Conheça a aldeia de Samthar, uma das opções para ver o lado mais simples da Índia

JONATHAN ALLEN

New York Times Syndicate *

O jipe tinha desaparecido depois da curva, e todos os aldeões que tinham desembarcado comigo foram para suas casas. Estava anoitecendo, o canto das cigarras aumentava e eu comecei a sentir o pânico que um morador urbano pode experimentar ao se ver repentinamente sozinho à beira da estrada em uma aldeia remota, no baixo Himalaia de Bengala Ocidental, sem ter idéia de onde ir.
  • Brian Sokol/NYT

    Dentre as cerca de 638.364 aldeias na Índia, Samthar é uma das que oferece hospedagem para turistas


Um lugar fresco

Antes que meu pânico aumentasse, uma mulher jovem vestindo uma jaqueta preta sobre um salwar kameez amarelo fluorescente apareceu. Ela disse se chamar Pushpa e me disse para segui-la em uma descida de machucar o tornozelo por trilhas íngremes, cheias de pedras, que compõem as vias secundárias da aldeia de Samthar. Nós descemos lentamente por dez minutos ou mais, passando por uma ocasional casa azul estilo celeiro, com minha apreensão acalmada pelo lento balançar como pêndulo de sua trança contra as costas de sua jaqueta.

Nós passamos por um alto corredor de milho e chegamos a um prédio de pedra com telhado inclinado de alumínio corrugado. A estrutura simples foi o motivo para ter vindo para cá, em vez de qualquer outras das cerca de 638.364 aldeias na Índia: Samthar é uma dentre o número crescente de aldeias indianas que estão oferecendo hospedagem para turistas.

Aguardando do lado de fora no fresco entardecer estava o pai de Pushpa, Krishna Kumar Bhujel, vestindo duas camisas de abotoar, um blazer de tweed e um chapéu de lã com um pompom que balançava com um ligeiro atraso atrás dele. Seu rosto era enrugado de velhos sorrisos. Pawitra, sua esposa, chegou e passou um arroz púrpura grudento de boas-vindas na minha testa, sorriu e se afastou.

Então, juntamente com dois dos oito irmãos de Pushpa, nós subimos uma escada de madeira e nos sentamos na varanda, que dava vista para terraços em forma de degraus de arroz dourado, cercados por bambus e bananeiras. Ao longe, caso as nuvens se afastassem, estava a limiar da neve.

Nós conversamos sobre nossas famílias em uma mistura de inglês, hindi e nepalês enquanto Pushpa trazia uma bandeja com biscoitos e chá colhido nas colinas de Darjeeling próximas. Pushpa e sua família pertencem aos 10% da humanidade que vive nas aldeias da Índia. Os outros 90% raramente aparecem para visitar. Está cada vez mais difícil oferecer boas desculpas, já que quartos de hóspedes baratos passaram a ser oferecidos em dezenas de aldeias, quase todos com a ajuda de agências de caridade locais ou, mais recentemente, do governo indiano e do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.

"A aparência e sensação nestes lugares é muito diferente de um hotel cinco estrelas", me disse Leena Nandan, uma autoridade do Ministério do Turismo, após minha viagem, uma forma delicada de dizer que os hóspedes que desejam um chuveiro frequentemente receberão um balde de água quente. "Assim que houver a apreciação e o entendimento, eu acho que os visitantes passarão a conhecer as pessoas. As pessoas estão no coração disto."

A jornada da cidade mais próxima até Samthar dura cinco horas por trilhas sinuosas e cercadas de mata na montanha, em um jipe dividido de forma apertada com seus novos vizinhos. Após descermos em Samthar, um homem permaneceu na traseira do jipe com aspecto pasmo e triste, enquanto sangue coagulava em seu cabelo como um emplastro adesivo, saído de um ferimento aberto em um solavanco particularmente duro na estrada. Outra passageira - uma enfermeira local chamada Mary - deu seu diagnóstico: "Ele está bêbado", ela disse em inglês, com expressão de desaprovação. "Chang!" ela suspirou, que soou como uma versão nepalesa de "Ah, é a vida".

Chang, na verdade, era a nome da cerveja caseira da região: de sabor doce, mas que às vezes azeda as relações na aldeia.

Krishna e eu tomamos algumas amigavelmente na minha primeira noite, cada um por um canudo de bambu enfiado na tampa de uma pesada caneca de metal para cerveja, jogando cartas com um baralho tão amolecido pelo tempo que era difícil de embaralhar.

Mas eu descobri que as coisas frequentemente acabam mal após uma noite bebendo chang. Uma tarde, eu apareci acidentalmente em uma reunião do conselho da aldeia, que estava resolvendo uma disputa causada por chang. Momentos antes da minha invasão no conselho, o sarpanch, o líder eleito da aldeia, tinha dado sua decisão a respeito de uma disputa entre duas famílias sentadas e encarando de modo severo uma à outra em cada lado da sala, com foices aos seus pés.

Pranay, um funcionário do governo local, me informou o que estava acontecendo. Ele explicou que era um caso rotineiro: o acusado foi ordenado a pagar 51 rúpias, cerca de US$ 1, à família da vítima por ter dito, enquanto estava bêbado, coisas que não deveria.

"Às vezes termina em morte no campo e o assassino foge, mas apenas a cada lua azul", disse Pranay. "Quanto tempo você ficará na aldeia?"

"Apenas poucos dias", eu disse. "Por que, há alguma lua azul próxima?"

"Só alguns dias?" ele disse, atônito. "É preciso ficar pelo menos dois ou três meses para apreciar este lugar, para começar a entendê-lo. O que você aprenderá em três dias?"

