Encontrando o passado do Suriname em seu presente

DAVID SHAFTEL

New York Times Syndicate *

Para os não iniciados, Paramaribo é cheia de surpresas. Observando os prédios ao redor da Praça da Independência, por exemplo, uma pessoa poderia ser perdoada por confundir a cena com uma quadra de uma faculdade do Nordeste americano, especialmente ao ver o Ministério da Economia do Suriname, com seus tijolos vermelhos e colunas dóricas, telhado em várias águas, lucarnas e torre do relógio.

Ou o caso da Sinagoga Neve Shalom, que, concluída em 1839, parece mais um cruzamento entre uma casa grande de fazenda de antes da guerra da Secessão e um banco de cidade pequena do que um local de adoração. Os surinameses gostam de exaltar sua proximidade harmoniosa da Mesquita Central, cujos minaretes se erguem em enorme contraste à sinagoga terrena.

Estes prédios podem parecer deslocados nesta entorpecida capital tropical sul-americana, com seus elos culturais com as Índias Ocidentais. A chave para o enigma pode estar na experiência colonial do país, que acabou há apenas 35 anos.

Atualmente o Suriname parece ser altamente desconhecido entre os americanos. Quando eu disse a alguns amigos que ia para lá no início deste ano, alguns poucos disseram que não saberiam encontrá-lo no mapa. Isso foi um tanto surpreendente, dado que o território, com suas lucrativas plantações de açúcar e café, foi cedido aos holandeses pela Inglaterra, em 1667, em troca de um pedaço da América do Norte, que incluía o que viria a se tornar Nova York.
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    Hoje um restaurante, o De Waag, era uma antiga casa de pesagem, onde era feito o inventário do açúcar e café antes de serem enviados para a Europa


Na última década, Paramaribo tem sido um destino popular para os estudantes holandeses e ecoturistas a caminho do interior, atraídos pelos laços coloniais e pela língua comum. Muitos deixam a cidade rapidamente. Mas Paramaribo tem um apelo próprio para fãs, como eu, de arquitetura colonial e da história do Novo Mundo -sem contar viajantes sem entusiasmo pelo preço de uma aventura na selva ou pela robusta cena entomológica encontrada lá.

Eu cheguei a Paramaribo em uma noite de quarta-feira de fevereiro, planejando passar grande parte de um fim de semana prolongado explorando a cidade apropriadamente, que é pequena e segura o bastante para ser percorrida agradavelmente a pé.

Partes da cidade se transformaram em Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2002, e com cerca de 250 monumentos listados, há muitos destaques. Eles incluem o Forte Zeelandia, um aglomerado de prédios dos séculos 17 e 18 às margens do Rio Suriname que era ponto de desembarque para os colonos que chegavam, e o Palácio Presidencial branco, cercado de varandas, que tem uma dignidade majestosa que é estragada ao anoitecer, quando é iluminado por holofotes verdes, lhe dando um ar de pretensão etérea.

Paramaribo é uma cidade onde as ruas ficam quase desertas após o entardecer. Eu descobri que era um bom momento para uma caminhada pelo distrito histórico, que não é maculado por prédios altos e desenvolvimento descontrolado.

Esta tranquilidade e entusiasmo pela preservação histórica encorajado pela Holanda, da qual o Suriname ganhou sua independência em 1975, facilitam imaginar como era Paramaribo quando era habitada por donos de plantação ausentes, cansados da vida no mato. Muitas das velhas casas de Paramaribo foram construídas após um incêndio devastador em 1821 e, portanto, possuem uma continuidade suave: a maioria pintada de branco, com sacadas com balaústre e portas e janelas verdes.

Subindo o rio a partir do distrito histórico, há um aglomerado de hotéis, bares e restaurantes que desafia o repouso pós-entardecer da cidade. Os estabelecimentos que cercam o bar't Vat, um restaurante tipo beer garden, lembram qualquer centro turístico encontrado na trilha dos mochileiros, onde o hip-hop do início dos anos 90 se mistura com o cheiro de cerveja velha.

Eu optei por curtir o pôr-do-sol à beira do rio no De Waag, um restaurante na antiga casa de pesagem, onde era feito o inventário do açúcar e café antes de serem enviados para a Europa. As balanças antigas do prédio foram conservadas, e o restaurante é atualmente um dos mais elegantes da cidade.

