Viagem

Bienal do Mercosul mostra a arte do mundo em cartões-postais de Porto Alegre

CRIS GUTKOSKI

Colaboração para o UOL Viagem

24/10/2009 08h32

Com o título de "Grito e Escuta", a sétima edição da Bienal do Mercosul exibe trabalhos de mais de 200 artistas em cenários que são cartões-postais de Porto Alegre. As várias linguagens da arte contemporânea podem ser visitadas em grandes armazéns do Cais do Porto, com vista privilegiada do Guaíba, o lago chamado de rio, e em dois dos principais centros culturais, o Margs (Museu de Artes do Rio Grande do Sul) e o Santander Cultural, ambos na Praça da Alfândega. Em atividades paralelas, outros ícones da cidade, como o Theatro São Pedro, o Mercado Público, o Parque Marinha do Brasil e a Fundação Iberê Camargo também recebem performances, espetáculos, oficinas e visitas guiadas promovidas pelos participantes.

A maior parte dos artistas traz sotaques latinos para a megaexposição: eles vêm de vários Estados do Brasil, Argentina, Chile, Peru, Uruguai, Colômbia, Venezuela, México. Mas as fronteiras, como as experimentações visuais e sonoras, se expandem: os curadores-gerais Victoria Noorthoorn e Camilo Yánez, mais oito curadores-adjuntos, escolheram também criadores e criaturas dos Estados Unidos, Canadá, Cuba, Europa, China e Oriente Médio para essa Bienal do sul do mundo, evento inaugurado em 1997.

Para quem gosta de arte contemporânea e da convivência multicultural, é a melhor época para visitar a capital gaúcha. Com a primavera, as temperaturas são amenas, e o horário de verão espicha o tempo de luminosidade ao ar livre. Foram instaladas inclusive arquibancadas entre os armazéns do Cais do Porto para aproximar o público do show que são as cores vermelhas do céu sobre as águas prateadas do Guaíba, ao entardecer. A Bienal teve início em 16 de outubro, segue até 29 de novembro e, a partir de 30 de outubro, por duas semanas, coincide com a Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega.
  • Cristiano SantŽAnna, Indicefoto.com, Divulgação

    Como se fosse um tumor, a obra 'Tapume', de Henrique Oliveira, cobre prédio da rua dos Andradas, em Porto Alegre


Prepare-se para longas caminhadas. Ainda que próximos, todos no Centro, os espaços das sete exposições são grandiosos. E algumas obras são dinâmicas, o que convida a mais de uma visita. Como os trabalhos de areia ou sobre a areia no Armazém A-3, alguns na rua, sujeitos a chuva, ventania, etc. Na mostra A Árvore Magnética, cada artista vai transformar o seu trabalho por 10 vezes, ao longo de 45 dias. Já na abertura a instalação "Monumentos Vandalizáveis", do peruano José Carlos Martinat, foi radicalmente alterada, coberta por pixações, protestos, trocadilhos. Entre os monumentos miniaturizados e empilhados estão o Masp (Museu de Arte de São Paulo), a Catedral de Oscar Niemeyer e palácios dos Três Poderes, de Brasília, a Biblioteca Nacional, do Rio, e mesmo os logotipos dos patrocinadores da Bienal.

Vizinho de Martinat, um jovem artista de Recife, Jonathas de Andrade, de 27 anos, dispôs 250 peças com textos e fotos num painel branco com 20m de comprimento. Tudo vai mudar de lugar. Ele conta que o texto, composto de relatos íntimos dos anos 70, pertence a um diário achado no lixo, de autor desconhecido. As frases e as imagens contam histórias reais, que a arte, trocando os espaços e a ordem do tempo, quer transformar em ficção. Também as cidades se modificam rapidamente: perdem memória, ganham condomínios. "A cada dia a cidade é única", diz.

No Armazém A-5, as múltiplas carências de uma cidade com 1,42 milhão de habitantes se deixam tocar no trabalho "A Grande Troca", do francês Nicolas FlocŽh. O artista apresenta na Bienal um projeto semelhante ao que havia desenvolvido num bairro miserável de Santiago, no Chile. Em Porto Alegre, ele procurou três comunidades carentes a fim de descobrir quais eram as necessidades mais urgentes, os objetos de desejo dos moradores. Junto com eles, construiu em madeira esculturas de camisetas de times de futebol, instrumentos musicais, tintas e pincéis, um micro-ônibus para a garotada desprovida de transporte público. Exibidos na Bienal, essas peças podem ser trocadas pelos objetos reais: uma guitarra de verdade, ou latas de tinta para pintar o prédio invadido por famílias de sem-teto em 2005.

