Berlim revive na literatura tempos de decadência e prosperidade

NICHOLAS KULISH

New York Times Syndicate *

Em uma daquelas longas noites de dezembro em Berlim, que fazem os dias parecerem não mais do que meros intervalos, a garoa constante e os paralelepípedos escorregadios deveriam manter em casa qualquer um que pensasse na idéia de sair, sob um cobertor. Mas lá estava uma multidão de jovens trajando casacos com capuz e tênis, mais de 100 pessoas para assistir a um grupo conhecido como Chaussee der Enthusiasten, ou Avenida dos Entusiastas, realizando sua leitura semanal de suas obras mais recentes.
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    Prédio do parlamento federal da Alemanha, o Reichstag, foi a sede de governo em duas guerras


Peças desafiadoras

Algumas das peças eram vinhetas cuidadosamente elaboradas, outras eram frases escritas à mão, associações livres de idéias às manchetes do dia, feitos desafiadores de literatura sem rede de segurança. Dois homens jovens, Jochen Schmidt e Stephan Zeisig, falavam no palco como uma versão de Berlim Oriental de "A Prairie Home Companion", concluindo cada sentença com "wahr?" que significa "verdade?", e é o arremate da maioria dos pensamentos expressos no dialeto berlinense e um desafio em vez de uma pergunta, sabe como é?

Eles falavam sobre tentar parecer "oposicionista" quando estavam amadurecendo nos tempos que antecederam a queda do Muro, não por convicção, mas porque souberam que agentes femininas da Stasi (a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental) dormiam com os oponentes do regime para extrair seus segredos. O público riu.

"Ah, qualé", se irritou uma colega escritora e Entusiasta, Kirsten Fuchs, enquanto aguardava por sua vez. "Na semana passada vocês falaram sobre a paixão pela líder Pioneira", se referindo à versão doutrinadora da Alemanha Oriental de um líder escoteiro. A multidão caiu na gargalhada. A leitura prosseguiu.

Apenas mais outra noite em Berlim.

Com sua história como capital do Terceiro Reich e tempo como o símbolo dividido da Guerra Fria, Berlim pode não ser conhecida por suas histórias felizes, mas é conhecida na Alemanha por um certo humor negro, aguçado pela tragédia, sofrimento e o próprio ambiente inclemente. Os estrangeiros frequentemente se deparam com esta postura em "Cabaret", a expressão musical de "Histórias de Berlim" de Christopher Isherwood, seu tributo em prosa à capital nos últimos dias da República de Weimar.

Inteligência e jogos de palavras são um esporte local, e os berlinenses comparecem em peso a saraus grandes e pequenos, do majestoso Literaturhaus em Charlottenburg, no oeste, aos bancos e concreto aparente em RAW-tempel - onde ocorreu o sarau do Chaussee der Enthusiasten - no antigo pátio ferroviário onde o Reichsbahn consertava seus trens em Friedrichshain, no antigo leste.

Abrigos baratos

Do outro lado do oceano, já há algum tempo corre a notícia sobre os espaços cavernosos existentes em Berlim por uma taxa aparentemente simbólica - mesmo segundo os padrões das castigadas pela crise Nova York e Londres. Estes baixos aluguéis permitiram famosamente a artistas industriais encontrarem estúdios para suas enormes esculturas, e o aluguel de espaço para ensaio para bandas.

Aplicado em pequena escala, isso significa abrigos ultrabaratos para autores aspirantes que precisam de espaço apenas para um laptop (ou, em casos avançados do vírus do escritor, de uma máquina de escrever antiga) e uma estante de livros precária.

Há lugares mais baratos no mundo, apesar de atualmente ser necessário ir muito mais ao leste de Varsóvia para encontrá-los, mas nenhum deles também conta com a mesma amplitude de oferta cultural. Seja o Instituto KW de Arte Contemporânea ou o Festival de Cinema de Berlim, Daniel Barenboim conduzindo "Fidélio" na Ópera de Berlim ou o telhado preto do teatro Berliner Ensemble de Bertolt Brecht, pairando tanto sobre o rio Spree quanto candidatos a dramaturgos, há cultura e tradição.
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    A Berliner Fernsehturm é uma torre de televisão e um símbolo que pode ser visto de vários cantos da cidade


É essa história tanto ou mais do que a economia que tem apelo junto aos escritores. Berlim expõe suas velhas feridas, como as cicatrizes em um retrato de Otto Dix. Nesta capital, o governo deixou as pichações dos soldados soviéticos nos muros do Reichstag como um lembrete aos legisladores da hora mais sombria do país e como foram parar lá.

