Maláui, o coração caloroso da África, é um dos pontos turísticos mais vibrantes do continente

JOSHUA KURLANTZICK

New York Times Syndicate *

Além das margens do lago Maláui, conhecidas por seus ecoresorts butique e turistas estrangeiros endinheirados, há outra Maláui - um país inteiro, mesmo que minúsculo, de centros urbanos agitados e caóticos, colinas verdes, plantações de chá, montanhas altas e parques de grandes animais abençoadamente livres do congestionamento de jipes de safári.
  • Vanessa Vick/NYT

    Fazendas com plantações de chá, como a Satemwa Tea Estate, recebem visitantes que pernoitam nos tradicionais chalés dos colonos


Viagem fácil

Quando Madonna demonstrou interesse em adotar uma criança desta nação fincada entre a Zâmbia, Moçambique e Tanzânia, os americanos tiveram dificuldade para encontrá-la no mapa. Se os jornalistas, ou agentes de viagem, lembravam de algo a seu respeito, se é que lembravam, era do lago, o terceiro maior de água doce na África, cada vez mais popular como destino remoto de escape da Europa e dos Estados Unidos. Mas em poucos dias de viagem pelo sul de Maláui, cobrindo cerca de 640 quilômetros no total, o viajante pode encontrar uma experiência compacta envolvendo tudo o que o mundo em geral pensa a respeito da África.

Apesar das estradas às vezes serem difíceis, o país em geral provou ser uma viagem fácil; o inglês é amplamente falado, além das línguas locais como o chicheua, e Maláui conta com uma democracia aberta e vibrante que oferece visto aos turistas americanos ao chegarem.

O ponto de partida foi Blantyre. Minha esposa e eu partíamos de lá para nossas viagens por Maláui, arrumando tempo para passeios turísticos enquanto ela trabalhava no país fazendo pesquisa médica.

"Blantyre é como a Nova York de Maláui", me disse um amigo malauiano, se gabando de sua energia comercial e cultural (e a diferenciando da capital, Lilongwe, onde a política vem em primeiro lugar). Bem, não exatamente. Durante o dia, as ruas lotadas de Blantyre pulsam: Maláui possui 14 milhões de habitantes em seu território apertado. Ambulantes vendem abacate, bananas e cartões para celulares, encostando na janela do seu carro; os guardas de trânsito tentam deter os motoristas insanos. Mas às 18 horas, a cidade fica quieta enquanto a maioria dos malauianos vai para casa para jantar cedo.

Ainda assim, com sua topografia montanhosa e considerável população estrangeira, Blantyre possui vários restaurantes ao estilo africano, onde é possível sentar em uma varanda ao ar livre e beber ao entardecer um gim com tônica à moda malauiana, mais doce e aromático do que a versão americana.

No início deste ano no Chez Maky's, nas colinas exuberantes saindo do centro da cidade, nós acompanhamos empresários malauianos que encerravam o dia com um gim ou uma xícara de café local. Apesar de não ter dominado o Starbucks, a café mzuzu de Maláui, com seu sabor frugal, achocolatado, se sai bem diante de variedades africanas mais conhecidas. De uma residência vizinha, a música local, com letras em chicheua e uma batida lembrando calipso, penetrava no restaurante. Os garçons paravam para conversar, se reclinando constantemente para brincar com nosso bebê de oito meses, Caleb. Não é por acaso que Maláui é chamado de "o coração caloroso da África" por muitos malauianos, assim como pelas agências de turismo que promovem o país.
  • Vanessa Vick/NYT

    O mercado central de Limbe, próximo a Blantyre, oferece produtos que variam de abacates cultivados em casa até DVDs chineses


De Blantyre, a região de Thyolo fica a cerca de 40 quilômetros a sudeste por uma boa estrada, apesar de sinuosa. Em toda parte de Maláui é aconselhável alugar um carro e motorista (por cerca de US$ 30 por dia) em vez de tentar dirigir por conta própria em um carro alugado. O tráfego varia enormemente e uma superfície bem pavimentada pode repentinamente virar de terra. Em uma de nossas viagens, nós estávamos em uma estrada importante quando pegamos um desvio que, repentinamente, nos colocou em uma estrada de terra acidentada, atravessando uma aldeia de cabanas minúsculas, com seus moradores obviamente surpresos ao ver o veículo atravessando sua cidade.