Após dois dias explorando Paramaribo, eu contratei um guia para me levar a Frederiksdorp, uma fazenda fielmente restaurada no Rio Commewijne, que se une ao Rio Suriname perto do mar. Assim que saí da cidade, eu fiquei impressionado com a diversidade improvável do Suriname, em particular com as semelhanças entre os costeiros Suriname e o Sudeste Asiático. A conexão não era apenas topográfica, com seu rio lamacento e agricultura em terras baixas, mas também cultural. Após a libertação dos escravos africanos em 1863, trabalhadores javaneses, indianos e alguns chineses foram trazidos para preencher a escassez de mão-de-obra. De fato, eu fiz a travessia de dez minutos do rio até Frederiksdorp em um sampan com motor de popa como aqueles que vi no Leste da Ásia.

De volta à cidade naquela noite, eu jantei com Sirano Zalman, um artista e agente de turismo, e sua esposa, Tessa Leuwsha, uma romancista e autora de um guia de viagem do Suriname em língua holandesa. Nós comemos no Log House, um restaurante africano à beira do rio inaugurado recentemente, que oferece pratos quenianos e suaílis servidos por garçons trajando dashiki.

Tessa me disse que antes do golpe de 1980 e da década que se seguiu de instabilidade política, o Suriname vivia repleto de americanos, que começaram a vir na Segunda Guerra Mundial para extrair bauxita. Como a guerra nunca realmente chegou a Paramaribo, ela se tornou um playground para os americanos, que continuaram visitando até o golpe.

"Até recentemente, muitos dos prédios daqui eram como ruínas", disse Tessa, 41 anos. "Faz apenas dois anos que começamos a ter boas ruas na cidade, mas tudo está sendo recuperado."

Sirano, 47 anos, nasceu no Suriname mas viveu na Holanda por 11 anos, antes de retornar a Paramaribo em 1993. "Era seguro àquela altura", disse Sirano, "mas muito diferente de agora. As pessoas não saíam e havia muito boato. Nos últimos oito ou nove anos, nós passamos a ter uma economia estável e as coisas estão indo muito bem. Agora é um momento empolgante, porque passamos por momentos difíceis e vimos o começo e o meio."

Sem dizer diretamente, ele parecia estar antecipando avidamente o final feliz.

História e tranquilidade em um ex-porto holandês

Para chegar lá

Onde ficar
O um tanto desbotado Torarica Hotel & Casino (Mr. L. J. Rietbergplein 1; 597-47-15-00; www.torarica.com) poderia ser uma sobra de cenário de um filme de James Bond, apesar de ser um filme do Bond de Roger Moore do início dos anos 80, quando as coisas ficaram um tanto camp. Diárias a partir de US$ 140 (os hotéis geralmente aceitam pagamento em dólares americanos, apesar de outras transações poderem exigir o dólar do Suriname).

Perto do Torarica fica o Torarica Eco Hotel (Cornelis Jongbawstraat 16; 597-42-55-22), onde "eco", neste caso, significa "econômico". Lá, quartos um pouco mais novos e simples custam a partir de US$ 88, e os hóspedes podem usar as facilidades do Torarica principal.

The Best Western Elegance (Frederick Derbystraat 99-100; 597-42-00-07; www.bestwesternsuriname.com) tem pouco mais de um ano e fica longe da agitação do distrito turístico. Diárias a partir de US$ 124.

Onde comer
De Waag (Waterkant 5; 597-47-45-14) tem boa comida italiana em um ambiente charmoso por cerca de 80 dólares do Suriname (cerca de US$ 28, com o dólar americano cotado a 2,84 dólares do Suriname) por uma refeição com dois pratos.

Chi Min (Cornelis Jongbawstraat 83; 597-41-21-55) é um restaurante chinês estilo empório, popular entre os moradores locais e os turistas. Os pratos custam cerca de 15 dólares do Suriname.

Há vários endereços do Roopram Roti em Paramaribo. Eles oferecem fast food viciante das Índias Ocidentais por cerca de 10 dólares do Suriname.

O Café d'Optimist (Verlengde Gemenelandsweg 200; 597-49-50-09), um ponto de encontro dos moradores locais, não tem localização central, mas oferece pratos finos europeus e funcionários amistosos. O jantar e coquetel saem por cerca de 80 dólares do Suriname.

The Log House (Anton Dragtenweg 134; 597-8-40-34-08) serve pratos tradicionais africanos -os pratos de peixe se destacam- e coquetéis de frutas, a partir de 100 dólares do Suriname.

Tradução: George El Khouri Andolfato
* Texto publicado originalmente em maio de 2009.

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