"Berlim conta abertamente suas histórias e respira pesadamente a história em cada esquina", disse Thomas Pletzinger, que conheci há uma década quando era um jovem editor assistente em Nova York. No ano passado, seu primeiro romance, "Bestattung eines Hundes", ou "Funeral de um Cão", recebeu amplos elogios da crítica na Alemanha; ele será publicado nos Estados Unidos no final de 2010.

Pletzinger descreveu a si mesmo como tendo crescido "em uma cidade pequena, bombardeada, mas agora aparentemente livre de história na Alemanha Ocidental e que esconde todos os traços da história com shopping centers e a arquitetura horrível dos anos 60". Berlim, a agitada metrópole de "Berlin Alexanderplatz" de Alfred Doblin, sempre foi sua meta quando jovem em sua cidade natal de Hagen, não distante de Dortmund. Trabalhando atualmente em um romance situado em Berlim, Praga e Nova York entre 1925 e 2005, ele disse que este é o lugar que tem para escrever.

Mais e mais, a cidade está expandindo seu papel histórico como incubadora de livros. Escritores premiados e anônimos, berlinenses e estrangeiros, todos em Berlim têm um livro dentro de si e todos com um livro dentro de si parecem pernoitar em Berlim.

A grande massa de autores é apoiada por uma superestrutura de fundações, subvenções e os ubíquos sebos que parecem estar presentes em toda esquina, sem contar as nobres vilas culturais, como a Literarisches Colloquium Berlin e a Academia Americana em Berlim, ambas no mesmo lago adorável - o Wannsee - perto de onde o poeta Heinrich von Kleist se suicidou em 1811 após atirar em Henriette Vogel, que estava morrendo de câncer.

Boêmia literária

Sete jovens escritores, incluindo Pletzinger, alugaram um espaço no antigo lado oriental da cidade para desafiar a noção de que sua profissão é, por necessidade, solitária. Eles abriram um espaço onde podem trabalhar lado a lado, o chamaram de Adler & Sohne Literaturproduktion, uma espécie de oficina intelectual para a costura de sentenças.

A área ao redor de Helmholtzplatz, no extremo norte de Prenzlauer Berg, é conhecida por seus bares e cafés, onde a música e a conversa prosseguem madrugada adentro. Mas em uma noite chuvosa em julho de 2008, foi em um pequeno espaço comercial em um beco próximo onde os convidados transbordavam para a calçada, ignorando o tempo e bebendo e conversando até a madrugada.

Escritores da Polônia e México, Nova York e Londres, assim como de todos os cantos da Alemanha, celebravam a inauguração da Adler & Sohne. Sasa Stanisic, um co-fundador vindo da Bósnia e autor de "Wie Der Soldat Das Grammofon Repariert" (como o soldado conserta o gramofone), um romance em um cenário alemão durante o conflito na Bósnia, estava entre eles. Ele conversou em inglês sobre uma viagem recente a Iowa, onde participou do Programa Internacional de Escritores da Universidade de Iowa. Perto dali, planos eram traçados para uma reunião na próxima Feira do Livro de Frankfurt. Um encontro ou dois começaram na sala dos fundos.

Mais intrigante era a história que circulava de que este endereço humilde tinha sido uma tabacaria onde o dramaturgo de vanguarda alemão oriental Heiner Müller costumava comprar seus cigarros. A possibilidade de que a nicotina que alimentou a criação de "Hamletmachine" foi comprada neste mesmo espaço parecia, para alguns, bem mais inebriante do que a cerveja.

Palavras escritas são faladas aqui.
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    Turistas tiram fotos no Memorial aos Judeus Mortos da Europa, que foi projetado em homenagem às vítimas judias do Holocausto


Estes são os locais onde encontrar informação sobre saraus e grupos de escritores em Berlim:

Adler & Sohne Literaturproduktion: Senefelderstrasse 31; www.adlerundsoehne.com.

Academia Americana em Berlim: Am Sandwerder 17-19; 49-30-804-830; www.americanacademy.de.

Chausee der Enthusiasten (www.enthusiasten.de) em RAW-tempel: Revaler Strasse 99; 49-30-292-4695; www.raw-tempel.de.

Literaturhaus Berlin: Fasanenstrasse 23; 49-30-887-2860; www.literaturhaus-berlin.de.

Literarisches Colloquium Berlin: Am Sandwerder 5; 49-30-816-9960; www.lcb.de.

Tradução: George El Khouri Andolfato
* Texto publicado originalmente em abril de 2009.

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