Thyolo, local de plantações de chá, me lembra as famosas terras altas de cultivo de chá do Sri Lanka. Em um mapa colonial do país que certa vez comprei em Blantyre, os britânicos, que dominaram o país como parte de seu império até 1964, consideravam apenas partes de Maláui adequadas para o plantio de café e chá, como se o restante do país não existisse.

A estrada sinuosa passa por colinas verdejantes até chegar às plantações. Várias fazendas grandes, como a Satemwa Tea Estate, recebem visitantes para pernoite, abrigando-os nos tradicionais chalés dos colonos. Nós paramos perto de uma das maiores plantações para caminhar pela fazenda, com permissão, e passamos por pequenos chalés, fileiras de pés de chá e mulheres malauianas trabalhando nos campos com cestas de palha em suas costas. Algumas carregavam bagagem adicional - bebês amarrados em suas costas com o tradicional chitenge malauiano, um pano com padrões alegres. Ao longe, o monte Mulanje, um pico escarpado e rochoso de três mil metros repleto de penhascos e pequenas cachoeiras, ergue-se sobre a região de Thyolo.

Safári e pés na água

Seguindo para o norte de Blantyre, em uma viagem é possível visitar duas das maiores atrações do país: o famoso lago e o Parque Nacional Liwonde.

O parque fica a cerca de 120 quilômetros, onde, às margens do rio Shire, Maláui está recuperando as populações de grandes animais devastadas pelos caçadores britânicos e, posteriormente, pelos caçadores ilegais locais.

Poucos turistas visitam Liwonde e ele mantém uma vida selvagem difícil de encontrar nos países vizinhos, onde os animais já estão quase acostumados a ver os turistas. Observar os animais aqui é à moda antiga, sem animais acostumados a representar para as câmeras. Se você não fizer parte de um safári pago, a melhor forma de ver o parque é tomando um barco, fornecido pelo Mvuu Camp, o principal hotel no parque, ao longo do rio Shire. Mas não há garantia: você pode ver um grande número de animais, ou também pode não ver nada. Ainda assim, mesmo na estação chuvosa de dezembro até março, que não é a melhor para ver os grandes animais, eles não se escondem exatamente: os hipopótamos rolam na água e os elefantes vagueiam lentamente nas margens. Na estação seca você provavelmente verá antílopes, zebras e crocodilos.

A cerca de 130 quilômetros ao norte de Liwonde, você chegará ao lago Maláui. Ele conta com a maior diversidade de peixes de qualquer corpo de água doce do mundo, e as margens, com seus afloramentos rochosos, com areia pura e uma ocasional palmeira contra a água azul, lembra uma praia do oceano Índico. O lago Maláui se transformou em um paraíso para mergulhadores com snorkel e cada vez mais um destino de mergulho - os mergulhadores podem explorar o lago sem se preocuparem com tubarões, correntes fortes ou outros riscos do oceano. (Os poucos crocodilos habitam os rios que alimentam o lago, não o lago em si.)
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    Do hotel Sunbird Ku Chawe, localizado no topo do monte Zomba, é possível observar paisagens deslumbrantes das colinas arredondadas ao redor


Ainda assim, ao chegarmos em um dia de janeiro em nosso hotel, o Sunbird Nkopola Lodge, nós não encontramos nenhum outro hóspede na praia, apenas pescadores locais remando na água, à procura de chambo, um peixe ciclídeo local. (Nosso motorista veio conosco e ficou hospedado em um motel próximo.)