Visitando os arredores

A principal atividade para os hóspedes da aldeia é observar e participar do ritmo da vida local. Por exemplo, eu ajudei Krishna a colher arroz: ele me deu sua foice e eu cortei de forma amadora três feixes secos. Perto dali, um de seus filhos espalhava excremento de vaca no solo usando ambas as mãos nuas. Ele me chamou para me juntar a ele. Eu recusei.

Eu logo passei a negligenciar minhas tarefas. Era bem mais divertido Pushpa me mostrar a aldeia e arredores. Entre as visitas eu fiquei preso em congestionamentos de cabras e seus pastores, vindo na direção oposta pelas trilhas estreitas. Borboletas em technicolor tão grandes como morcegos passavam voando. Eu às vezes parava para olhar aranhas gigantes, com corpos do tamanho de ameixas pretas, enquanto pairavam no ar tendo como fundo o Himalaia, mas nunca por tempo demais, imaginando que se podiam esticar uma teia entre árvores com mais de cinco metros de distância, elas podiam facilmente saltar no meu rosto.

Nós visitamos uma amiga de Pushpa que vive no enclave cristão de Samthar, em uma casa decorada com fotos do papa, onde discutimos a paixão da jovem anfitriã por Prashant Tamang, um natural de Darjeeling que venceu o programa "Indian Idol". Depois nos sentamos ao redor de uma bigorna com um ferreiro, que disse que basicamente faz foices, mas como todos na aldeia de agricultores já têm jogos de foices, os negócios andavam fracos.

Mais tarde, eu conheci o tio de Pushpa em uma trilha que ele ajudou a abrir na encosta da montanha. Ele descreveu a equação da vida da aldeia: "O clima é melhor aqui, o ar é mais limpo, as pessoas aqui são as melhores", ele disse em hindi. "Mas se ganha menos dinheiro aqui. Muito menos." Para os Bhujels, pelo menos, as coisas estão mudando. Em casa, Deo, o primo adolescente de Pushpa, disse que queria ser cortador de grama quando crescesse, apesar de cortar grama já fazer parte de suas tarefas matinais. Pushpa, que tem pouco mais de 20 anos, disse de forma hesitante que queria ser uma médica.

Mas posteriormente, enquanto preparava o jantar, Pushpa, cuja mãe casou aos 16 anos, falou com mais convicção. "Eu primeiro atingirei meu próprio sucesso e só depois me casarei", ela disse em inglês, rindo. Com um sorriso constante, ela serviu o arroz e os legumes para mim e seu pai à mesa; depois serviu os demais; só então, após os homens terem se alimentado, mantendo as tradições daqui, é que ela comeu, sentada no chão ao lado do fogão.
  • Brian Sokol/NYT

    A magnífica vista das montanhas é uma das atrações de Samthar


Informação aos visitantes

Para chegar lá

De Nova Déli, a Jet Airways (www.jetairways.com), Indian Airlines (indian-airlines.nic.in) e Kingfisher Air (www.flyairdeccan.net) voam para o Aeroporto de Bagdogra, perto de Siliguri, com passagens a partir de US$ 200. O aeroporto fica a cerca de quatro ou cinco horas de táxi de Kalimpong, a cidade mais próxima de Samthar.

Gurudongma Tours (91-3552-255204; www.gurudongma.com) organiza as estadias e também pode arranjar pernoites em Kalimpong e transporte para Samthar; contate Catherine Pradhan Lobo pelo número (91) 94340-62100 ou Jimmy Singh, (91) 94340-47273. Duas famílias em Samthar e uma terceira família em uma aldeia próxima agora oferecem hospedagem, por 2.250 rúpias (cerca de US$ 42, com o dólar cotado a 53 rúpias) por pessoa por noite, incluindo refeições caseiras feitas na hora e água (fervida e filtrada).

Outras estadias

A Himalayan Homestays (91-1982-250953; www.himalayan-homestays.com) coloca os hóspedes com famílias em chalés de pedra ensolarados em Ladakh, um dos cantos mais espetaculares do Himalaia. As diárias custam a partir de US$ 12 por pessoa.

O projeto do Ministério do Turismo indiano de hospedagem nas aldeias é o mais ambicioso. Seu site (www.exploreruralindia.org) lista 28 aldeias do alto do Himalaia até os úmidos arrozais de Kerala, todas oferecendo graus diferentes de austeridades. Prepare-se para encontrar um confuso jargão de desenvolvimento ("hardware" é traduzido mais ou menos como prédios, "software" significa pessoas) quando falar com as organizações não-governamentais que organizam sua viagem.

Praticidades

Leena Nandan, a secretária adjunta do Ministério do Turismo, recomenda que os hóspedes bebam apenas água engarrafada, que geralmente é vendida no local. As cozinheiras foram treinadas em higiene alimentar em locais dirigidos pelo governo e informadas a não carregarem nos condimentos, a menos que lhes peçam o contrário; as refeições costumam ser preparadas com produtos frescos locais e são frequentemente vegetarianas.

Os quartos de hóspedes em Samthar têm eletricidade, banheiros próprios com vasos com assento ao estilo ocidental e pias com água corrente, diferente da maioria das casas na aldeia, e baldes de água quente são levados ao seu quarto para banho; outros locais podem ser mais básicos, com lampiões de querosene, privadas de agachar e jarros de água no lugar do papel higiênico, que para muitos indianos é um hábito ocidental frívolo.

Seu médico aconselhará vacinação e profilaxia contra malária; o Odomos é um creme repelente de mosquito eficiente e barato, facilmente encontrado na Índia.

Tradução: George El Khouri Andolfato
* Texto publicado originalmente em março de 2009

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