Apesar da onda de violência, turistas pagam para visitar favelas no Rio

MARCEL VINCENTI

Colaboração para o UOL Viagem, do Rio de Janeiro

A ouvidos brasileiros, pode parecer loucura: estrangeiros vêm ao Rio de Janeiro, no gozo de suas férias, e, por curiosidade sociológica (ou seria voyeurismo mórbido?), resolvem fazer turismo pelas favelas locais. O noticiário das últimas semanas não os intimida. De helicópteros abatidos a cadáveres empacotados, os morros cariocas não têm oferecido boas imagens ao mundo. A manchete do jornal Meia Hora, do dia 22 de outubro, explica, em sua fria malandragem, como andam os entreveros nos morros da cidade: "Polícia arregaça geral e deixa sete na horizontal".
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    Turista registra, com câmera filmadora, seu "momento Rocinha": "Favela Tour" é passeio famoso entre os estrangeiros que visitam o Rio de Janeiro

Os "gringos", porém, não estão nem aí. Munidos de filmadoras e câmeras digitais, eles querem registrar algo que inexiste em seus países. A van de uma das empresas que organiza incursões por favelas do Rio os recolhe, em uma manhã ensolarada de domingo, na frente do Copacabana Palace. São europeus, norte-americanos e australianos. O destino do passeio? A comunidade da Rocinha.

"Estamos indo a um lugar que muitos brasileiros consideram proibido", explica, em inglês, o guia Everaldo Costa, enquanto o veículo passa ao lado dos suntuosos edifícios da Gávea. "Alguns bairros da cidade têm padrões de vida com nível de primeiro mundo. Na Rocinha, a realidade é africana".

A estrada serpenteia morro acima. Alguns metros antes do começo da favela, belas mansões ainda dominam o cenário. Mas a paisagem muda em segundos: "Agora estamos saindo do Canadá e entrando em Gana", compara Everaldo, quando a van cruza a fronteira entre dois mundos.

Muitos moradores do bairro de São Conrado, vizinho da Rocinha, pagam o mais caro IPTU do Rio de Janeiro. Na entrada da favela, uma montanha de lixo dá as boas-vindas aos turistas (dois caminhões coletores da prefeitura trabalham no local, mas parecem pequenos à sombra de tantos detritos). O mau cheiro avança para dentro do veículo.

Todos descem em um lindo mirante que existe na Estrada da Gávea, já dentro da Rocinha. O Pão de Açúcar, o Corcovado e a lagoa Rodrigo de Freitas se unem em uma visão sublime, lá embaixo. O paisagista estadunidense Eric Papetti dá as costas à cidade maravilhosa e desenha, em seu caderno, as casas amontoadas umas sobre as outras que se estendem pelo morro.

Dois moradores da favela, Reginaldo Teixeira e Adriano da Silva, tentam vender aos turistas, por R$ 35, pinturas de arte naïf, feitas por eles mesmos em pequenos quadros. Adriano, que tem apenas 17 anos, afirma lucrar com o "Favela Tour" até mil reais por mês. Reginaldo, por sua vez, diz que tal trabalho o mantém "afastado do crime".

Nem tudo, porém, é bom agouro. O guia Everaldo Costa avisa, enfático: "Não tirem fotos de ninguém nem das vielas. Pode haver traficantes por ali", e chama a atenção de um dos turistas que insiste em apontar sua filmadora para todos os lados. Moto-taxistas (uma atividade não permitida no Rio de Janeiro, mas que funciona a pleno vapor dentro das favelas) cruzam alucinados, e sem capacete, as vias locais.

Na vitrine de uma loja de caixões, um letreiro diz, tal qual uma promoção das Casas Bahia: "Funeral a partir de R$ 499". E pendurada em um poste cheio de ligações elétricas irregulares e dispositivos de internet banda-larga, uma placa informa: "Só Jesus livra do crack".

A turista alemã Nina Gessner relata que já fez uma excursão parecida na Namíbia. Mas, mesmo assim, confessou que "sentiu-se culpada antes de fazer esse passeio no Rio". "Pensei que poderia parecer uma excursão ao zoológico, ficar observando a pobreza. Mas acho que é importante para conhecer o verdadeiro Brasil", opina ela.

E a Rocinha, parte de um país famoso por seus contrastes, logo se transforma. O grupo entra na rua conhecida como Caminho do Boiadeiro, onde há uma animada e colorida feira dominical. Jovens anunciam CD's piratas e frutas de todos os tipos são vendidas a baixos preços. O aroma do lugar é doce, assim como o caldo da cana vendido a R$ 1,50 dentro de Kombis. Os turistas, perscrutados com curiosidade por alguns dos moradores, ficam interessados na barraca das jabuticabas. Ao fundo, dois violeiros tocam músicas nordestinas, odes ao Brasil e, é lógico, à Rocinha.
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    Turista observa a imensidão da Rocinha do alto de um edifício: todos os meses, milhares de estrangeiros pagam para visitar a favela com excursões guiadas

Verdade inconveniente x exploração da pobreza

O "Favela Tour" é um passeio requisitado. O fluminense Marcelo Armstrong, que se diz o precursor da atividade no país, conta que sua empresa atende, por mês, cerca de 900 turistas (cobra R$ 65 de cada um) e nega que a iniciativa explore a pobreza alheia: "Nosso objetivo é mostrar ao turista a realidade social do Brasil, que favela não é só violência".

Segundo ele, parte do dinheiro arrecadado é repassado à ONG Para Ti, que dá educação a crianças e adolescentes da comunidade Vila Canoas. "Investimos R$ 46 mil na Para Ti em 2008". E continua: "Além do ganho financeiro, existe o benefício da mudança de imagem da favela, toca na auto-estima do morador". Mas o próprio Armstrong admite: "Quem faz a segurança dos turistas na favela não é a polícia, são os traficantes".

Os estrangeiros querem saciar sua curiosidade sobre a miséria brasileira - e pagam para isso. E o "Favela Tour" não pode ser acusado de esconder as mazelas do país. Todas as explicações dadas aos visitantes são realistas: há a admissão de que o tráfico ocupa o lugar do poder público no controle das favelas do Rio (existem aproximadamente mil delas na cidade, onde vive 20% da população local), mas há a constatação de que apenas uma minoria desses moradores são bandidos.

Trata-se de uma experiência verdadeira, sem dúvida. Só resta saber se os turistas voltarão para casa com um grande aprendizado ou com apenas um divertido filme de safári em mãos.

Mais informações
www.favelatour.com.br

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