No dia seguinte, nós nos sentamos sozinhos para jantar no restaurante à beira da praia do hotel, olhando para um arco-íris e comendo kebabs de kampango fresco grelhado, um peixe local com uma carne que lembra a do halibut.

A maioria dos hotéis do lago Maláui oferece uma variedade de esportes aquáticos - iatismo, remo, mergulho com snorkel e mais. O Sunbird Nkopola Lodge oferece cruzeiros pelo lago. Mas a principal atração para nós foi não fazer nada. Em nossos quatro dias lá, nós estabelecemos uma rotina: acordar tarde para tomar sol e mergulhar nossos pés na água; comer peixe do lago grelhado no almoço e então aguardar pelos ventos e chuva do fim da tarde, que refrescam e cobrem a praia de neblina, além de provocarem um arco-íris ocasional. À noite, tomávamos drinques no próximo Club Makolola, que tem um jardim bem cuidado e um trecho de praia ainda melhor do que o do Nkopola - areia como neve fresca e um trecho tão largo do lago que a margem oposta mal dá para ser vista - mas não ficamos tentados pela comida, com pratos sem inspiração, como suprême de frango.

De volta ao Nkopola, nós comemos pratos mais criativos enquanto dançarinos de uma aldeia próxima, que se apresentavam na maioria das noites, cantavam, tocavam tambores e agitavam uma máscara peluda em um ritmo tradicional insistente. A certa altura, os dançarinos aumentaram sua aposta, literalmente - eles começaram a dançar e se contorcer sobre pernas de pau até os clientes do restaurante lhes darem algumas poucas centenas de kwachas (cerca de US$ 5). Após partirem, o lago se tornou quase silencioso, com o som suave das águas embalando Caleb até dormir.

Clima frio

Do lago Maláui, nós voltamos para o sul até Zomba, que é tanto um platô elevado como uma mesa quanto uma cidade na base. Zomba tem um microclima que é muito diferente do quente lago Maláui e da cidade úmida. Nos tempos coloniais, Zomba foi a capital do país, e possui um ar relaxado e antiquado, com velhas torres de relógio e casas ao estilo britânico, mal conservadas após anos de monções e agora abrigando em sua maioria malauianos. Na estrada fora da cidade, paradas na chuva típica da estação, as mulheres vendiam milho recém grelhado, cestas de palha e entalhes simples - cabeças de madeira com buracos básicos como olhos, notáveis em sua aridez.

Nós subimos o platô e o cenário mudou dramaticamente. A chuva pingava em tudo, tornando o solo esponjoso e dando à vegetação um tom esmeralda, irlandês. Homens carregando cestas de frutas frescas locais cercaram nossa picape, negociando uma venda. No cume, nós observamos em todas as direções do hotel Sunbird Ku Chawe, lembrando em seu desenho um resort montanhês britânico. Tremendo com o clima frio repentino no cume, após um calor de 30ºC na base, nós olhamos por sobre colinas pontilhadas com cabanas de palha.

Em questão de poucos minutos, nós sabíamos, tínhamos que voltar para Blantyre. Nós caminhamos até uma última vista de Maláui e desfrutamos da quietude do topo da montanha.
  • Vanessa Vick/NYT

    Em Zomba o cenário muda dramaticamente e dá lugar a um clima montanhês, cenário pefeito para explorar as curtas trilhas que dão em uma floresta


Parques não lotados e mergulho sem tubarões

Como chegar lá e circular

A Air Malawi voa de Johannesburgo para Lilongwe e Blantyre várias vezes por semana, e a South African Airways também oferece voos. O trecho de Johannesburgo a Blantyre custa cerca de US$ 400 para ida e volta.

