fazer
O centro da cena de arte eólia é o Amanei (Via Risorgimento, 71; 39-090-984-3547; www.amanei.com), uma galeria, livraria e butique na rua principal de Salina. Obras do artista russo Vadim Fishkin estavam expostas no verão.

Alugue um pequeno barco e passe a tarde à procura de locais para seu próximo projeto de arte conceitual. Você pode entrar em grutas assustadoras, ver termas borbulhando e explorar formações rochosas que facilmente se qualificariam como arte da terra. Lojas para aluguel de embarcações podem ser encontradas na maioria dos portos e os aluguéis variam de 40 a 50 euros por dia.

Caminhe três horas até o vulcão ativo de Stromboli. Guias são obrigatórios e o horário noturno é o melhor para ver a lava incandescente. Passeios em grupo (25 euros) partem de San Vincenzo, mas você também pode arranjar um passeio privado. A Magmatrek (Via Vittorio Emanuele; 39-090-986-5768; www.magmatrek.it) é uma operadora de boa reputação.

Texto originalmente publicado em setembro/09
Tradução: George El Khouri Andolfato

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