A maior das esculturas, a do micro-ônibus, foi reservada pelo Museu de Arte de Lima, do Peru. Quando receberem do Museu o transporte de verdade, os moradores e o artista estarão realizando a "poética de emancipação" prevista pela curadoria para a mostra Biografias Coletivas.

No Santander Cultural, o ambiente climatizado da exposição Projetáveis é o avesso dos rústicos armazéns do Cais. Colunas jônicas com capitéis restaurados separam as paredes em que 19 vídeos, videoinstalações e trabalhos de web art são projetados. Logo na entrada alinham-se os contrastes da contemplação para o vídeo "475 Volver", da artista mineira Cinthia Marcelle, em que um trator repete os movimentos rumo ao infinito, com as trocas frenéticas de imagens de Fernando Velázquez, do Uruguai, que utiliza o Flicker a partir de palavras digitadas pelo público. No segundo piso, surge Santa Milla, a santa das causas virtuais. Ao lado, vale a pena prestar atenção na videoinstalação de Oto Hudec, nascido na Eslováquia. No chão, um pintor traduz em linhas e cores a fala de uma imigrante africana em Portugal. Ao final de "Desenhando para Filó", descobre-se que o plácido vilarejo da entrevistada é habitado também por crocodilos, muitos deles, no rio da vizinhança.

A mostra Projetáveis prolonga-se no site da Bienal do Mercosul, www.bienalmercosul.art.br/projetaveis, com obras de mais 13 artistas, entre eles o iraquiano Hiwa K. No mesmo site é possível acessar dezenas de peças radiofônicas produzidas para a Radiovisual por artistas plásticos, fotógrafos, músicos ou poetas como Arnaldo Antunes e Décio Pignatari. Peças de John Cage e Glenn Gould também se fazem ouvir.

Se o tempo for curto, de um dia apenas, comece a visita pelo Margs. A exposição Desenho das Ideias reúne obras de 40 artistas, entre eles mestres como os brasileiros Oswaldo Goeldi, Cildo Meireles e Paulo Bruscky, os belgas Henri Michaux e James Ensor, os argentinos León Ferrari e Liliana Porter. Saindo do Margs, quem visita Porto Alegre pela primeira vez não deve perder a chance de dar um abraço nas figuras em bronze, em tamanho natural, dos poetas Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana. Na escultura de Xico Stockinger , os dois parecem conversar num banco da Praça da Alfândega, num diálogo aberto a intromissões dos fãs.
  • Cris Gutkoski/UOL

    O pôr-do-sol no Guaíba, no Cais do Porto, também está em exibição na 7ª Bienal do Mercosul


Depois do Santander Cultural, siga para o Cais do Porto, de preferência ao entardecer. O curador da edição anterior da Bienal, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, definiu a paisagem como "imbatível", um desafio para os artistas que expõem por ali. Quando as cores do pôr-do-sol surgem nos portões gigantescos dos armazéns, é difícil não sair correndo para fazer parte daquele telão impressionista, disposto sobre as águas, num horizonte desimpedido. O barulho dos automóveis fica lá atrás, além do muro alto da avenida Mauá e das paredes do Cais. Por alguns minutos de quase silêncio, a natureza monta o cenário da disposição para a escuta que a curadora Victoria Noorthoorn, usando a metáfora da Bienal, identifica na metrópole sulista.

"Porto Alegre não é uma cidade grandiloqüente, mas os resultados de uma Bienal aqui são grandiloqüentes", afirma. Como há 13 anos, a entrada para todas as exposições é gratuita.

SERVIÇOS

7ª Bienal do MERCOSUL
Visitação de terça a domingo, das 9h às 21h, de 16 de outubro a 29 de novembro, com entrada franca
Armazéns do Cais do Porto: Av. Mauá, 1050
Santander Cultural: Rua Sete de Setembro, 1028
Margs (Museu de Artes do Rio Grande do Sul): Praça da Alfândega, s/nº
Informações: (51) 3254-7500 e 3433-7686
www.bienalmercosul.art.br

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