Apesar de ser possível alugar um carro em Maláui, é muito mais seguro alugar um carro e motorista, especialmente considerando que a polícia local é notória por parar os veículos e cobrar "multas" por pequenas infrações. Experimente a SS Rent a Car para encontrar um utilitário esportivo e motorista (265-1-822-836; www.ssrentacar.com). O veículo custa cerca de US$ 100 por dia e o motorista custa US$ 20 por dia mais qualquer hora extra, e US$ 20 para qualquer pernoite necessária.

O Guia de Turismo de Maláui (www.malawitourism.com) oferece informação geral aos turistas e a empresa britânica Tribes Travel (44-1728-685-971; www.www.tribes.co.uk) oferece itinerários malauianos.

Blantyre

Em Blantyre, no Protea Hotel Ryalls (2 Hannover Avenue; 265-1-820-955; www.proteahotels.com), as diárias dos quartos duplos custam a partir de US$ 230. Apesar de a moeda local ser o kwacha, dólares americanos são amplamente usados para transações mais caras. Os preços dos hotéis geralmente são listados em dólares. No Chez Maky (Kabula Hill Road, depois da Igreja Adventista do Sétimo Dia; 265-1-833-764), o almoço para dois custa cerca de três mil kwachas (cerca de US$ 20, com o dólar cotado a 148 kwachas).

Blantyre tem poucas atrações turísticas, mas a vizinha Limbe tem um mercado nos dias úteis que vale a pena ser visitado; os vendedores oferecem produtos que variam de abacates cultivados em casa até DVDs chineses. Não circule a pé em Blantyre à noite.

Thyolo

Nas terras altas de plantação de chá de Thyolo, a fazenda Satemwa (265-1-473-500; www.satemwa.com), que data dos anos 20, autoriza os visitantes que pedem permissão a caminharem por sua propriedade. Também há visitas à fábrica de chá e café. A fazenda está reformando seu hotel e pretendia reabri-lo em julho de 2009, com preços ainda não definidos.

Parque Nacional Liwonde

Visitar Liwonde é melhor por meio da Tribes Travel ou de outra empresa de turismo. O Mvuu Camp and Mvuu Wilderness Lodge oferece chalés básicos, confortáveis, às margens do rio Shire (cerca de US$ 430), assim como barracas simples (US$ 250); A Tribes Travel oferece uma excursão de 11 dias a Maláui, concentrada em Liwonde e outros parques de animais selvagens, que custa cerca de US$ 6.200 por casal.

Muitas operadoras em Blantyre realizam passeios curtos a Liwonde, mas o Mvuu é o único hotel no parque, e também a melhor operadora para passeios de barco no rio Shire e estadias mais longas no parque. O Mvuu também oferece safáris de carro.

Lago Maláui

Os esportes aquáticos no lago incluem iatismo, remo e mergulho. A maioria dos resorts oferece estas atividades, mas se ficar em uma pensão mais simples ainda é possível encontrar quem ofereça estes serviços. Para iatismo, a Danforth Yachting (265-99-996-0077; www.danforthyachting.com) cobra US$ 200 por pessoa, para um mínimo de quatro pessoas, para os passeios fretados. A Kayak Africa (27-21-783-1955; www.kayakafrica.net) oferece excursões de bicicleta e caiaque.

O Sunbird Nkopola Lodge on Lake Malawi (265-1-580-444; www.sunbirdmalawi.com) oferece quartos duplos a partir de US$ 121. No restaurante principal, o jantar para dois com bebidas custará cerca de quatro mil kwachas.

Zomba

O Sunbird Ku Chawe no topo do monte Zomba, oferece vistas deslumbrantes das colinas arredondadas ao redor e quartos duplos a partir de US$ 125 (265-1-514-211; www.sunbirdmalawi.com).

A melhor forma de ver a região é seu carro deixar você no topo do platô, no Sunbird. De lá, é possível fazer uma lenta caminhada descendo a estrada até a base, parando para explorar as curtas trilhas que entram na floresta, e combinando para que seu motorista pegue você quando cansar.

Tradução: George El Khouri Andolfato
* Texto publicado originalmente em maio de 2009

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