Viagem

Diferentes culturas se encontram na Copacabana boliviana

MARIA EMÍLIA COELHO

Colaboração para o UOL Viagem *

10/09/2009 06h58

Imagine uma praia de Copacabana sem o célebre calçadão em forma de ondas desenhado por Burle Marx. Não há os quiosques de coco gelado e nem os corpos bronzeados dos cariocas. O sol é radiante, mas queima rostos ressecados pelo frio de senhoras bem abrigadas em seus coloridos trajes. O vento não sopra do Atlântico. Estamos a 3.841 metros sobre o nível do mar, em uma terra banhada pelas calmas águas do mais alto lago navegável do mundo, o Titicaca.
  • OGD LA PAZ - BENI

    Vista aérea de Copacabana, cidade do Altiplano boliviano a beira do Lago Titicaca, com a Igreja Nossa Senhora de Copacabana no centro

Copacabana é uma cidadezinha do Altiplano boliviano, a 158 quilômetros de La Paz, e a 20 minutos da divisa com o Peru. A península foi território de remotas civilizações dos Andes. Primeiro estiveram os chiripas, depois a intrigante cultura Tiwanaku, logo os aymaras, e finalmente o grandioso Império Inca.

Uns defendem que seu nome deriva da expressão "kota kahuana", do idioma aymara, que significa "vista do lago". Outros dizem que a origem está associada à deidade inca Cópac Awana, da língua quíchua. A única certeza é que no século 16 os espanhóis chegaram para aumentar esse caldo de influências: nomearam o lugar de Copacabana e construíram uma enorme igreja branca de estilo árabe-renascentista para ser cultuada mais uma imagem da Virgem Maria.

Com o passar dos anos, a santa do Titicaca foi ganhando fiéis e cruzando fronteiras. No século 18, uma réplica da sua imagem apareceu no Rio de Janeiro. Em uma época em que pequenos milagres eram grandes motivos para o levantamento de igrejas, não demorou para algum fiel agradecido construir uma capela para a padroeira da Bolívia na cidade. A partir daí a Virgem da Candelária se tornou conhecida e adorada pelos brasileiros, e a praia carioca, que antes tinha o nome tupi-guarani Sacopenapã, foi rebatizada.

Devoção e turismo

São muitas as histórias que se escuta ao desembarcar na verdadeira baía da Nossa Senhora morena. A cidade recebe hoje turistas cheios de "plata" e mochileiros que querem descobrir o sincretismo cultural deste destino sul-americano. No interior da Basílica, onde não é permitido tirar fotos, quadros e pinturas com simbolismos católicos dividem espaço com desenhos de sóis e luas, importantes divindades das populações do Altiplano. E no altar central, fica a Virgem de traços indígenas, com sua roupa toda banhada em pó de ouro de 24 quilates.

Peregrinos chegam de todos os cantos da Bolívia. A maioria vem de La Paz, caminhando durante quatro dias para unir-se às procissões que usam sempre uma cópia da imagem da santa. A original, talhada por um nativo em 1582, nunca sai do lugar. Outros fiéis vêm com seus carros enfeitados de flores para a curiosa cerimônia de bênção de automóveis realizada aos sábados em frente da igreja. A guia explica que no ritual que simboliza prosperidade há espaço para a tradicional "ch'alla" andina: um pouco de bebida alcoólica é derramada em volta dos veículos em oferenda à "Pacha Mama", a "Mãe Terra", e também Nossa Senhora de Copacabana.

Além da Catedral, que representa a face mais cristianizada da cidade, um passeio ao pico do Monte Calvário é a possibilidade de vivenciar a essência do sentimento religioso dos povos dos Andes. A vista do lago no fim de tarde é deslumbrante, mas para chegar até lá é necessário encarar uma penosa subida a pé por uma hora. Muitos devotos fazem o percurso de joelhos e passam a madrugada na escuridão do morro, junto às velas e cruzes de pedra, e murmurando orações em aymara e quíchua.
  • Maria Emília Coelho/UOL

    Casa construída de totora, fibra natural típica do Lago Titicaca, na Ilha do Sol, Bolívia, destino visitado por turistas que aproveitam a ida até Copacabana para conhecer a ilha de barco


A ilha do Deus Sol

Deve-se separar fôlego também para as ilhas do Titicaca. Pois é do porto de Copacabana que saem as lanchas das agências que exploram o turismo da parte leste e boliviana do lago. A viagem à Ilha do Sol, o maior pedaço de terra isolada da imensa área líquida, dura uma hora e meia. Pisando na ilha, uma escadaria pré-colombina aguarda os visitantes para conduzi-los à Fonte da Eterna Juventude. Diz a lenda que quem bebe da sua água envelhece sem rugas e cabelos brancos. Seus três jorros simbolizam as três máximas incas: Ama K'ella (não seja preguiçoso), AmaLlulla (não seja mentiroso) e Ama Sua (não seja ladrão).

Preguiçoso não dá para ser mesmo. Para conhecer a Ilha do Sol tem que enfrentar o sobe e desce de montanha, lembrando que as praias do lago estão a 3.841 metros de altitude. Cansa, falta um pouco de ar, mas vale a pena para percorrer milenares caminhos que levam às construções de pedra dedicadas ao astro rei. Pilkokayna é o nome de uma das tantas ruínas da ilha. O lugar, composto por salas que representam os 12 meses do ano e pátios intercomunicados, foi um antigo palácio inca. Batendo um pouco mais de perna, chega-se a Mesa de sacrifícios. Sob ela os tihuanacos sacrificaram lhamas e outros animais milhares de anos atrás. Já os incas a usaram para oferecer humanos ao seu deus, antes da chegada do catolicismo com os espanhóis.

Hoje os habitantes da ilha preservam apenas alguns dos costumes dos seus antepassados. Os cerca de 3.000 indígenas seguem os ensinamentos dos incas sobre agricultura, vivendo, sobretudo, do que colhem da terra árida, mas fértil, do Titicaca. A pesca e a criação de ovelhas e lhamas são outras fontes de renda, somando, claro, o ingresso econômico vindo dos turistas estrangeiros que chegam em peso todos os dias à primeira praia de Copacabana.

AGÊNCIAS

Agência Peruvian Dream Travel Tours
Jirón Lima, 110, Puno, Peru
Tel: 51 51 365252
peruviandream@gmail.com

Agência Transturin
Av. Arce, 2678 P.O. Box: 5311, La Paz, Bolívia
Tel: 591 2 2422222
info@transturin.com
www.transturin.com


*A jornalista Maria Emília Coelho viajou para Copacabana a convite das agências Peruvian Dream e Transturin e da CARETUR

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